Posts Tagged ‘Lula’

Entre a natureza política e a cultura política

agosto 15, 2008

Tenho sugerido que, assim que uma pessoa se disser de esquerda no Brasil, é preciso questioná-la: “da esquerda de gabinete ou da esquerda de rua?”. Tal é a situação política após a ascensão de Lula e do PT ao mais alto cargo da República, bem como da esquerda em diversos níveis (federal, estaduais e municipais). Contudo, a mudança de postura programática e ideológica não foi inaugurada repentinamente em 2003. Já na época dos primeiros escândalos de Collor, o PT e o PCdoB viram-se numa luta intestina. Setores mais “cautelosos” defendiam que a defesa do impeachment do primeiro presidente eleito diretamente após a ditadura militar poderia causar fragilidade institucional e reanimar os militares. Assim, estrategicamente, seria mais prudente defender a conquista da democracia. Essa tese foi rechaçada pela juventude de ambos os partidos, que disseram não bastar apenas uma democracia institucional formal: era preciso que a democracia fosse verdadeira, substantiva e que, acima de tudo, servisse às demandas da maioria. O resto nós sabemos: a juventude ganhou o debate e as ruas e Collor ganhou a porta de saída do Palácio da Alvorada. Uma grande vitória programática da esquerda. Depois do episódio, Lula participou e perdeu mais duas eleições contra FHC. O PT e a esquerda perceberam que era preciso moderar no discurso e fazer alianças mais ao centro para galgar o poder em um país profundamente conservador como o Brasil. Ao mesmo tempo, a esquerda permanecia nas ruas, fortalecendo os movimentos sociais (lembremos que o Fórum Social Mundial teve sua primeira edição em 2001, em Porto Alegre, então dirigida pelo PT). Em 2002, já sob a efeito do photoshop de ideologias de Duda Mendonça, Lula ganha as eleições. A despeito do PT e da esquerda já estarem mais ao centro no momento da posse, o ritual de passagem da Era FHC para a Era Lula foi marcado pela comoção popular de massas que se deslocaram dos quatro cantos do país para Brasília. Em 2005, dois anos depois, o mesmo Lula já era vaiado no Fórum Social Mundial. Dois anos bastaram para a desilusão. O que aconteceu?

Primeiro, esclareçamos: em certo sentido, uma dose de desilusão faz bem – o photoshop de Duda Mendonça, do Lula salvacionista, precisa vir abaixo. Mas não é disso que se trata. Mas sim do isolamento da esquerda que chegou ao poder. O discurso que embasa esse isolamento e a mudança de postura é o seguinte: ao ocupar um cargo institucional é preciso mudar em dois sentidos – no protocolo (linguagem diplomática, maleabilidade, trânsito entre diferentes posições políticas) e no programa (foco na conciliação). Assim, quando você está frente a frente com um ministro de longa história de militância e engajamento em favor da justiça social e da mudança, na verdade você está frente a frente com o cargo e não com a pessoa. Explica-se, portanto, porque as respostas aos questionamentos populares sejam tão parecidas com as respostas de qualquer direitista – trata-se do protocolo e da necessidade de evitar conflitos (principalmente com a mídia).

Ambos os sentidos da mudança – protocolar e programático – apresentam problemas graves. Após a premissa (correta) de que é preciso ceder em certos pontos, chega-se à conclusão (errônea) de que natureza da política é a conciliação. Na verdade, há duas políticas e ambas são culturalmente construídas: a política dos vencedores e a política dos perdedores em relação à determinada ordem política, econômica, social e cultural. Para os vencedores, a política é conciliação – manutenção do status quo, ainda que frente a concessões. Para os perdedores, por sua vez, a política só pode significar conflito – alteração do status quo e transformações estruturais.

Não que o PT ou o Governo Lula fossem fazer somente (ou prioritariamente) a política do conflito. Mas, ao menos, deveriam ter em mente a centralidade do conflito para a mudança social. Assim, as boas iniciativas do governo, abortadas pela reação conservadora, não morreriam sem frutos, mas desembocariam em uma sociedade civil preparada para continuar a luta que o governo começou, mas não teve correlação de forças suficiente para levar adiante. Exemplo: caso Satiagraha e afastamento do delegado Protógenes Queiroz. Por que o governo (ou o PT), ao invés de contar lorotas ressoadas pela Globo, como a de que o delegado saiu do caso por livre e espontânea vontade para tomar um curso, não procurou politizar a questão, jogando os bastidores do jogo político para a frente do palco (espaço público)? Uma lorota de tal monta apenas faz os cidadãos, que sabem que a verdade dista muito da estória contada, se afastarem da política. Ao invés do governo (supostamente de esquerda ou centro-esquerda) e do PT construírem pontes entre a política institucional e o povo, eles simplesmente destróem os resquícios de pontes. Claro que a sociedade civil crítica reconhece os avanços trazidos pelo Governo Lula. Mas sabe que trata-se “deles” e não de “nós”. É a outra esquerda, a institucional, e não a nossa esquerda, pulsante e vívida, da rua. Trata-se da esquerda estatística, que responde tudo com números, e não da esquerda que sente o sofrimento humano.

Cabe perguntar: se, ao chegar ao poder, não se trata mais do histórico militante X, mas, sim, do ministro X (numérico e protocolar), de que adianta chegar ao poder, então? Se não para construir pontes entre Estado e sociedade, democratizando e politizando o primeiro, mostrando suas fissuras, para que dirigir o Estado?

Carl Schmitt dizia que a política é a arte da disputa entre amigos e inimigos para determinar vencedores e perdedores. Assim, a esquerda tem que ter consciência de que há um jogo de soma zero, no qual, se alguém ganha, outro deixa de ganhar. Não é possível agradar a todos. Quem vai ganhar com o Governo Lula? Lula, o PT e a esquerda têm que tomar sua decisão: abraçar a idéia de natureza política (defesa do status quo estrutural da política) ou a idéia de cultura política (possibilidade de construção coletiva da mudança)? Não se trata de defender rupturas institucionais, mas mudanças na concepção do que é a política e qual o papel histórico da esquerda à frente do Estado – a meu ver, construir pontes e não afastar-se rumo aos braços e abraços da nossa conhecida elite.

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Mudando de assunto

março 14, 2008
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Eu ia falar, obviamente, da visita de Condoleezza Rice ao Brasil e à Salvador. Já estava programada há tempos, inicialmente para a assinatura de um tratado bilateral para o combate ao racismo e o fortalecimento do turismo étnico (seja lá o que isso for; talvez pensem que os negros devem visitar lugares onde predomina a cultura negra, o que explica a visita à Bahia – mais especificamente ao Pelourinho e à Igreja de N. Srª. do Rosário dos Pretos, depois de Condi ter recebido uma fita do Senhor do Bonfim de uma baiana típica). Digressão: os brasileiros adoram cultivar seus estereótipos e depois ficam estupidamente reclamando do filme Turistas. Voltando ao assunto: com a crise diplomática na América do Sul, obviamente esta se tornou pauta principal. Condi quer clareza acerca da posição brasileira sobre as FARC e o apoio ao governo democrático de Uribe. O chanceler Celso Amorim, como bom diplomata, respondeu com um sorrisão no rosto:
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Celso Amorim e Condi
Porém, ao que tudo indica, o Brasil manterá sua linha nem tanto nem tão pouco – alisa Chávez e abraça Condi. Para deixar a conversa morrer, o chanceler tocará no assunto tabu: reforma do sistema ONU e assento permanente no Conselho de Segurança. Pronto. A partir daí, só mesmo biodiesel e turismo étnico.
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Mas o melhor da visita de Condi não teve nada a ver com o acima dito. É que a péssima cobertura da mídia tupiniquim sempre me leva a pesquisar mais informações na rede mundial. A princípio, os resultados também são pífios. O google exibe logo o Folha, Uol, G1, Globo e merdas do tipo. Mas lá pela página 10 da procura começam a aparecer páginas melhores – a maioria de língua inglesa. Hoje, por exemplo, acabei entrando na página do Departamento de Estado estadunidense. Lá estava um destaque da visita de Condi à terra das anacondas comedoras de gente. Primeiro, descobri que Condi, ao contrário de Bush, sabe muito bem que a capital do Brasil não é Buenos Aires e tampouco São Paulo ou Rio de Janeiro. Mas o que mais impressiona é a velocidade da atualização do site e da quantidade de informações à disposição. Enquanto em português eu achei isso, isso e isso, no sítio de Condi eu achei toda a entrevista de Condi à Waack no Jornal da Globo e toda a entrevista coletiva de Celso Amorim e Condi à jornalistas brasileiros. Para não dizer que comparei alhos com bugalhos, dou outro exemplo: pesquisando sobre o Mercosul, cheguei à página do Itamaraty e encontrei uma notícia de 199epoucos como sendo a mais atual.
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É certo promover protestos contra a política imperialista de Bush-Rice, mas é certo, também, que nossos sítios devem ser atualizados e conter mais e melhores informações. Senão a gente começa a falar de uma coisa e termina falando de outra, como aconteceu por aqui.

Mais a respeito da crise diplomática sul-americana

março 6, 2008
Em post anterior afirmei:
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“Assim, o discurso moderado demais do chanceler brasileiro Celso Amorim pode ter sido uma tática equivocada. A meu ver, ele deveria ter sido mais propositivo, sugerindo um encontro dos chanceleres do Equador e da Colômbia em Brasília, isolando Chávez e colocando a diplomacia brasileira em destaque. O isolamento de Chávez se justifica pelo fato da Venezuela não ter sido diretamente envolvida no conflito original e, ademais, por ter representado um papel belicista ao invés de conciliador.”
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Pois a posição brasileira hoje na sessão extraordinária da OEA, em Washington, foi muito mais propositiva e ativa. O embaixador brasileiro intermediou as negociações entre a Colômbia e o Equador, o que possibilitou a aprovação da resolução que reconheceu que a Colômbia violou o espaço aéreo e a soberania equatoriana, mas sem tecer maiores críticas. Em território brasileiro, Lula se encontrou com Rafael Correa e propôs um encontro entre o presidente equatoriano e colombiano, com intermediação brasileira. Correa, contudo, rejeitou a proposta e chamou Uribe de tudo quanto é nome feio.
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A Colômbia, por sua vez, entrou com ação na Corte Internacional de Justiça contra a Venezuela. Diz ter provas de que a movimentação militar da Venezuela para fechar suas fronteiras se explica pelo fato de que o número um das FARC-EP se encontra em território venezuelano com aval de Chávez.
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A Venezuela e o Equador, contudo, disseram ter provas de que o ataque se deu enquanto os guerrilheiros das FARC-EP dormiam, contrariamente à versão colombiana de que houve combate e resistência.
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Mas o mais grave foi a divulgação de como a Colômbia tomou conhecimento do local exato de onde estavam Reyes e os demais guerrilheiros. O próprio governo colombiano admitiu que interceptou uma ligação entre Chávez e Reyes, a partir da qual localizou o segundo. O problema é que a Colômbia não tem a tecnologia necessária para tanto. Alguma dúvida de quem deu essa mãozinha? Claro. Os Estados Unidos. Isso explica porque o Império tem se mantido tão quietinho até agora.
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Nisso Chávez e seus discursos nada diplomáticos têm razão: “Nós não queremos guerra, mas não vamos permitir ao império norte-americano, que é o amo, nem ao seu cachorro, o presidente Uribe e a oligarquia colombiana, que venham nos dividir, que venham nos debilitar, não vamos permitir”, disse o mandatário venezuelano. Veja na fonte.
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Aqui vocês terão acesso a uma análise crítica dos discursos proferidos pela mídia reacionária brasileira.
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Assim, diversos ingredientes estão aumentando a sopa. Vamos ver no que vai dar. Estarei por aqui comentando e torcendo para uma solução pacífica, mas que isole o governo subalterno de Uribe. O que está em jogo não é isolar-se dos Estados Unidos, afinal a maior potência econômica, mas investir na soberania e autonomia necessárias para o fortalecimento do Estado – o que lhe dará margem para agir de acordo com o interesse nacional e não a partir do humor do mercado ou das instituições financeiras internacionais. Com o atual andar da carruagem na América Latina, a Colômbia tem se posicionado como um entrave, à mando dos Estados Unidos, ao processo de integração das comunidades nacionais. Uribe quer ser o bastião solitário do neoliberalismo de sangue puro.

Lula de fim de ano

dezembro 29, 2007

Dentro de poucos dias, após o Reveillón, este blog voltará com tudo. E com uma proposta inovadora que será apresentada em breve.

Enquanto isso, disponibilizo um presente de fim de ano: um momento tosco do Lula. Ele pode até dizer que o fim da CPMF não atrapalhará as contas do Governo, mas as dele já foram para a cucuia.