Posts Tagged ‘Brasil’

Carta à Ninguém

janeiro 8, 2012

Reflexões sobre um assalto esclarecedor.

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Os usos políticos da bandeira dos Direitos Humanos

junho 15, 2011

O grupo Avaaz soltou mais um abaixo-assinado, desta vez condenando a suposta anuência do Governo brasileiro com o massacre de civis na Síria.

Gosto da militância do Avaaz e já assinei uma de suas petições, mas não assinarei esta.

O Governo brasileiro sistematicamente condena o uso político de condenações por parte das potências no Conselho de Segurança da ONU que visam a legitimar ações diplomáticas/econômicas/militares contra regimes hostis aos seus interesses, como nos casos da Líbia, Irã e Síria. A Primavera Árabe tem levantado multidões em favor da democracia e instado déspotas à reagir com massacres de civis. Mas isso tem acontecido também em regimes leais ao Ocidente, como Bahrein, Egito, Tunísia e não há tentativas de condenação por parte das potências. China e Rússia, como de costume, pesam a balança para a resistência contra os interesses geopolíticos das potências, mas não podem usar poder de veto para barrar a implementação da doutrina de segurança nacional (mundial) dos governos americano, francês e inglês devido ao tácito acordo das zonas de influência e interesse direto. A ruptura deste acordo tácito teria como consequência a retaliação por parte destes governos imperiais em assuntos de interesse direto da Rússia ou China, como o escudo anti-mísseis no Leste Europeu e a independência do Tibete, respectivamente. Por mais paradoxal que possa parecer, o Brasil apresenta hoje mais independência para fazer frente aos desígnios imperiais e articular o Sul global.
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Neste momento, o Avaaz se alinhou com interesses dos países poderosos. Eu, do meu lado, não quero outra Líbia.
Sinto muito, Avaaz. Às vezes estamos do mesmo lado, outras vezes o etnocentrismo cega suas bandeiras.
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Digo NÃO ao massacre de civis na Síria, bem como digo NÃO ao imperialismo travestido de direitos humanos.
E que o povo da Síria avance para a derrubada do tirano Assad sem os mísseis da OTAN.

A nossa querida Faixa de Gaza

janeiro 8, 2009

Massacres nós já estamos acostumados a ver, quando não somos suas vítimas diretas. Assim, por exemplo, me espantou o recente levante juvenil na Grécia, cujo estopim foi o assassinato de um jovem por forças policiais. Se imitássemos os gregos por aqui, o país entraria em colapso total. Em um mês, a PM paulista chega a matar 101 pessoas – média que faz Israel parecer o guardião da paz no (em andamento) Massacre de Gaza. Em uma breve clicada no Google a partir da expressão “violência no Brasil” ficamos sabendo que “de 11 países, Brasil é campeão em mortes violentas, diz estudo – Entre 2002 e 2003, violência foi causa de morte em 4,69% dos casos, o dobro do México, Índia e África do Sul”. Mais: “segundo a pesquisa, foram mortas 50.980 pessoas em 2003. Em 2004, o número caiu para 48.374, indo para 47.578 em 2005 e 46.660 em 2006 – queda de 5,3% de 2003 para 2004, de 2,8% de 2004 para 2005 e de 1,8% de 2005 para 2006.” Devemos comemorar a queda no índice? Somem o número de mortos apenas nestes quatro anos indicados. Agora se lembrem de que os Estados Unidos sofreram cerca de 292.000 baixas na Segunda Guerra Mundial. E “na década de 1990, as armas de fogo foram responsáveis por 265.975 mortes” no Brasil. Nós, brasileiros, morremos como moscas. Na minha visão, deveríamos pensar mais em construir cemitérios e deixar de lado, ainda que momentaneamente, a discussão acerca do futuro da previdência e da seguridade social – inúteis em um país em que a expectativa é de que o jovem executado crie problemas aos familiares ao morrer devido aos altos custos com serviço funerário. Sugestão: lançamento do programa Caixão Zero – serviços funerários custeados pelo Estado (o mesmo Estado que executa os cidadãos através da presença da PM ou da ausência da PM). O mais engraçado de tudo isto (atrevo-me a dizer que isso é engraçado) é que esse post deveria ser sobre o Massacre de Gaza. Mas fiquemos por aqui. Um massacre de cada vez.

Mudando de assunto

março 14, 2008
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Eu ia falar, obviamente, da visita de Condoleezza Rice ao Brasil e à Salvador. Já estava programada há tempos, inicialmente para a assinatura de um tratado bilateral para o combate ao racismo e o fortalecimento do turismo étnico (seja lá o que isso for; talvez pensem que os negros devem visitar lugares onde predomina a cultura negra, o que explica a visita à Bahia – mais especificamente ao Pelourinho e à Igreja de N. Srª. do Rosário dos Pretos, depois de Condi ter recebido uma fita do Senhor do Bonfim de uma baiana típica). Digressão: os brasileiros adoram cultivar seus estereótipos e depois ficam estupidamente reclamando do filme Turistas. Voltando ao assunto: com a crise diplomática na América do Sul, obviamente esta se tornou pauta principal. Condi quer clareza acerca da posição brasileira sobre as FARC e o apoio ao governo democrático de Uribe. O chanceler Celso Amorim, como bom diplomata, respondeu com um sorrisão no rosto:
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Celso Amorim e Condi
Porém, ao que tudo indica, o Brasil manterá sua linha nem tanto nem tão pouco – alisa Chávez e abraça Condi. Para deixar a conversa morrer, o chanceler tocará no assunto tabu: reforma do sistema ONU e assento permanente no Conselho de Segurança. Pronto. A partir daí, só mesmo biodiesel e turismo étnico.
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Mas o melhor da visita de Condi não teve nada a ver com o acima dito. É que a péssima cobertura da mídia tupiniquim sempre me leva a pesquisar mais informações na rede mundial. A princípio, os resultados também são pífios. O google exibe logo o Folha, Uol, G1, Globo e merdas do tipo. Mas lá pela página 10 da procura começam a aparecer páginas melhores – a maioria de língua inglesa. Hoje, por exemplo, acabei entrando na página do Departamento de Estado estadunidense. Lá estava um destaque da visita de Condi à terra das anacondas comedoras de gente. Primeiro, descobri que Condi, ao contrário de Bush, sabe muito bem que a capital do Brasil não é Buenos Aires e tampouco São Paulo ou Rio de Janeiro. Mas o que mais impressiona é a velocidade da atualização do site e da quantidade de informações à disposição. Enquanto em português eu achei isso, isso e isso, no sítio de Condi eu achei toda a entrevista de Condi à Waack no Jornal da Globo e toda a entrevista coletiva de Celso Amorim e Condi à jornalistas brasileiros. Para não dizer que comparei alhos com bugalhos, dou outro exemplo: pesquisando sobre o Mercosul, cheguei à página do Itamaraty e encontrei uma notícia de 199epoucos como sendo a mais atual.
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É certo promover protestos contra a política imperialista de Bush-Rice, mas é certo, também, que nossos sítios devem ser atualizados e conter mais e melhores informações. Senão a gente começa a falar de uma coisa e termina falando de outra, como aconteceu por aqui.

Agora, a Espanha…

março 7, 2008
O Brasil agora precisa atuar em outro episódio diplomático, ainda que este não possa ser encarado como uma crise. É a questão do tratamento da alfândega espanhola à brasileiros. Os telejornais deram bastante ênfase ao caso, mas, como sempre, não conseguiram trazer um debate que buscasse causas e consequências. Mostram cada notícia como se fosse equivalente à outra: nascimento de um panda na China, furacão no Sudeste Asiático, corrupção no Congresso e crise diplomática na América do Sul. Os telespectadores ficam sem as conexões causais e somam no seu cérebro milhares de informações que não sabem como usar. No máximo, falam na rua à um amigo: “Você viu o que aconteceu?”.
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Dois fenômenos básicos estão por trás do comportamento do governo espanhol. Primeiro: a União Européia tem apertado o pescoço dos países mais frágeis da comunidade para que fechem suas fronteiras para a imigração sul-norte (dos países periféricos em direção aos países desenvolvidos). Segundo: a Espanha tem longa tradição de nacionalismo exacerbado, oriunda da guerra civil (1936-39), da ditadura de Franco (1939-75), do combate ao separatismo basco e de governos de direita, como o do ex-presidente Aznar. A xenofobia, o racismo, e o preconceito em relação aos países periféricos são comuns na Europa. Os eleitores culpam os imigrantes pela perda de seus postos de trabalho, ao invés de aproveitarem seus níveis mais altos de escolaridade para perceber as consequências dos ajustes estruturais neoliberais em seus sistemas de welfare. Governos ditos progressistas são tímidos demais para mudar a situação, como acontece com o atual presidente Zapatero, do Partido Socialista. Assim, soma-se o (in)útil – o sentimento xenófobo – com o (des)agradável – os maus tratos à cidadãos de países do sul.
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O governo brasileiro, seguindo o princípio da reciprocidade nas relações internacionais, pode e deve defender sua soberania e cumprir o que manda a Constituição e o direito internacional: a proteção de seus cidadãos onde quer que se encontrem contra agravos físicos, materiais e morais. Caberia, no caso, a retorsão, que, em linguagem de direito internacional, signfica a prática de ato inamistoso, mas lícito, para responder a igual procedimento por parte de outro Estado.
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Mas não é fácil aplicar a teoria de que todos os Estados são igualmente soberanos na prática internacional, permeada por desigualdades de poder e interesse. Assim, o governo brasileiro pode escolher respeitar a decisão da União Européia e seus membros de combater a imigração dos países do sul, mesmo com meios abusivos, assim preservando interesses comerciais e políticos com as potências, ao invés de reeditar a Política Externa Independente. A opção de deixa pra lá deve ser mesmo a adotada, como faz crer a tímida nota expedida pelo Itamaraty. Apóia a decisão o ex-presidente Neoliberalizando Henrique Cardoso, como afirmou ontem em entrevista à Record News.
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Aqui em Salvador, oito espanhóis foram deportados ao chegarem ao Aeroporto Dois de Julho, mas a Polícia Federal fez questão de esclarecer que o fato nada tem a ver com a atitude da polícia espanhola, uma vez que, para tanto, a PF precisaria de recomendação do Itamaraty.
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Nacionalismos sempre trazem consigo coisas ruins – como acabei de afirmar em relação a Espanha. Mas é preciso que o governo defenda a soberania do Estado brasileiro frente à seus iguais. Senão a gente fica igual à charge abaixo.
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