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La huelga de policías y el tema de la inequidad en Brasil

fevereiro 10, 2012

Clique aqui para ler o texto sobre a greve da polícia na Bahia, que inaugura minha coluna quinzenal na AmericaEconomia.com. [em espanhol]

 

Foto: Felippe Ramos (com a câmera de uma amiga)

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Necessários adendos prévios ao artigo futuro sobre greve da PM na Bahia

fevereiro 9, 2012

Amanhã será publicado um artigo meu no qual analiso a greve da PM na Bahia. Mas o grampo das conversas de Marco Prisco, da ASPRA, divulgadas no Jornal Nacional e a iminente invasão da Assembléia por tropas do Exército me empurra a tecer adendos ao artigo que sequer saiu. O tempo da internet é esse mesmo – o instante. Portanto, faço 4 adendos prévios ao artigo futuro.

1 – A virada conservadora do PT e suas coalizões (partidárias e econômicas) levaram a perda de espaço do partido na liderança de diversas lutas sociais que não foram cooptadas por preenchimento de cargos públicos comissionados. Boaventura Sousa Santos já adverte que “a maior tragédia da esquerda no século XX foi ter transformado militantes em funcionários”. Logo, o vácuo deixado na luta social tem sido preenchido de forma pulverizada por forças sociais as mais distintas, inclusive da direita mais tradicional, alijada do poder pela ascensão do PT. Obviamente, fosse Prisco filiado ao PT a luta dos PMs estaria impossibilitada em prol de acordos de cúpulas.

2 – Em uma democracia, ser filiado a um partido político específico não é argumento suficiente para fazer julgamentos de valor sobre quem quer que seja. É preciso discutir o programa dos partidos e as conjunturas nacionais e locais. Prisco é do PSDB, porque o PT na Bahia atualmente ocupa o poder. Fosse Prisco meramente oportunista, seria mais lógico estar do lado de quem está no poder e poderia facilmente recompensá-lo com as regalias dos gabinetes de tapete persa. Prisco é do PSDB porque em 1992 e em 2001 o PT defendia a greve e os policiais e hoje faz comitiva de deputados e jabá na Globo contra o movimento sindical. Na política, não existe vácuo de poder. Se o PT sai dos movimentos sociais para se aconchegar nas poltronas de Sarney e Kassab, o PSDB entra nos movimentos sociais. Quando o PSDB entrar no poder novamente (se acontecer e espero que não), o PT (digo, sua cúpula) voltará a procurar os movimentos sociais. Já disse o Luiz Carlos Azenha: “o PT vence as eleições com os movimentos sociais e governa com o PMDB”. Essa postura de uso instrumental dos movimentos sociais para a formação de gabinetes cujas políticas públicas não respondem as demandas dos movimentos têm levado à uma esquizofrenia política no país.

3 – Por sua formação militar e despreparo cidadão, parte dos PMs cometem equívocos (e quiçá crimes) na condução da greve. O sociólogo Bourdieu explicava seu conceito de habitus: “para ser o que se deve ser, basta ser o que se é”. Os PMs simplesmente fazem uso de sua truculência habitual em um momento de greve. A sociedade os treina para matar e vocês queriam que eles fizessem greves como os juízes e médicos fazem? É necessário discutir a desmilitarização e federalização da atividade policial, que pode muito bem ser civil.

4 – A articulação sindical nacional em defesa da PEC 300, em si, não pode ser usada como argumento depreciador ao movimento. Tal movimento, ainda que sob a truculência ensinada aos PMs, combate a pulverização das polícias, criadas como guardas pretorianas de coronéis estaduais. Afirmar que a luta por um PISO salarial para uma categoria é criminosa ou golpista é um absurdo. Imoral é a discussão de TETO salarial para parlamentares e juízes que recebem salários afortunados para viver com privilégios, em conforto e sem perigo.

Espero que, em caso de invasão, a PM não reaja. O governo do estado não podia tolerar a ameaça à indústria do carnaval. O governo federal não podia tolerar a ameaça da eclosão de um movimento nacional pela PEC 300 e que simultaneamente criasse uma onda de insegurança no país prestes a sediar a Rio+20 e eventos desportivos internacionais. Prisco, com toda sua truculência, já começou a luta derrotado por aqueles que, com as boas maneiras de lord, contratam quem lhes faça o serviço sujo. E ojalá possamos encontrar o caminho da discussão profunda sobre uma segurança pública necessária para nosso país – que, pelo visto, deverá acontecer a despeito do PT e do PSDB.

Primavera Baiana: reflexões gramscianas para entender os obstáculos por vir

janeiro 19, 2012

É famosa a frase de Che de que os poderosos poderão deter algumas flores, mas jamais a primavera. Levando em consideração o caso de Salvador, no qual a população começa a esboçar um fôlego de esperança e mobilização contra a destruição de sua cidade, é necessário questionar: a primavera baiana pode ser detida pelos poderosos? Com o uso livre da expressão de Gramsci, eu digo que minha razão pessimista pensa que sim – os poderosos podem deter a primavera baiana – ainda que o otimismo da minha vontade me leve às ruas junto com o povo. Ora, o pessimismo da razão nada mais é do que um senso radical de realismo crítico, uma ferramenta importante àquele que deseja transformar a realidade, posto que permite enxergar a correlação de forças em dada conjuntura a despeito da própria vontade. Exemplo: eu quero o fim da fome no mundo. Há neste exato momento no qual escrevo este post uma possibilidade factível de que a minha vontade, ainda que transformada em protesto nas ruas, se transforme em realidade? O pessimismo da minha razão diz que não. Isso não deve levar-me à resignação de defender que a fome é positiva ou, no mínimo, inevitável. Continuarei defendendo o fim da fome no mundo, mas posto que compreendi como está a atual situação política, tentarei criar espaços para a promoção deste ideal, a fim de conquistar outros para a causa e, quem sabe, um dia ter forças para mudar a realidade estrutural. Portanto, é fundamental àqueles que querem transformar a realidade ter um senso crítico a despeito da própria ideologia, de modo a permitir um melhor planejamento tático e estratégico que cause impacto no mundo real e não apenas no ego daqueles que, por pensar a revolução, acharam que já fizeram demasiado. Enfim, um movimento de mudança tem que pensar não apenas a sua utopia, o seu mundo ideal, mas também os limites que serão postos à sua causa pelos atores sociais, econômicos e políticos que lhe fazem oposição, que defendem interesses antagônicos.

Meu convite é, deste modo, à uma reflexão sobre a composição ensaiada pelo belo movimento cívico da Primavera Baiana. Está claro que, para fazer frente à destruição planejada da cidade por alguns grupos de interesse que dela se apropriaram e transformaram em propriedade privada, faz-se mister uma ampla coalizão de forças que mobilize os setores culturais vanguardistas, os militantes de ultra-esquerda, os estudantes secundaristas e universitários, os professores, o movimento sindical, os jornalistas não-vendidos, os partidos de oposição e, por incrível que pareça, até mesmo certos grupos e indivíduos oportunistas que, por interesse ocasional, advogam a queda do prefeito. Nenhuma destas forças sociais e políticas isoladamente pode alcançar o seu objetivo, taticamente convergente, de derrotar o projeto simbolizado pelo prefeito João Henrique. O purismo, deste modo, faz o indivíduo que não se mistura com aqueles que considera sujos se sentir bem, mas João Henrique permaneceria destruindo a cidade. Então, uma “frente popular” é necessária. Mas simultaneamente é necessário que cada grupo que compõe a frente permaneça atento a seus objetivos estratégicos de mais longo prazo. Enquanto alguns querem o fim da fome no mundo através de uma redistribuição de renda que garanta a todos a possibilidade de ir à padaria, outros defendem apenas que a ajuda humanitária distribua sacos de comida jogando-os aos famintos pelas portas de um helicóptero. Estas diferenças não devem desaparecer pelo simples fato de haver a composição de uma coalizão. Será justamente a disputa entre as distintas concepções no interior da coalizão que garantirá a dinamicidade da discussão política democrática dos projetos, levando à vitória ocasional de um grupo ou outro a depender da correlação de forças constituída.

Ora, esta análise que tão bem serve para analisar as contradições dos governos Lula/Dilma, também me parece adequada para investigar quais os empecilhos que aparecerão à vitória da Primavera Baiana. E, neste sentido, me vem à cabeça duas dificuldades fundamentais: o silêncio/ausência do governador Jaques Wagner que parece ignorar a existência da crise e, em segundo lugar, a blindagem que os partidos políticos que lhe sustentam tentam construir à figura do governador. A crise da capital de um estado administrada por um prefeito que contou com o apoio do governador (e até do presidente) para ser eleito não pode ser entendida como crise simplesmente municipal ou, pior, do indivíduo João Henrique. Se o prefeito decidir se exilar, a crise permanece. O problema é estrutural e advém da desorganização política causada pela desagregação do sistema carlista sem o surgimento de um novo projeto claro para o estado. Para os que têm memória curta, basta ler matéria do A Tarde que mostra a presença do governador Wagner no lançamento da candidatura de João Henrique. Na ocasião, o governador afirmou ter dois palanques na Bahia, o de Walter Pinheiro, do seu partido, e o do prefeito agora satanizado pela crise municipal. Afirmou que, caso o candidato do seu partido não fosse ao segundo turno, apoiaria o prefeito ora na mira.

A política de múltiplos palanques é o meio do iceberg, do qual a crise municipal é a ponta e a deterioração do sistema partidário ideológico é a base. A bigamia do governador na campanha municipal é exemplo da decadência do projeto político para o estado, pois vale dizer que tanto faz um como outro; assim, diluem-se as diferenças que deveriam ser discutidas e disputadas com o eleitorado – os cidadãos. Se tal sodomia política é compreensível (ainda que não necessariamente justificável) pelos limites impostos pela correlação de forças no poder e pela assim chamada necessidade de governabilidade, haveria, ao menos, que se buscar uma política anti-concepcional para se evitar os filhos bastardos gerados: os partidos políticos que perdem sua capacidade de discutir os passos táticos e estratégicos a fim de avançar rumo a constituição de uma hegemonia com vistas a um novo bloco histórico. Ou seja, os partidos políticos passam a ser meros reprodutores do sistema de poder ao invés de pressionarem a correlação de forças existente à uma mudança. Os filhos bastardos não combatem o pai; querem apenas a herança, o espólio. O poder congela-se, posto que já não há quem o pressione.

É por isso que a blindagem ao governador Wagner, que vem sendo ensaiada pelos partidos que o sustentam, é maléfica para a Primavera Baiana. Sem a discussão profunda da sodomia política e da bigamia eleitoral, qualquer Primavera será semi-Primavera, uma Primavera de flores de plástico, que duram, mas não tem cheiro nem o brilho das flores de verdade, que não inspiram poetas. Caso estes partidos (e digo, suas bases militantes) tomem o precioso passo de contestar as redes do poder, ao invés de transformarem-se em escudos dos que ocupam os altos cargos, a Primavera ganhará e, em última instância, inclusive o Governo, que terá forças renovadas para colocar em execução um projeto político mais próximo ao Estatuto do seu partido e desvencilhar-se do emaranhado do status quo que lhe aprisiona. Do contrário, teremos uma blindagem eficaz do Governador (o qual tem apoio de grande parte dos que antes nós chamávamos de carlistas) mas sob o preço de manter a sujeira embaixo do tapete. A estratégia tem funcionado, posto que o IBOPE demonstra que a população considera o prefeito péssimo e o governador bom/ótimo. Mas e a Primavera? Faremos uma Primavera preocupados com o IBOPE ou com o nascimento das flores? Queimaremos o Judas para salvar o César?

Com a palavra, os militantes, os partidos e o Governador. O povo vai às ruas.

O que Celso Furtado nos ensina sobre Belo Monte e Porto Sul

junho 13, 2011

Em um momento da história brasileira na qual o país galga espaços no cenário mundial, é normal que internamente haja forte discussão sobre os rumos nacionais e as diretrizes para a superação do subdesenvolvimento e da dependência. O modelo que os governos nacional e subnacionais têm escolhido é, contudo, arcaico e pautado pela acomodação com interesses exógenos do centro do capitalismo internacional. O modelo tomado pelo governo petista baiano, por exemplo, é pautado na exportação de commodities através de portos e rodovias privadas (Porto Sul) – fórmula clássica do colonialismo/imperialismo enquanto prática política e da escola econômica do desenvolvimento dependente segundo a qual o país pode crescer atendendo simplesmente às demandas das potências. O governo Dilma segue no mesmo embalo ao defender a todo custo a construção de Belo Monte: é preciso gerar energia (no Norte) para a crescente demanda industrial das corporações multinacionais (no Sudeste) – um tipo de imperialismo doméstico, no qual uma região do país exporta commodities para a industrialização de outra. Vejamos o que se pode retirar, de relance, de um escrito do Celso Furtado, a fim de lançar mais algumas luzes sobre a questão.

“[Empresas multinacionais] tendem necessariamente a se transformar em um superpoder. Cabendo-lhe grande parte das decisões básicas com respeito à orientação dos investimentos, à localização das atividades econômicas, à orientação da tecnologia, ao financiamento da pesquisa e ao grau de integração das economias regionais, é perfeitamente claro que os centros de decisão representados pelo Estado nacional são relegados a um plano cada vez mais secundário.

(…)

[Este modelo] é inviável, por ser ineficaz. A grande empresa parece ser um instrumento tão inadequado para enfrentar os problemas do subdesenvolvimento quanto um poderoso exército motorizado se mostra ineficaz ao enfrentar uma guerra de guerrilhas.

(…)

A penetração indiscriminada em uma estrutura econômica frágil, de grandes consórcios, caracterizados por elevada inflexibilidade administrativa e grande poder financeiro, tende a provocar desequilíbrios estruturais de difícil correção, tais como maiores disparidades de níveis de vida entre grupos da população e rápida acumulação de desemprego aberto ou disfarçado.

(…)

É possível que se acentue a concentração de atividades econômicas em certas subáreas, agravando disparidades de níveis de vida entre grupos sociais e áreas geográficas. O resultado no Brasil seria um aumento real ou potencial das tensões sociais. Como as decisões econômicas de caráter estratégico estariam fora do alcance do governo brasileiro, tais tensões tenderiam a ser vistas, no plano político local, tão-somente por seu ângulo negativo. A ação do Estado assumiria caráter essencialmente repressivo.”

(FURTADO, Celso. Raízes do subdesenvolvimento. RJ: Civilização Brasileira, 2003, pgs. 40-41)

Escrito na década de 60, o trecho explica bem como os governos do PT, a nível nacional e local, se transformaram em executores da repressão aos movimentos sociais que contestam o modelo estrutural adotado.

Entre a natureza política e a cultura política

agosto 15, 2008

Tenho sugerido que, assim que uma pessoa se disser de esquerda no Brasil, é preciso questioná-la: “da esquerda de gabinete ou da esquerda de rua?”. Tal é a situação política após a ascensão de Lula e do PT ao mais alto cargo da República, bem como da esquerda em diversos níveis (federal, estaduais e municipais). Contudo, a mudança de postura programática e ideológica não foi inaugurada repentinamente em 2003. Já na época dos primeiros escândalos de Collor, o PT e o PCdoB viram-se numa luta intestina. Setores mais “cautelosos” defendiam que a defesa do impeachment do primeiro presidente eleito diretamente após a ditadura militar poderia causar fragilidade institucional e reanimar os militares. Assim, estrategicamente, seria mais prudente defender a conquista da democracia. Essa tese foi rechaçada pela juventude de ambos os partidos, que disseram não bastar apenas uma democracia institucional formal: era preciso que a democracia fosse verdadeira, substantiva e que, acima de tudo, servisse às demandas da maioria. O resto nós sabemos: a juventude ganhou o debate e as ruas e Collor ganhou a porta de saída do Palácio da Alvorada. Uma grande vitória programática da esquerda. Depois do episódio, Lula participou e perdeu mais duas eleições contra FHC. O PT e a esquerda perceberam que era preciso moderar no discurso e fazer alianças mais ao centro para galgar o poder em um país profundamente conservador como o Brasil. Ao mesmo tempo, a esquerda permanecia nas ruas, fortalecendo os movimentos sociais (lembremos que o Fórum Social Mundial teve sua primeira edição em 2001, em Porto Alegre, então dirigida pelo PT). Em 2002, já sob a efeito do photoshop de ideologias de Duda Mendonça, Lula ganha as eleições. A despeito do PT e da esquerda já estarem mais ao centro no momento da posse, o ritual de passagem da Era FHC para a Era Lula foi marcado pela comoção popular de massas que se deslocaram dos quatro cantos do país para Brasília. Em 2005, dois anos depois, o mesmo Lula já era vaiado no Fórum Social Mundial. Dois anos bastaram para a desilusão. O que aconteceu?

Primeiro, esclareçamos: em certo sentido, uma dose de desilusão faz bem – o photoshop de Duda Mendonça, do Lula salvacionista, precisa vir abaixo. Mas não é disso que se trata. Mas sim do isolamento da esquerda que chegou ao poder. O discurso que embasa esse isolamento e a mudança de postura é o seguinte: ao ocupar um cargo institucional é preciso mudar em dois sentidos – no protocolo (linguagem diplomática, maleabilidade, trânsito entre diferentes posições políticas) e no programa (foco na conciliação). Assim, quando você está frente a frente com um ministro de longa história de militância e engajamento em favor da justiça social e da mudança, na verdade você está frente a frente com o cargo e não com a pessoa. Explica-se, portanto, porque as respostas aos questionamentos populares sejam tão parecidas com as respostas de qualquer direitista – trata-se do protocolo e da necessidade de evitar conflitos (principalmente com a mídia).

Ambos os sentidos da mudança – protocolar e programático – apresentam problemas graves. Após a premissa (correta) de que é preciso ceder em certos pontos, chega-se à conclusão (errônea) de que natureza da política é a conciliação. Na verdade, há duas políticas e ambas são culturalmente construídas: a política dos vencedores e a política dos perdedores em relação à determinada ordem política, econômica, social e cultural. Para os vencedores, a política é conciliação – manutenção do status quo, ainda que frente a concessões. Para os perdedores, por sua vez, a política só pode significar conflito – alteração do status quo e transformações estruturais.

Não que o PT ou o Governo Lula fossem fazer somente (ou prioritariamente) a política do conflito. Mas, ao menos, deveriam ter em mente a centralidade do conflito para a mudança social. Assim, as boas iniciativas do governo, abortadas pela reação conservadora, não morreriam sem frutos, mas desembocariam em uma sociedade civil preparada para continuar a luta que o governo começou, mas não teve correlação de forças suficiente para levar adiante. Exemplo: caso Satiagraha e afastamento do delegado Protógenes Queiroz. Por que o governo (ou o PT), ao invés de contar lorotas ressoadas pela Globo, como a de que o delegado saiu do caso por livre e espontânea vontade para tomar um curso, não procurou politizar a questão, jogando os bastidores do jogo político para a frente do palco (espaço público)? Uma lorota de tal monta apenas faz os cidadãos, que sabem que a verdade dista muito da estória contada, se afastarem da política. Ao invés do governo (supostamente de esquerda ou centro-esquerda) e do PT construírem pontes entre a política institucional e o povo, eles simplesmente destróem os resquícios de pontes. Claro que a sociedade civil crítica reconhece os avanços trazidos pelo Governo Lula. Mas sabe que trata-se “deles” e não de “nós”. É a outra esquerda, a institucional, e não a nossa esquerda, pulsante e vívida, da rua. Trata-se da esquerda estatística, que responde tudo com números, e não da esquerda que sente o sofrimento humano.

Cabe perguntar: se, ao chegar ao poder, não se trata mais do histórico militante X, mas, sim, do ministro X (numérico e protocolar), de que adianta chegar ao poder, então? Se não para construir pontes entre Estado e sociedade, democratizando e politizando o primeiro, mostrando suas fissuras, para que dirigir o Estado?

Carl Schmitt dizia que a política é a arte da disputa entre amigos e inimigos para determinar vencedores e perdedores. Assim, a esquerda tem que ter consciência de que há um jogo de soma zero, no qual, se alguém ganha, outro deixa de ganhar. Não é possível agradar a todos. Quem vai ganhar com o Governo Lula? Lula, o PT e a esquerda têm que tomar sua decisão: abraçar a idéia de natureza política (defesa do status quo estrutural da política) ou a idéia de cultura política (possibilidade de construção coletiva da mudança)? Não se trata de defender rupturas institucionais, mas mudanças na concepção do que é a política e qual o papel histórico da esquerda à frente do Estado – a meu ver, construir pontes e não afastar-se rumo aos braços e abraços da nossa conhecida elite.

Pinheiros e Política

julho 31, 2008

Para aqueles leitores deste blog que não são de Salvador, cabe uma nota: Walter Pinheiro é o candidato do PT à prefeitura, tendo como vice a ex-prefeita Lídice da Mata, numa coligação na qual constam PT-PSB-PCdoB-PV. No início da corrida eleitoral, Pinheiro saiu atrás de três outros candidatos: ACM Neto (dispensa apresentações), Antônio Imbassahy (atualmente no PSDB, mas criado no colo de ACM, quando foi eleito prefeito) e João Henrique (PMDB, buscando a reeleição e péssimo gestor público). Pinheiro é menos conhecido do que sua vice, o que demonstra a força do PT (que atualmente governa o estado, com Jaques Wagner) para encabeçar chapas. Lídice na vice demonstra uma tentativa de agregar força à candidatura de esquerda, emprestando-lhe nome e votos. Mas toda essa análise de conjuntura me servirá para um objetivo mais ousado de traçar algumas considerações acerca da política hoje. Parto da questão: como Pinheiro poderá reverter situação tão desfavorável, uma vez que os três candidatos à sua frente saem como favoritos?

Aqui começo uma expansão de escopo, uma vez que meu argumento pretende ser útil para a política da esquerda no Brasil e não apenas em Salvador. Qual o público que vota no PT (ouçam bem: PT e não apenas Lula)? É um público eleitoral da classe média bem alfabetizada com viés crítico, oriunda, não raro, do funcionalismo público e das universidades. Digamos, um público mais CartaCapital e menos Veja. Este público mais esquerdista (que, segundo o filósofo italiano Norberto Bobbio, defende a prioridade da igualdade frente à prioridade da liberdade defendida pelos liberais de direita) sempre esteve automaticamente vinculado à histórica coligação PT-PCdoB desde a redemocratização. Contudo, a dificuldade de articulação entre movimento social (ideais, identidade, bandeiras, demandas) e governo (instituição, burocracia, poder, governabilidade, concessão, aliança), em um contexto de hegemonia do neoliberalismo (privatização, redução da função social do Estado, predomínio do discurso técnico sobre o político [governo virou gestão]), desembocou numa desilusão com a política de contestação baseada nas instituições (partidos, sindicatos, entidades estudantis, Estado). Assim, o alinhamento automático com o PT-PCdoB declinou. Por alguns instantes, alguns intelectuais, e mesmo cidadãos comuns, cogitaram a ascensão de um novo sentido da política que estaria além da institucionalidade dos partidos e parlamentos. Contudo, este novo sentido se dá pari passu ao velho sentido. As mudanças nas mentalidades acontecem em um ambiente institucional já bem petrificado e consolidado, o que implica que somos obrigados a conviver com a ordem em declínio enquanto a nova vai surgindo paulatinamente. E esta nova ordem não implica em desaparecimento da antiga, mas em sua contínua adaptação. Assim, por exemplo, após uma década de neoliberalismo inconteste (no Brasil, de Collor à FHC) e desilusão dos esquerdistas no contexto pós-Muro de Berlim, a ascensão das esquerdas na América do Sul (Chávez, Lula, Morales, Lugo, Correa, etc) engendrou um novo período de centralidade do Estado, o que deu vazão a se falar em pós-Consenso de Washington. É ao Estado que se dirigem temas como Unasul, pesquisa com células-tronco, conquista de direitos, etc, ainda que as discussões emanem da sociedade civil. Assim, o desafio posto é a emergência de uma nova articulação entre movimento social e Estado, uma vez passada a euforia utópica de que se poderia mudar tudo repentinamente através de atos de vontade. À sociedade civil crítica não cabe abrir mão de sua radicalidade, mas, sim, canalizá-la para uma fiscalização autônoma dos atos emanados dos governos de esquerda enquanto mantém seus discursos no âmbito da disputa ideológica por convecimento da maioria. Assim, por exemplo, o movimento estudantil pode reivindicar o passe livre, mas simultaneamente reconhecer os avanços de uma política de transporte urbano que garanta uma tarifa justa e acessível à população. Nesse sentido, é preciso reconhecer, como sugere o historiador Fernando Braudel, que a história é composta por três tempos: o curto – do acontecimento, o médio – da conjuntura, e o longo – da estrutura. Os movimentos sociais podem, então, manter suas identidades e bandeiras intactas, ao mesmo tempo em que dialogam com a realidade presente na qual o neoliberalismo dá sinais de esgotamento, abrindo espaço para novas experiências institucionais, ainda que muito aquém do que se tem como ideal.

E o que isso tudo tem a ver com Pinheiro? Muita coisa. Primeiro, porque estas mudanças citadas engendram um novo tipo de engajamento, que é múltiplo: o sujeito crítico pode defender a causa ambientalista, a feminista, a identidade étnica, o software livre, etc, e, simultaneamente, manter-se afastado da política institucional, a qual critica, o que gera déficit nos quadros da esquerda tradicional e, assim, uma virada da esquerda ao pragmatismo da gestão ao invés da ênfase no programa estratégico. Segundo, porque o novo contexto implica em eleitores mais flexíveis e menos alinhados automaticamente. Um sujeito crítico pode votar em Lula (PT) em uma eleição, em Heloísa Helena (PSOL) em outra, e em Cristóvam Buarque (PDT) numa outra. Disso decorrem duas implicações: 1) é preciso recriar a ponte entre sujeitos críticos e política institucional, combatendo o abandono da última aos políticos de direita, aos meramente fisiologistas ou à esquerda sem programa e 2) é preciso convencer constantemente o eleitor crítico. Essas implicações, aparentemente negativas, são, na verdade, grandes oportunidades de aprofundamento da democracia, uma vez que o alinhamento prévio é substituído pela necessidade constante de convencimento e debate (uma chance para o agir comunicativo, pensado pelo filósofo alemão Jürgen Habermas, mas limitado às esferas de influência da esquerda). O desafio de Pinheiro (tomem Pinheiro como cada candidatura de esquerda no Brasil) é, então, convencer o eleitor crítico ouvindo-os, mais do que lhes falando, e, assim, garantindo o espaço público necessário para a reconstrução da ponte entre intelectuais/povo e a política. Daí a importância da ampla participação já na formulação do programa de governo, o que indicaria inclinação (e, quem sabe, comprometimento) à aplicação de políticas progressistas, como conselhos descentralizados e setoriais (por bairro, por tema – juventude, mulheres, etc), orçamento participativo, etc. Pinheiro, concluindo, precisa demonstrar vontade de refazer a política institucional, relegitimando-a frente aos setores críticos da sociedade e acordando a esquerda do seu sono programático. Assim, haverá a possibilidade de reconstrução da capacidade coletiva de acreditar e da esquerda de ser auto-confiante – em oposição à política opaca cabalmente demonstrada pela postura do governador Wagner de afirmar que tem três candidatos, numa tentativa de retirar a discussão programática da pauta das eleições municipais. Precisamos menos de jovens tristonhos pagos para segurar bandeiras na sinaleira e mais de debate de idéias. Caso contrário, a história do muro pode, melancolicamente, se repetir.