Posts Tagged ‘esquerda’

Primavera Baiana: reflexões gramscianas para entender os obstáculos por vir

janeiro 19, 2012

É famosa a frase de Che de que os poderosos poderão deter algumas flores, mas jamais a primavera. Levando em consideração o caso de Salvador, no qual a população começa a esboçar um fôlego de esperança e mobilização contra a destruição de sua cidade, é necessário questionar: a primavera baiana pode ser detida pelos poderosos? Com o uso livre da expressão de Gramsci, eu digo que minha razão pessimista pensa que sim – os poderosos podem deter a primavera baiana – ainda que o otimismo da minha vontade me leve às ruas junto com o povo. Ora, o pessimismo da razão nada mais é do que um senso radical de realismo crítico, uma ferramenta importante àquele que deseja transformar a realidade, posto que permite enxergar a correlação de forças em dada conjuntura a despeito da própria vontade. Exemplo: eu quero o fim da fome no mundo. Há neste exato momento no qual escrevo este post uma possibilidade factível de que a minha vontade, ainda que transformada em protesto nas ruas, se transforme em realidade? O pessimismo da minha razão diz que não. Isso não deve levar-me à resignação de defender que a fome é positiva ou, no mínimo, inevitável. Continuarei defendendo o fim da fome no mundo, mas posto que compreendi como está a atual situação política, tentarei criar espaços para a promoção deste ideal, a fim de conquistar outros para a causa e, quem sabe, um dia ter forças para mudar a realidade estrutural. Portanto, é fundamental àqueles que querem transformar a realidade ter um senso crítico a despeito da própria ideologia, de modo a permitir um melhor planejamento tático e estratégico que cause impacto no mundo real e não apenas no ego daqueles que, por pensar a revolução, acharam que já fizeram demasiado. Enfim, um movimento de mudança tem que pensar não apenas a sua utopia, o seu mundo ideal, mas também os limites que serão postos à sua causa pelos atores sociais, econômicos e políticos que lhe fazem oposição, que defendem interesses antagônicos.

Meu convite é, deste modo, à uma reflexão sobre a composição ensaiada pelo belo movimento cívico da Primavera Baiana. Está claro que, para fazer frente à destruição planejada da cidade por alguns grupos de interesse que dela se apropriaram e transformaram em propriedade privada, faz-se mister uma ampla coalizão de forças que mobilize os setores culturais vanguardistas, os militantes de ultra-esquerda, os estudantes secundaristas e universitários, os professores, o movimento sindical, os jornalistas não-vendidos, os partidos de oposição e, por incrível que pareça, até mesmo certos grupos e indivíduos oportunistas que, por interesse ocasional, advogam a queda do prefeito. Nenhuma destas forças sociais e políticas isoladamente pode alcançar o seu objetivo, taticamente convergente, de derrotar o projeto simbolizado pelo prefeito João Henrique. O purismo, deste modo, faz o indivíduo que não se mistura com aqueles que considera sujos se sentir bem, mas João Henrique permaneceria destruindo a cidade. Então, uma “frente popular” é necessária. Mas simultaneamente é necessário que cada grupo que compõe a frente permaneça atento a seus objetivos estratégicos de mais longo prazo. Enquanto alguns querem o fim da fome no mundo através de uma redistribuição de renda que garanta a todos a possibilidade de ir à padaria, outros defendem apenas que a ajuda humanitária distribua sacos de comida jogando-os aos famintos pelas portas de um helicóptero. Estas diferenças não devem desaparecer pelo simples fato de haver a composição de uma coalizão. Será justamente a disputa entre as distintas concepções no interior da coalizão que garantirá a dinamicidade da discussão política democrática dos projetos, levando à vitória ocasional de um grupo ou outro a depender da correlação de forças constituída.

Ora, esta análise que tão bem serve para analisar as contradições dos governos Lula/Dilma, também me parece adequada para investigar quais os empecilhos que aparecerão à vitória da Primavera Baiana. E, neste sentido, me vem à cabeça duas dificuldades fundamentais: o silêncio/ausência do governador Jaques Wagner que parece ignorar a existência da crise e, em segundo lugar, a blindagem que os partidos políticos que lhe sustentam tentam construir à figura do governador. A crise da capital de um estado administrada por um prefeito que contou com o apoio do governador (e até do presidente) para ser eleito não pode ser entendida como crise simplesmente municipal ou, pior, do indivíduo João Henrique. Se o prefeito decidir se exilar, a crise permanece. O problema é estrutural e advém da desorganização política causada pela desagregação do sistema carlista sem o surgimento de um novo projeto claro para o estado. Para os que têm memória curta, basta ler matéria do A Tarde que mostra a presença do governador Wagner no lançamento da candidatura de João Henrique. Na ocasião, o governador afirmou ter dois palanques na Bahia, o de Walter Pinheiro, do seu partido, e o do prefeito agora satanizado pela crise municipal. Afirmou que, caso o candidato do seu partido não fosse ao segundo turno, apoiaria o prefeito ora na mira.

A política de múltiplos palanques é o meio do iceberg, do qual a crise municipal é a ponta e a deterioração do sistema partidário ideológico é a base. A bigamia do governador na campanha municipal é exemplo da decadência do projeto político para o estado, pois vale dizer que tanto faz um como outro; assim, diluem-se as diferenças que deveriam ser discutidas e disputadas com o eleitorado – os cidadãos. Se tal sodomia política é compreensível (ainda que não necessariamente justificável) pelos limites impostos pela correlação de forças no poder e pela assim chamada necessidade de governabilidade, haveria, ao menos, que se buscar uma política anti-concepcional para se evitar os filhos bastardos gerados: os partidos políticos que perdem sua capacidade de discutir os passos táticos e estratégicos a fim de avançar rumo a constituição de uma hegemonia com vistas a um novo bloco histórico. Ou seja, os partidos políticos passam a ser meros reprodutores do sistema de poder ao invés de pressionarem a correlação de forças existente à uma mudança. Os filhos bastardos não combatem o pai; querem apenas a herança, o espólio. O poder congela-se, posto que já não há quem o pressione.

É por isso que a blindagem ao governador Wagner, que vem sendo ensaiada pelos partidos que o sustentam, é maléfica para a Primavera Baiana. Sem a discussão profunda da sodomia política e da bigamia eleitoral, qualquer Primavera será semi-Primavera, uma Primavera de flores de plástico, que duram, mas não tem cheiro nem o brilho das flores de verdade, que não inspiram poetas. Caso estes partidos (e digo, suas bases militantes) tomem o precioso passo de contestar as redes do poder, ao invés de transformarem-se em escudos dos que ocupam os altos cargos, a Primavera ganhará e, em última instância, inclusive o Governo, que terá forças renovadas para colocar em execução um projeto político mais próximo ao Estatuto do seu partido e desvencilhar-se do emaranhado do status quo que lhe aprisiona. Do contrário, teremos uma blindagem eficaz do Governador (o qual tem apoio de grande parte dos que antes nós chamávamos de carlistas) mas sob o preço de manter a sujeira embaixo do tapete. A estratégia tem funcionado, posto que o IBOPE demonstra que a população considera o prefeito péssimo e o governador bom/ótimo. Mas e a Primavera? Faremos uma Primavera preocupados com o IBOPE ou com o nascimento das flores? Queimaremos o Judas para salvar o César?

Com a palavra, os militantes, os partidos e o Governador. O povo vai às ruas.

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Carta à Ninguém

janeiro 8, 2012

Reflexões sobre um assalto esclarecedor.

Clicar para Ler a Carta à Ninguém

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Uma esquerda com medo da liberdade

agosto 22, 2011

Leiam minha opinião sobre as análises de parte da esquerda latino-americana que tende a enxergar na Líbia apenas a ação imperialista da OTAN e esquece-se de que o povo está em rebelião.

Para acessar o PDF, clique no link abaixo.

Uma esquerda com medo da liberdade

Bucha de canhão da OTAN ou esperança por liberdade?

Sociologia à golpes de martelo – 2

julho 1, 2011

Mais um vídeo da série de vodcasts produzidos para o blog Tempos Pós-Modernos, cuja proposta, a la Nietzsche, é fazer Sociologia com o martelo, isto é, combatendo ídolos e mitos. Neste episódio, discute-se a questão de como a esquerda tem voltado-se para a defesa da liberdade, fazendo, decerto, avançar pautas e agendas importantíssimas, mas o que acaba por, como efeito colateral, negligenciar a igualdade – grande desafiadora do sistema capitalista. A reedição da Marcha com Deus, a Parada Gay e os novos ativismos na internet são pontos de apoio para o monólogo, que discute ainda a atualidade de Bobbio e Marx.

O vídeo já ganha edição, com diversos cortes a fim de reduzir o tempo do vodcast, bem como tem maior qualidade de imagem. Uma vez dominadas todas as ferramentas do iMovie no MacBook, efeitos de coração e fade-in aparecerão, bem como trilha sonora e legenda em albanês, para facilitar o acesso dos camaradas do partido comunista da Albânia, ainda combativo e revolucionário. A Fox tem manifestado alto interesse em um vodcast em 3D. Quem sabe em breve não trago as novidades…

Resposta ao leitor e adendos acerca da Contestação hoje

setembro 22, 2008

Estou de volta depois de quase um mês de férias do blog. É que tenho andado muito ocupado com a vida offline. E agradeço ao Renam por ter me despertado de minha letargia blogueira ao comentar (aqui):

“(…) Fiquei com uma dúvida: qual o problema com rupturas institucionais quando existem condições coletivas, materiais e simbólicas para acelerar a construção das novas condições de sociabilidade?”

A resposta a esta questão é complexa, importante e se confunde com a resposta aos dilemas históricos pelos quais passa a esquerda hoje. Assim, não pretendo emitir um parecer definitivo. Sigo o exemplo metodológico de Karl Marx, que furtou-se de descrever o futuro e mesmo os caminhos precisos para a utopia que defendia (o comunismo), abordando-o apenas de modo ensaístico e aberto. Isso o fez concentrar-se nos problemas de seu tempo e na análise das estruturas sociais do capitalismo, distanciando-o de pensadores eminentemente normativos, como Hegel, Saint-Simon, Spencer ou Comte, que preferiam, ao invés do que é, falar sobre o que deveria ser.

Assim, as rupturas institucionais não estão no horizonte próximo da política brasileira. Ainda menos estão as rupturas revolucionárias. Em post anterior, contudo, discorri sobre as possibilidades abertas pelo declínio da alternativa socialista tradicional a partir do fim da Guerra Fria (reunificação da Alemanha sob o capitalismo e dissolução auto-proclamada da União Soviética). A morte de um Pai poderoso demais fez os filhos chorarem, mas, simultaneamente, obrigou-os a lutar pela sobrevivência usando todo o potencial criativo à disposição. Ademais, abriu-se grande oportunidade para que os filhos analisassem os erros cometidos pelo Pai a fim de não mais os repetir em suas trajetórias. Este Pai metafórico, é claro, é o Marxismo, enquanto doutrina oficial e auto-suficiente.

O dito popular, entretanto, nos ensina a não jogar o bebê fora com a água do banho. Logo, o marxismo tem muito a contribuir para a Contestação Crítica ainda hoje. Não à toa, estou re-estudando O Capital. Mas o marxismo deve se fundir à novas perspectivas críticas, aceitando o diálogo, inclusive, com fontes extra-européias de pensamento político (pensemos, por exemplo, na contribuição dos indígenas da América Latina contemporânea, vide as novas Constituições do Equador e da Bolívia).

As oportunidades históricas, contudo, nem sempre são aproveitadas. E aqui teço duas lamentações.

A primeira refere-se à guinada autoritária da Venezuela, representada na justificativa do seu chanceler Nicolas Maduro quando da recente expulsão de membros da Human Rights Watch do país: “estrangeiro que vier opinar contra a nossa pátria será expulso de maneira imediata”. Ora, este tipo de atitude foi responsável por transformar o marxismo em stalinismo ao longo do século XX. Relembremos mais uma vez o exemplo de Karl Marx: aproveitou-se do ambiente liberal e democrático da Europa para, a partir de “inimigos teóricos” como Adam Smith e Hegel, tecer as suas teorias revolucionárias. Imaginem a riqueza para o pensamento crítico se, ao invés de expulsar os divergentes não-golpistas, Chávez dialogasse com eles, independentemente de suas nacionalidades de origem (lembremos que tanto Marx quanto Bolívar, ao qual Chávez diz seguir, eram internacionalistas e consideravam o nacionalismo uma chaga ideológica imposta pela burguesia).

A segunda lamentação se refere às eleições municipais desse ano. Moro em Salvador e voto em Walter Pinheiro (PT-PSB-PCdoB-PV), mas sempre discutindo as limitações da esquerda institucional. Paralelamente, a esquerda de rua de opção revolucionária (PSOL-PSTU-PCB) tem perdido a oportunidade histórica de rever posições teóricas e políticas para adentrarem no século XXI, sem perderem suas identidades radicais. Assim, em seu programa, defende o congelamento do preço dos alimentos e o reajuste salarial automático a partir dos níveis de inflação (gatilho salarial). Esses mecanismos, porém, não são revolucionários em si e o prova o fato do governo Sarney os ter usado amplamente devido à estagnação econômica e à hiperinflação na qual o país se atolava.

Nesse sentido, a falta de olhar histórico e a incapacidade de auto-crítica da esquerda a tem levado a desperdiçar a chance de elaborar um novo rumo para a emancipação. Por isso, caro Renam, a meu ver, pode até ser bom que não “exist[a]m condições coletivas, materiais e simbólicas para acelerar a construção das novas condições de sociabilidade” através de rupturas institucionais. A esquerda ainda tem que aprender que emancipação se faz com e para a liberdade e não em detrimento dela.

Entre a natureza política e a cultura política

agosto 15, 2008

Tenho sugerido que, assim que uma pessoa se disser de esquerda no Brasil, é preciso questioná-la: “da esquerda de gabinete ou da esquerda de rua?”. Tal é a situação política após a ascensão de Lula e do PT ao mais alto cargo da República, bem como da esquerda em diversos níveis (federal, estaduais e municipais). Contudo, a mudança de postura programática e ideológica não foi inaugurada repentinamente em 2003. Já na época dos primeiros escândalos de Collor, o PT e o PCdoB viram-se numa luta intestina. Setores mais “cautelosos” defendiam que a defesa do impeachment do primeiro presidente eleito diretamente após a ditadura militar poderia causar fragilidade institucional e reanimar os militares. Assim, estrategicamente, seria mais prudente defender a conquista da democracia. Essa tese foi rechaçada pela juventude de ambos os partidos, que disseram não bastar apenas uma democracia institucional formal: era preciso que a democracia fosse verdadeira, substantiva e que, acima de tudo, servisse às demandas da maioria. O resto nós sabemos: a juventude ganhou o debate e as ruas e Collor ganhou a porta de saída do Palácio da Alvorada. Uma grande vitória programática da esquerda. Depois do episódio, Lula participou e perdeu mais duas eleições contra FHC. O PT e a esquerda perceberam que era preciso moderar no discurso e fazer alianças mais ao centro para galgar o poder em um país profundamente conservador como o Brasil. Ao mesmo tempo, a esquerda permanecia nas ruas, fortalecendo os movimentos sociais (lembremos que o Fórum Social Mundial teve sua primeira edição em 2001, em Porto Alegre, então dirigida pelo PT). Em 2002, já sob a efeito do photoshop de ideologias de Duda Mendonça, Lula ganha as eleições. A despeito do PT e da esquerda já estarem mais ao centro no momento da posse, o ritual de passagem da Era FHC para a Era Lula foi marcado pela comoção popular de massas que se deslocaram dos quatro cantos do país para Brasília. Em 2005, dois anos depois, o mesmo Lula já era vaiado no Fórum Social Mundial. Dois anos bastaram para a desilusão. O que aconteceu?

Primeiro, esclareçamos: em certo sentido, uma dose de desilusão faz bem – o photoshop de Duda Mendonça, do Lula salvacionista, precisa vir abaixo. Mas não é disso que se trata. Mas sim do isolamento da esquerda que chegou ao poder. O discurso que embasa esse isolamento e a mudança de postura é o seguinte: ao ocupar um cargo institucional é preciso mudar em dois sentidos – no protocolo (linguagem diplomática, maleabilidade, trânsito entre diferentes posições políticas) e no programa (foco na conciliação). Assim, quando você está frente a frente com um ministro de longa história de militância e engajamento em favor da justiça social e da mudança, na verdade você está frente a frente com o cargo e não com a pessoa. Explica-se, portanto, porque as respostas aos questionamentos populares sejam tão parecidas com as respostas de qualquer direitista – trata-se do protocolo e da necessidade de evitar conflitos (principalmente com a mídia).

Ambos os sentidos da mudança – protocolar e programático – apresentam problemas graves. Após a premissa (correta) de que é preciso ceder em certos pontos, chega-se à conclusão (errônea) de que natureza da política é a conciliação. Na verdade, há duas políticas e ambas são culturalmente construídas: a política dos vencedores e a política dos perdedores em relação à determinada ordem política, econômica, social e cultural. Para os vencedores, a política é conciliação – manutenção do status quo, ainda que frente a concessões. Para os perdedores, por sua vez, a política só pode significar conflito – alteração do status quo e transformações estruturais.

Não que o PT ou o Governo Lula fossem fazer somente (ou prioritariamente) a política do conflito. Mas, ao menos, deveriam ter em mente a centralidade do conflito para a mudança social. Assim, as boas iniciativas do governo, abortadas pela reação conservadora, não morreriam sem frutos, mas desembocariam em uma sociedade civil preparada para continuar a luta que o governo começou, mas não teve correlação de forças suficiente para levar adiante. Exemplo: caso Satiagraha e afastamento do delegado Protógenes Queiroz. Por que o governo (ou o PT), ao invés de contar lorotas ressoadas pela Globo, como a de que o delegado saiu do caso por livre e espontânea vontade para tomar um curso, não procurou politizar a questão, jogando os bastidores do jogo político para a frente do palco (espaço público)? Uma lorota de tal monta apenas faz os cidadãos, que sabem que a verdade dista muito da estória contada, se afastarem da política. Ao invés do governo (supostamente de esquerda ou centro-esquerda) e do PT construírem pontes entre a política institucional e o povo, eles simplesmente destróem os resquícios de pontes. Claro que a sociedade civil crítica reconhece os avanços trazidos pelo Governo Lula. Mas sabe que trata-se “deles” e não de “nós”. É a outra esquerda, a institucional, e não a nossa esquerda, pulsante e vívida, da rua. Trata-se da esquerda estatística, que responde tudo com números, e não da esquerda que sente o sofrimento humano.

Cabe perguntar: se, ao chegar ao poder, não se trata mais do histórico militante X, mas, sim, do ministro X (numérico e protocolar), de que adianta chegar ao poder, então? Se não para construir pontes entre Estado e sociedade, democratizando e politizando o primeiro, mostrando suas fissuras, para que dirigir o Estado?

Carl Schmitt dizia que a política é a arte da disputa entre amigos e inimigos para determinar vencedores e perdedores. Assim, a esquerda tem que ter consciência de que há um jogo de soma zero, no qual, se alguém ganha, outro deixa de ganhar. Não é possível agradar a todos. Quem vai ganhar com o Governo Lula? Lula, o PT e a esquerda têm que tomar sua decisão: abraçar a idéia de natureza política (defesa do status quo estrutural da política) ou a idéia de cultura política (possibilidade de construção coletiva da mudança)? Não se trata de defender rupturas institucionais, mas mudanças na concepção do que é a política e qual o papel histórico da esquerda à frente do Estado – a meu ver, construir pontes e não afastar-se rumo aos braços e abraços da nossa conhecida elite.

Quase dois irmãos

junho 12, 2008

Quase dois irmãos é um fantástico filme que eu assisti sem muito compromisso em um fim de semana. Trata-se de um filme nacional de 2004 que, pelo menos para mim, passou despercebido em seu lançamento. Não me lembro de ter ouvido um único comentário sequer sobre ele.
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Eis a sinopse do seu site oficial:
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Nos anos 70, quando o país vivia sob a ditadura militar, muitos presos políticos foram levados para a Penitenciária da Ilha Grande, na costa do Rio de Janeiro. Da mesma forma como os políticos, assaltantes de bancos também estavam submetidos à Lei de Segurança Nacional. Ambos cumpriam pena na mesma galeria. O encontro entre esses dois mundos é parte importante da história da violência que o País enfrenta hoje. “Quase Dois Irmãos” mostra como essa relação se desenvolveu e o conflito estabelecido entre eles. Entre o conflito e o aprendizado, nasceu o Comando Vermelho, que mais tarde passou a dominar o tráfico de drogas.
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Através de dois personagens, Miguel, um jovem intelectual de classe média, preso político na Ilha Grand, e hoje deputado federal e Jorge, filho de um sambista que de pequenos assaltos se transformou num dos líderes do Comando Vermelho, o filme tem como pano de fundo a história política do Brasil nos últimos 50 anos, contada também através da música popular, o ponto de ligação entre esses dois mundos. Hoje, começa um novo ciclo: Miguel tem uma filha adolescente, que fascinada pelas favelas e pela transgressão, se envolve com um jovem traficante. [fim de sinopse]
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O ponto do filme que trago para discussão é a atribulada relação entre a classe média engajada (então chamada de pequena burguesia) e a classe popular, o povão, a massa. Adeptos políticos do socialismo revolucionário, um grupo de jovens militantes presos são postos em contato com presos comuns e tentam pôr em prática a teoria marxista da superação da consciência em-si para uma mais elevada, a para-si, ou seja, da alienação para uma consciência da condição de exploração pela burguesia. Assim, na visão desta elite revolucionária (uso propositalmente elite ao invés de vanguarda), era preciso educar a massa, mesmo a delinqüente. Quando os primeiros presos comuns chegam à prisão política, os revolucionários marxistas eram majoritários. Foram abordados pelos comuns: “quem é o xerife dessa porra?”. Ao que responderam: “aqui não tem isso, não; só não pode pederastia e dar um dois (fumar maconha)”. Evidentemente, as regras moralizantes da esquerda ortodoxa eram burladas frequentemente. Com o passar do tempo, a política nacional foi se abrandando e a situação social oriunda da ditadura se agravando, o que reduziu o número de prisões políticas e ampliou o número de prisões comuns (de negros da periferia). O resultado é que a periferia é que passou a mandar no presídio. A cadeia passou a ser igual a qualquer outra, com baseado, homossexualidade, grupos inimigos, privilégios, “xerifes”, violência e linchamentos. Nesse contexto, trava-se a discussão – seria melhor dizer assembléia, conforme o vocabulário da esquerda da época – entre os que são favoráveis à separação entre presos comuns e políticos e os que se mantém firmes na idéia de “educar a massa”. O argumento racional dos defensores da separação é que eles são minoria dentro da prisão e precisam sobreviver para o bem da revolução, uma vez que há poucos revolucionários devido à repressão. Os realistas vencem o debate sobre os idealistas. No entanto, e esta é a grande sacada do filme, a verdadeira razão da separação dos presos em duas alas, a dos comuns, para negros da periferia, e a dos políticos, de classe média, é a própria incompatibilidade entre as duas formas de ser e estar no mundo. O discurso da educação das massas pode ser atraente, mas em condições extremas, como a de um presídio com todas as suas crueldades e adversidades, ele se mostra artificial. Assim, a construção do muro de concreto separando os dois pavilhões é, na verdade, uma metáfora para o muro social que já separava os dois estratos sociais. E a película encerra-se com uma frase de efeito: “um é o mundo que sonhamos, outro é o que vivemos”.

Cult é um chique de esquerda

abril 4, 2008

De uma discussão em um grupo de e-mails, meu amigo Tiago Lorenzo dispara:

“”Cult” é um “chique” de esquerda metido a besta. Para eles, qualquer filme da sala de arte é bom. (…) Fazem um esforço tremendo pra gostar de algo quando acham que é “de valor” e que por isso deveriam gostar. (Caralho, não entendi bem este filme, achei meio lento, meio novelão, mas porra, todo mundo lá do circo gostou). A galera do teatro que é assim é uma dais mais engraçadas: nossa, profundo esse momento em que ela caga na boca dele no metrô; é uma crítica à fome no mundo.”

E ele encerra, ainda assim, demonstrando certa simpatia pelos cult:

“Confesso que tenho mais simpatia pelos PIMBAS que pelos CHIQUES. Pelos “cult” que pelos “playboys”. Gosto muito de sacanear ambos, mas me parece mais simpático cultuar o “amor-solidariedade-pobreza-poesia” do que o “requinte-finesse-chique-grana-status””.

Do segundo pensamento, eu discordo.

Esquerda e Direita, ainda?

abril 2, 2008
“A esquerda tem razão; a direita tem sabedoria”.
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Moeller van den Bruck
filósofo nazista
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É duro dar razão a um nazista.