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O botão curtir do Facebook – uma idéia genial que decreta o fim do espaço público e a decadência da Humanidade

abril 6, 2012

Faz algum tempo que ando intrigado com o botão “curtir” do Facebook. A menina posta uma foto na qual está super-gata, sexy, deslumbrante, ou mesmo nada disso, só aparece na foto e – puf – você (eu) curte(o). O amigo posta um meme boboca, curtir. Uma frase de Caio Fernando Abreu, curtir. Reclamação do governo, curtir. Mundo sem sentido, curtir. “Tou com dor de dente”, curtir.

O botão curtir não significa necessariamente curtir, mas “estou de olho”, “tou ligado”. Por isso os gênios do Facebook não fizeram ainda o tão pedido botão “dislike”, ou “descurtir”, em português meio-tosco. Claro, não faz sentido dizer “não estou de olho” ou “não estou ligado”, se o ato de clicar já significa exatamente o contrário. De fato, só é possível curtir, descurtir é uma impossibilidade lógica.

Tem mais, o botão curtir vai se desdobrando dinamicamente em possibilidades táticas de manter o convívio virtual equilibrado. Tem um sujeito adicionado entre os amigos com o qual você (eu) nunca fala(o). O sujeito só posta coisas as quais você (eu) abomina(o). Mas uma rara vez na história da timeline deste sujeito aparece  algo que você (eu) não abomina(o). Não é que você (eu) de fato curti(u) o que foi postado. É simplesmente um lixo menos desprezível, possível de ser curtido sem comprometer a coerência e a dignidade que você (eu) tenta(o) manter face aos demais sujeitos que também estão vigiando o que você (eu) curte(o) ou deixa(o) de curtir. Nesse caso, após refletir brevemente, aperta-se o curtir. Às vezes a indecisão ética e moral leva a desapertar o botão (uma forma improvisada de descurtir), mas receando que o outro sujeito, online com bolinha verde, possa já ter visto o curtir e comece a estranhar onde o curtir foi parar, acaba-se por voltar a curtir. Tal como o governo, é preciso fazer algumas concessões de vez em quando a fim de manter o equilíbrio da base alia…, digo, dos amigos virtuais.

Então tem aquele idiota que você odeia mortalmente, mas que ousou te adicionar e você foi obrigado a aceitar (a cordialidade do brasileiro). O momento em que posta algo menos bizarro é o momento em que você (eu) pensa(o): “é agora ou nunca, preciso aproveitar essa oportunidade, vou curtir”. Com isso, fez-se a média. Manteve-se a áurea do brasileiro que está atento a seus amigos virtuais e que, ainda por cima, curte o que o outro faz. O outro sujeito pensa: “olha, apesar de tudo, não sou ignorado por fulano…  Ele/a curtiu!”

Mais ainda: o botão curtir reduz a necessidade do pensamento abstrato e retira a condição humana do expressar-se através de palavras. O sujeito posta algo com o que de fato se concorda. Não é preciso mais abrir o espaço de comentários, pensar em algo e enfim articular o pensamento em palavras inteligíveis pela comunidade política mais ampla de cidadãos. Não. Apenas curte-se. Um ato automático, sem pensamento nem palavras.

“A condição política nacional deteriora-se com a falta de participação ativa dos cidadãos que agora limitam-se à virtualidade das relações nas quais, no máximo, curte-se o protesto no Facebook”, posta o sociólogo X. Aí 235 pessoas curtem. Simplesmente, apenas curtem.

O botão curtir do Facebook é aquela idéia genial que corresponde à nova realidade dos sujeitos sociais em um mundo onde todos e cada um são atores conectados e oniscientes. Mas simultaneamente decreta o fim do espaço público e a decadência da Humanidade. Não esqueçam de curtir este post no Facebook.