Archive for the ‘Cultura’ Category

Roda Viva

julho 2, 2008

O Roda Viva agora disponibiliza entrevistas clássicas na internet em dois formatos: texto e audiovisual. Tem muita coisa boa. Passem por lá.

Destaco um trecho da entrevista com Octavio Ianni, pois é a própria justificativa do esforço deste blog.

“Jorge Caldeira: Eu queria colocar essa questão, mas de um outro ângulo. O senhor, depois de se formar com a sua geração, tendo como base idéias de que o trabalho inventório iria ser feito em torno de conceitos rigorosos, claros, partiu agora para o ensaio. Para o ensaio amplo que era, vamos dizer assim, o objeto contra o qual a sua geração, nos anos 50, se opunha. A geração do senhor se firmou contra os ensaístas, que eram impressionistas ou que eram menos precisos. Essa mudança se deve, essa volta ao ensaio, vamos dizer assim, se deve ao fato de que a globalização só pode ser entendida se a gente esquecer os conceitos tradicionais? Ou seja, esse ponto que o senhor está apontando dessa mudança, ela vai até as bases da própria vida intelectual também?

Octavio Ianni: Veja bem, no caso do Brasil, no caso da América Latina, em geral, a institucionalização da sociologia, da economia, da política como disciplinas científicas é um processo muito tardio e que se realiza, principalmente, nos anos 30, 40, 50. Talvez, em alguns países, um pouco antes. E essa institucionalização, naturalmente, veio acompanhada de um empenho, de um compromisso dos seus autores, com um certo rigor conceitual, de metodologia, de capacidade de pesquisa, de distinção entre pesquisa de reconstrução histórica e pesquisa de campo. Então, isso significou para muitos alheios um certo hermetismo, um certo “academicismo”. Mas, na verdade, era o preço que se devia pagar para constituir essas disciplinas como disciplinas científicas num ambiente brasileiro e latino-americano. Agora, a despeito desse compromisso, o diálogo desses autores, e eu posso mencionar nominalmente, seja Celso Furtado, seja Florestan Fernandes, seja Antônio Cândido, seja no caso da universidade brasileira, de intelectuais que tiveram sempre um diálogo com quem? Com Rui Barbosa, com Euclides da Cunha, com Lima Barreto, com Joaquim Nabuco, com os ensaístas. De modo que não é verdade que a academia satanizou ou esqueceu os ensaístas. Ao contrário, há trabalhos que dão continuidade às reflexões deles. Agora, o que acontece no mundo contemporâneo é que começa a haver novos espaços de diálogos e pouco a pouco diferentes intelectuais em diferentes campos começam a beneficiar-se do cinema, do romance, da poesia, para desenvolver um trabalho que é, basicamente, científico, mas que pode ser enriquecido, senão enquanto forma de esclarecimento, ao menos como forma de embelezamento da narrativa.

Jorge Caldeira: Como é que foi para o senhor essa possibilidade nova de poder escrever bonito, poder escrever usando a literatura, usando o cinema, usando teoria da linguagem, antropologia, usando extensão de tempo muito grande, porque esse ensaio trata de cinco séculos. O senhor sente-se bem assim. O senhor gostou da experiência de poder ampliar?

Octavio Ianni: Eu acho uma maravilha. A possibilidade de combinar o rigor do conceito com a beleza da metáfora é uma glória. Aliás, se nós formos aos grandes cientistas, por exemplo, Adam Smith, de repente, nós encontramos uma metáfora fascinante: a mão invisível. Ou então, se vamos a Max Weber, de repente, encontramos a metáfora fantástica: o desencantamento do mundo. Então, nós descobrimos, e acho que devemos aproveitar isso, que o rigor do pensamento científico, inclusive o rigor da formulação do conceito da interpretação, não impede, ao contrário, beneficia-se da habilidade com a qual o autor pode elaborar ou recuperar metáforas, figuras, que não só embeleze uma frase, mas que, eventualmente, colaboram para aprimorar, refinar a clarificação.”

A vida imita a arte ou a arte imita a vida?

abril 20, 2008

Saibam!

março 30, 2008
Fico impressionado com o Arnaldo Antunes. Como uma das piores vozes do Brasil pode ser tão maravilhoso músico-poeta, inclusive cantando?
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Na música Saiba, ele aborda a condição humana de forma inteligente, profunda e extremamente simples. As rimas diretas exibem a igualdade inata de indivíduos tão díspares entre si como Nietzsche, Simone de Beauvoir e Fernandinho Beira-Mar, o que não os impedem de construirem trajetórias que os distanciem durante suas existências singulares – abstraindo-se, claro, o anacronismo proposital do autor. No entanto, a dignidade – tão orgulhosamente defendida pelos que supostamente a detém nos meios mais elevados da sociedade – é extremamente efêmera. “Saiba: todo mundo vai morrer!” No fim das contas, podemos pensar naquilo que Schopenhauer chamava de “angústia”: a criança que fomos, o medo que sentimos, aquilo que nos tornamos – a máscara que gruda na cara – sem ter total controle ou mesmo consciência. Sim, “todo mundo foi neném”. E o que a sociedade fez de nós? Ou, pensando como Sartre, o que fizemos de nós mesmos? “Eu e você”. Oh, Maggie, what have we done? – como cantava o Pink Floyd…
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Aqui vocês podem ler a letra da música poesia.

A grande ilusão

março 18, 2008
Assisti um bom filme no fim de semana que passou. Trata-se do “A grande ilusão” (All the king’s men, no original), contracenado por Sean Penn, Jude Law, Kate Winslet e Anthony Hopkins, dentre outros.
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Em um tempo de totalitarismo neoliberal, cujas consequências, para Chico de Oliveira, são “a privatização do público, a destituição da fala e a anulação da política”, este filme vem na contramão e coloca a política em primeiro plano de forma primorosa. Talvez por isso tenha sido um “commercial failure, despite its strong cast, direction, and production team. Few critics endorsed it”. Leia mais aqui. Mostra a trajetória de um homem simples – um camponês – no sul subdesenvolvido dos EUA, na década de 30, desde sua iniciação na política, como um candidato laranja sem o saber, passando por seus discursos sinceros, duros e comoventes que mobilizaram a população até sua vitória e gestão, na qual é obrigado a lidar com “todos os homens do rei”, o que irá desembocar na “grande ilusão”. Nesse sentido, os títulos em português e no original são bem válidos.
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A questão que fica é: até que ponto pode um único homem com um ótimo programa político e amplo apoio popular ser bem sucedido em seus intentos sem uma base institucional sólida, ou seja, os apoios políticos e de parte das elites necessários  para a obtenção do que se convencionou, não sem viés ideológico, chamar de “governabilidade”? E o que fazer quando essa base institucional defende ferrenhamente o status quo? São os grandes dilemas da política ainda hoje, o que se pode verificar na conjuntura da América Latina. Parece que certo mesmo estava Montesquieu, quando dizia que um povo só pode ter o melhor governo que é capaz de suportar.
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A história do filme foi adaptada do livro All the king’s men, de Robert Penn Warren, que, por sua vez, é baseado na história de Huey Long.
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Assistam o trailer.

Extra: grande evento em Salvador!!!

março 18, 2008
Um grande evento em Salvador!!! Isso mesmo, é inacreditável, mas real. Nomes como Michel Onfray, Philip Glass, Win Wenders, David Byrne (Talking Heads), Ayaan Ali etc. Vejam aqui.
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Mas a felicidade termina por aqui. Para ter acesso às conferências, é preciso desembolsar o preço promocional de apenas R$ 250,00 – depois de certa data irá aumentar! Obviamente, “A Braskem tem orgulho de ser uma empresa socialmente responsável” (sic!).
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A UFBA consta como “parceiro acadêmico” e será a entidade expedidora do certificado de atividade de extensão. E aí, Reitor Naomar de Almeida, cadê a Universidade Nova que, segundo propagandas, deve combater o elitismo?
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Assim, comemoramos o primeiro passo: a realização de um evento de grande porte em Salvador. O próximo passo é fazer com que isto seja acessível ao grande público – tanto em divulgação como em acesso gratuito. Continuamos honrando a tradição brasileira da transformação paulatina, controlada e sem choques – a modernização conservadora, segundo alguns sociólogos. Seria querer demais ter, de repente, em Salvador, um evento interessante e, ainda por cima, gratuito, ou, ao menos, acessível às condições econômicas da maior parte da população.
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Por enquanto, fica, para mim, aquele som, bem conhecido do brasileiro: “aaaaaaahhh”. Mais uma vez, foi quase.

Normal na loucura real

março 4, 2008
Raul Seixas já criticava a mania de ser normal na loucura real. Traduzindo em números essa loucura: o Brasil possui em circulação 200 milhões de cartões para uma população de 180 milhões de pessoas! Alguns cálculos estimam que há uma média de uma compra a cada 8 segundos… Esses dados me lembraram o Koyaanisqatsi – fantástico vídeo sobre a loucura da vida pós-moderna.

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Mão Branca, Getúlio Vargas e Getúlio Marginal

fevereiro 18, 2008

Passei nove dias sem postar e a visitação ao blog caiu consideravelmente. Seus miseráveis! Acham que é fácil manter um blog?

Mas vamos ao que importa.

A Bahia é um estado bizarro e cheio de bizarrices. A TV local não tem jornalismo, a não ser programas sensacionalistas que exploram narcisisticamente o sofrimento e a dor humanas.

Hoje, o Se Liga, Bocão conseguiu se superar. Mostrou uma senhora de idade com úlcera nas pernas e o apresentador, o Bocão, ficou perguntando se doía e se ela acreditava na ajuda de Bocão. Só para ouvir: “Abaixo de Deus, só o Bocão!”. Aí ele perguntou se quem cuida de úlcera é ortopedista ou cirurgião plástico.

Também teve uma mãe que foi em busca de internação do filho dependente químico. Bocão demonstrou-se ainda mais ignorante. Perguntou se o rapaz ficava dando chilique, se roubava, se batia nela. E a mãe: “Não, ele é tranquilo.” Desarmou, assim, em sua simplicidade, a charlatanice televisiva. Mas Bocão insistiu: “Você cheira a mão dele? Você cheira? – e – Já pegou ele drogadão, lá, assim, aéééreoooo?” Ela disse categoricamente que não. O único problema é que ele estava devendo ao traficante e foi jurado de morte.

Depois, ou antes, o programa mostrou três assaltantes num posto policial. O repórter era o Mão Branca, figura caricata que só mostra as mãos cobertas por uma luva branca. Aí ele perguntou a um assaltante chamado Getúlio se ele sabia quem foi Getúlio Vargas. O assaltante sinalizou timidamente que não conhecia o infeliz. Mão Branca disparou sem hesitar: “Conhecer História do Brasil você não sabe, mas assaltar sabe, né?”.

Conhecer História do Brasil… Pois é. Parece que ele não conhece porque simplesmente não quis. O Timothy Mulholland não tem culpa alguma, afinal de contas, a decoração da casa do Reitor não pode ser feita a facão e os mais de 470 mil reais estão justificados. A TV também não tem culpa, que fica passando Se Liga, Bocão.

Claro que a mídia não manipula pura e simplesmente. As pessoas vão atrás desses programas sensacionalistas sabendo da exposição pública que sofrerão. Mas em um país onde o poder público e os serviços estratégicos, como a comunicação e a educação, são relegados a último plano, recorrer a líderes messiânicos pode ser a última cartada de indivíduos e grupos acometidos pelo desespero.

E que venha o povo!

O apanhador no campo de centeio

fevereiro 9, 2008

Recomendo a leitura deste magnífico livro. Sempre tive vontade de ler, mas consegui apenas na internet, o que me dava desânimo e preguiça. Aí o vi por acaso dando sopa na casa de um amigo meu. Pronto. Li em duas sentadas.

O estilo é único. Apresenta uma linguagem coloquial e adolescente que soa natural e flui com facilidade. O tema é ótimo: a narrativa, pela personagem principal, de suas visões acerca do mundo. A personagem: Holden Scaufield – um garoto menor de idade expulso do colégio e cheio de distúrbios. Mas até o autor, J. D. Salinger, tem seus distúrbios.

Sociologicamente, poderíamos dizer que a personagem se rebela contra o interacionismo simbólico, ou seja, contra as máscaras e papéis que temos que usar ou desempenhar para mantermos um bom nível de convivência em sociedade. Para a abordagem interacionista, con-viver é sinônimo de viver mascarado, no sentido de que sempre estamos querendo controlar as impressões que os outros têm de nós mesmos. Isso gera uma moral que dá forma ao convívio social e nos diz aquilo que podemos e aquilo que não podemos fazer frente ao outro. É uma bem nobre forma de hipocrisia – sabemos como destruir a máscara tão cara do outro, mas sabemos também que nunca poderemos fazê-lo. A não ser que se esteja disposto a pagar o preço. E este tende a ser caro. A sociedade não perdoa aqueles que tramam contra os princípios basilares de sua estrutura.

Para vocês ficarem com água na boca e correrem para procurar o livro na rede ou com algum amigo safado que o tem, mas não leu, seguem pequenos trechos do capítulo 12:

“- Que maravilhoso encontrar com você! – ela falou. Puro fingimento. – Como vai teu irmão? – perguntou. Era só isso que ela queria saber.

(…)

– Você está sozinho meu querido? – a safada da Lillian perguntou. Ela estava interrompendo a droga do trãnsito todo na passagem. A gente via logo que ela gostava um bocado de parar o trânsito. Tinha um garçon esperando que ela saísse da frente, mas ela nem reparou no sujeito. Era engraçado. Estava na cara que o garçon não gostava dela e que nem o cara da Marinha gostava muito dela, embora estivesse saindo com ela. E eu não gostava muito dela. Ninguém gostava. De certa maneira a gente tinha que sentir pena da infeliz.

(…)

– Holden, vem sentar conosco. Traz o teu drinque.

– Não, obrigado. Já estava saindo – respondi. – Tenho um encontro marcado.

(…)

Aí foi embora. O cara da Marinha e eu dissemos que tinha sido um prazer conhecer um ao outro. Esse é um troço que me deixa maluco. Estou sempre dizendo: “Muito prazer em conhecê-lo” para alguém que não tenho nenhum prazer em conhecer. Mas a gente tem que fazer essas coisas para seguir vivendo.

Depois que eu disse a ela que tinha um encontro marcado, não podia mesmo fazer droga nenhuma senão sair. Nem podia ficar por lá para ouvir o Ernie tocar alguma coisa minimamente decente. Mas não ia de jeito nenhum sentar numa mesa com Lillian Simmons e com aquele cara da Marinha e morrer de chateação. Por isso saí. Mas fiquei danado quando apanhei meu sobretudo. As pessoas estão sempre atrapalhando a vida da gente.”

Meu nome não é Johnny; é arte?

fevereiro 2, 2008

A Sala de Arte da UFBA está exibindo Meu nome não é Johnny (é dinheiro?).

Que bom que é uma sala de arte com alto padrão de seletividade. Senão a gente tava lascado.

Meu nome não é Johnny; é dinheiro.

janeiro 19, 2008

Hoje assisti dois filmes. Ou foi ontem? Talvez tenha sido um hoje e outro ontem. Explico.

Eu e minha namorada aproveitamos a decadência do Aeroclube Plaza Show para curtir um cinema mais barato, mesmo estando quase sem ar condicionado (recomendo bermudas). Chegando lá, os filmes em exibição eram quase todos dublados, tipo Xuxa e os duendes, Uma família da pesada ou Um macaco muito louco. Mas tinha Meu nome não é Johnny e resolvemos ver. Começou a sessão e reparei nos patrocinadores: Banco do Brasil, BNDES, Petrobrás e Ancine (Ministério da Cultura). Fiquei indignado com o fato da Globofilmes ser patrocinada com recursos estatais. As megaempresas devem se auto-financiar. É o mínimo que podemos exigir do capitalismo. Eu, que conto as moedas da carteira, ainda estou devendo à financeira diversas prestações do computador do qual teclo estas palavras e governo algum me financia. Para a Globo, tem. Pros pequenos produtores independentes, não. Costumo elogiar o trabalho do Gil. Mas este é um tremendo ponto negativo de sua pasta: a não-ruptura com o modelo de financiamento da grande indústria cultural nacional.

Se pelo menos o filme prestasse! Mas qual! Trata-se de um péssimo moralismo classe média misturado com grandes pitadas de estereótipos toscos. Há diversas opiniões contrárias, claro. Depois de cansativa busca, encontrei uma aqui. A moral da história é a seguinte: as pessoas que cometem delitos podem ser ressocializadas. Contudo, por “pessoas” o filme entende “brancos de classe média que usam drogas”. O que parecia ser um alento para o alto índice de encarceramento no país é, na verdade, um alento às senhoras distintas mães de família que vêem seus filhinhos “se perderem”. Tragicômica as cenas na carceragem: negros estereotipados de malandros dispostos a matar por uma Coca-Cola enquanto o branco é o estranho no ninho – aquele que pode ser salvo. O branco sai da cadeia, os negros ficam. Mas que fique claro: o objetivo desta mensagem não é passar um realismo chocante; é defender a realidade atual, mas o faz de forma tosca e rudimentar. Tenho vídeos melhores no youtube. Há uma cena em que se quer passar a mensagem que surfista é maconheiro, mas faz-se isso misturando Malhação com Todo mundo em pânico. Enfim, um trash mal-feito.  Só que pela Globofilmes e com recursos públicos. O filme, claro, é copyright e todos os direitos são reservados. Recomendo (não) assistir.

Ainda bem que, ao chegar em casa, me deparo com um filme bom. A pele, com Nicole Kidman. O filme trata do despertar de uma artista, como definiu meu irmão. E o despertar vem com o rompimento de uma mulher com sua rotina enfadonha e sem sentido (ela é ajudante do marido fotógrafo, mãe, boa filha e dona de casa) através do contato com pessoas com anomalias. Ela acaba tendo um caso peculiar com uma delas – um homem que sofre de uma doença que a faz ter mais pêlos do que um urso em todo o corpo, inclusive no rosto. Um filme que retrata a bizarrice de forma angustiante, mas artisticamente surreal. Genial a idéia de mostrar como o contato totalmente naturalizado com o totalmente estranho pode ressignificar uma vida totalmente normal e, talvez por isso, totalmente estranha. Recomendo assistir.