Necessários adendos prévios ao artigo futuro sobre greve da PM na Bahia

Amanhã será publicado um artigo meu no qual analiso a greve da PM na Bahia. Mas o grampo das conversas de Marco Prisco, da ASPRA, divulgadas no Jornal Nacional e a iminente invasão da Assembléia por tropas do Exército me empurra a tecer adendos ao artigo que sequer saiu. O tempo da internet é esse mesmo – o instante. Portanto, faço 4 adendos prévios ao artigo futuro.

1 – A virada conservadora do PT e suas coalizões (partidárias e econômicas) levaram a perda de espaço do partido na liderança de diversas lutas sociais que não foram cooptadas por preenchimento de cargos públicos comissionados. Boaventura Sousa Santos já adverte que “a maior tragédia da esquerda no século XX foi ter transformado militantes em funcionários”. Logo, o vácuo deixado na luta social tem sido preenchido de forma pulverizada por forças sociais as mais distintas, inclusive da direita mais tradicional, alijada do poder pela ascensão do PT. Obviamente, fosse Prisco filiado ao PT a luta dos PMs estaria impossibilitada em prol de acordos de cúpulas.

2 – Em uma democracia, ser filiado a um partido político específico não é argumento suficiente para fazer julgamentos de valor sobre quem quer que seja. É preciso discutir o programa dos partidos e as conjunturas nacionais e locais. Prisco é do PSDB, porque o PT na Bahia atualmente ocupa o poder. Fosse Prisco meramente oportunista, seria mais lógico estar do lado de quem está no poder e poderia facilmente recompensá-lo com as regalias dos gabinetes de tapete persa. Prisco é do PSDB porque em 1992 e em 2001 o PT defendia a greve e os policiais e hoje faz comitiva de deputados e jabá na Globo contra o movimento sindical. Na política, não existe vácuo de poder. Se o PT sai dos movimentos sociais para se aconchegar nas poltronas de Sarney e Kassab, o PSDB entra nos movimentos sociais. Quando o PSDB entrar no poder novamente (se acontecer e espero que não), o PT (digo, sua cúpula) voltará a procurar os movimentos sociais. Já disse o Luiz Carlos Azenha: “o PT vence as eleições com os movimentos sociais e governa com o PMDB”. Essa postura de uso instrumental dos movimentos sociais para a formação de gabinetes cujas políticas públicas não respondem as demandas dos movimentos têm levado à uma esquizofrenia política no país.

3 – Por sua formação militar e despreparo cidadão, parte dos PMs cometem equívocos (e quiçá crimes) na condução da greve. O sociólogo Bourdieu explicava seu conceito de habitus: “para ser o que se deve ser, basta ser o que se é”. Os PMs simplesmente fazem uso de sua truculência habitual em um momento de greve. A sociedade os treina para matar e vocês queriam que eles fizessem greves como os juízes e médicos fazem? É necessário discutir a desmilitarização e federalização da atividade policial, que pode muito bem ser civil.

4 – A articulação sindical nacional em defesa da PEC 300, em si, não pode ser usada como argumento depreciador ao movimento. Tal movimento, ainda que sob a truculência ensinada aos PMs, combate a pulverização das polícias, criadas como guardas pretorianas de coronéis estaduais. Afirmar que a luta por um PISO salarial para uma categoria é criminosa ou golpista é um absurdo. Imoral é a discussão de TETO salarial para parlamentares e juízes que recebem salários afortunados para viver com privilégios, em conforto e sem perigo.

Espero que, em caso de invasão, a PM não reaja. O governo do estado não podia tolerar a ameaça à indústria do carnaval. O governo federal não podia tolerar a ameaça da eclosão de um movimento nacional pela PEC 300 e que simultaneamente criasse uma onda de insegurança no país prestes a sediar a Rio+20 e eventos desportivos internacionais. Prisco, com toda sua truculência, já começou a luta derrotado por aqueles que, com as boas maneiras de lord, contratam quem lhes faça o serviço sujo. E ojalá possamos encontrar o caminho da discussão profunda sobre uma segurança pública necessária para nosso país – que, pelo visto, deverá acontecer a despeito do PT e do PSDB.

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10 Respostas to “Necessários adendos prévios ao artigo futuro sobre greve da PM na Bahia”

  1. katherine almeida Says:

    gostei, Lippe! espero pelo artigo.
    bj

  2. agoraquando? (@sergiorauber) Says:

    Muito bom aperitivo pra conversa que vem depois. Mas, a partir da advertência de Boaventura, se a militância dos movimentos sociais foi cooptada para a República, para onde foram os movimentos sociais? Em que medida a causa LGBT ou mesmo a causa feminista aderem à centralidade da luta entre capital e trabalho? Fôlego, mesmo, para a aventura de construir a utopia e enfrentar o capital percebo só na causa ambiental… Mas vá lá, espero o post definitivo.

  3. Ana Janaina Says:

    Desculpe, mas um movimento que carrega suas armas até no momento de greve, que busca pressionar o governo através das ameaças a sua população (e a suspeita é de que a policia ressuscitou esquadrões da morte contra a população pobre e negra), perde a legitimidade. E mais que se articula com a poalicia de outros estados para fazer o mesmo. O MST nunca fez isso! Ameaçar a vida de quem nao tem nada a ver com o conflito! Que se faca uma analise a parte da situação da Policia – a lógica do movimento social e a lógica deste sindicato especifico estão bem diferentes.

    • Lucas Jerzy Portela Says:

      precisamente: PM é aparelho ideológico de estado mesmo quando tenta dar golpes contra um Governo.

      Em 2001 foi uma exceção: viviamos numa ditadura, a PM parou pacificamente e com unidade e em massa, e ela vinha de um uso insuportável dela mesma que foi a invasão da UFBA.

      Melhor dizendo, a greve sob César Borges foi uma exceção da e na exceção. O motim de agora, de só uma parte, desorganizado, sem demandas claras, e fazendo arruaça com o monopólio estatal da violência – o motim de agora foi uma exceção contra e sob um estado de direito. É o exato oposto!

      Não perceber isso ou é um impulso masoquista dos brabos, ou é mau-caratismo intelectual. Ou ambos, vá saber…

  4. Lucas Jerzy Portela Says:

    Meu caro, não houve greve. A maior parte da PM estava atuando normalmente.

    Foi motim sim. Foi uma tentativa de golpe miliciana a nível nacional.

    E o PMDB só estava com Wagner no primeiro mandato.

    Haja erro factual nesse texto, crendeuspai.

  5. Lucas Jerzy Portela Says:

    porra, Felippe, mas até tu confundindo aparelho ideológico de estado (PM) como se fosse proletariado?!

    Polícia Militar não é classe trabalhadora, ponto. Ou só o é secundariamente a ser aparelho ideológico do estado, esteja ela sendo usada pelo governo, esteja ela chantageando governo e sociedade juntos.

    Se nem esta pseudo-greve te mostrou isso, nada mais mostrará. Quanta fantasia erótica masoquista habita a esquerda acadêmica desse país, meu deus!

  6. Lucas Jerzy Portela Says:

    porra, Felippe, mas até tu tamando aparelho ideológico de estado (PM) como se fosse proletariado?! – confundindo uma coisa com outra?

    Polícia Militar não é classe trabalhadora, ponto. Ou só o é secundariamente a ser aparelho ideológico do estado, esteja ela sendo usada pelo governo, esteja ela chantageando governo e sociedade juntos.

    Se nem esta pseudo-greve te mostrou isso, nada mais mostrará. Quanta fantasia erótica masoquista habita a esquerda acadêmica desse país, meu deus!

  7. Fabio Arruda Says:

    A questão da desmilitarização da PM é tema discutido faz um tempo. Não sei como isso se daria. Mas que alguma coisa tem de ser tentada, disso não tenho dúvida. Outra coisa que não entendo é a dificuldade pra se discutir a PEC 300.

  8. André Guimarães Says:

    Felippe! Excelente análise! Você não me surpreende. Parabéns por sua capacidade de clarividência (sem nenhuma conotação mística). (risos)

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