Archive for junho \15\UTC 2011

Os usos políticos da bandeira dos Direitos Humanos

junho 15, 2011

O grupo Avaaz soltou mais um abaixo-assinado, desta vez condenando a suposta anuência do Governo brasileiro com o massacre de civis na Síria.

Gosto da militância do Avaaz e já assinei uma de suas petições, mas não assinarei esta.

O Governo brasileiro sistematicamente condena o uso político de condenações por parte das potências no Conselho de Segurança da ONU que visam a legitimar ações diplomáticas/econômicas/militares contra regimes hostis aos seus interesses, como nos casos da Líbia, Irã e Síria. A Primavera Árabe tem levantado multidões em favor da democracia e instado déspotas à reagir com massacres de civis. Mas isso tem acontecido também em regimes leais ao Ocidente, como Bahrein, Egito, Tunísia e não há tentativas de condenação por parte das potências. China e Rússia, como de costume, pesam a balança para a resistência contra os interesses geopolíticos das potências, mas não podem usar poder de veto para barrar a implementação da doutrina de segurança nacional (mundial) dos governos americano, francês e inglês devido ao tácito acordo das zonas de influência e interesse direto. A ruptura deste acordo tácito teria como consequência a retaliação por parte destes governos imperiais em assuntos de interesse direto da Rússia ou China, como o escudo anti-mísseis no Leste Europeu e a independência do Tibete, respectivamente. Por mais paradoxal que possa parecer, o Brasil apresenta hoje mais independência para fazer frente aos desígnios imperiais e articular o Sul global.
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Neste momento, o Avaaz se alinhou com interesses dos países poderosos. Eu, do meu lado, não quero outra Líbia.
Sinto muito, Avaaz. Às vezes estamos do mesmo lado, outras vezes o etnocentrismo cega suas bandeiras.
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Digo NÃO ao massacre de civis na Síria, bem como digo NÃO ao imperialismo travestido de direitos humanos.
E que o povo da Síria avance para a derrubada do tirano Assad sem os mísseis da OTAN.

O que Celso Furtado nos ensina sobre Belo Monte e Porto Sul

junho 13, 2011

Em um momento da história brasileira na qual o país galga espaços no cenário mundial, é normal que internamente haja forte discussão sobre os rumos nacionais e as diretrizes para a superação do subdesenvolvimento e da dependência. O modelo que os governos nacional e subnacionais têm escolhido é, contudo, arcaico e pautado pela acomodação com interesses exógenos do centro do capitalismo internacional. O modelo tomado pelo governo petista baiano, por exemplo, é pautado na exportação de commodities através de portos e rodovias privadas (Porto Sul) – fórmula clássica do colonialismo/imperialismo enquanto prática política e da escola econômica do desenvolvimento dependente segundo a qual o país pode crescer atendendo simplesmente às demandas das potências. O governo Dilma segue no mesmo embalo ao defender a todo custo a construção de Belo Monte: é preciso gerar energia (no Norte) para a crescente demanda industrial das corporações multinacionais (no Sudeste) – um tipo de imperialismo doméstico, no qual uma região do país exporta commodities para a industrialização de outra. Vejamos o que se pode retirar, de relance, de um escrito do Celso Furtado, a fim de lançar mais algumas luzes sobre a questão.

“[Empresas multinacionais] tendem necessariamente a se transformar em um superpoder. Cabendo-lhe grande parte das decisões básicas com respeito à orientação dos investimentos, à localização das atividades econômicas, à orientação da tecnologia, ao financiamento da pesquisa e ao grau de integração das economias regionais, é perfeitamente claro que os centros de decisão representados pelo Estado nacional são relegados a um plano cada vez mais secundário.

(…)

[Este modelo] é inviável, por ser ineficaz. A grande empresa parece ser um instrumento tão inadequado para enfrentar os problemas do subdesenvolvimento quanto um poderoso exército motorizado se mostra ineficaz ao enfrentar uma guerra de guerrilhas.

(…)

A penetração indiscriminada em uma estrutura econômica frágil, de grandes consórcios, caracterizados por elevada inflexibilidade administrativa e grande poder financeiro, tende a provocar desequilíbrios estruturais de difícil correção, tais como maiores disparidades de níveis de vida entre grupos da população e rápida acumulação de desemprego aberto ou disfarçado.

(…)

É possível que se acentue a concentração de atividades econômicas em certas subáreas, agravando disparidades de níveis de vida entre grupos sociais e áreas geográficas. O resultado no Brasil seria um aumento real ou potencial das tensões sociais. Como as decisões econômicas de caráter estratégico estariam fora do alcance do governo brasileiro, tais tensões tenderiam a ser vistas, no plano político local, tão-somente por seu ângulo negativo. A ação do Estado assumiria caráter essencialmente repressivo.”

(FURTADO, Celso. Raízes do subdesenvolvimento. RJ: Civilização Brasileira, 2003, pgs. 40-41)

Escrito na década de 60, o trecho explica bem como os governos do PT, a nível nacional e local, se transformaram em executores da repressão aos movimentos sociais que contestam o modelo estrutural adotado.

Sociologia à golpes de martelo

junho 11, 2011

NOTA DO BLOGUEIRO: Por um erro, ao selecionar a licenca Creative Commons, acabei por tornar o video privado, o que impediu as visualizacoes ate o momento (sabado, 11 de junho, 16h). O bom de tudo isso foi que o bug serviu como golpe de marketing. Recebi milhares de emails dos quatro cantos do mundo reclamando da propaganda enganosa, do ato de autoritarismo, etc. A juventude australiana ja estava organizando o “Release the video movement” pelo Facebook e Julian Assange ameacou soltar no Wikileaks neste domingo, em acordo com o El Pais. A resolucao do bug, ao clicar em um botao do painel do Youtube, abortou todas as animosidades. Mas somente a Associacao dos Padeiros Autonomos de Sao Borja lancou uma nota para desculpar-se das criticas acidas realizadas de forma desproporcional e descabida. Valeu, Sao Borja! [fim de nota]

Hoje inauguro mais uma tentativa na eterna busca por aprimorar a comunicação com meus leitores, amigos, críticos, companheiros e, quiçá, novos ouvidos (e olhos) que passarão por este blog. Trata-se da seção VODCAST, afinal, este blog, Tempos Pós-Modernos, tinha que ter algo de pós-moderno. Nada mais pós-moderno do que um professor que troca a escrita por vídeos descontraídos (e polêmicos), que com certeza gerarão tanto risadas quanto o mais profundo asco. A idéia é gravar conversas de bar comigo mesmo da forma mais natural possível. Vocês estão simplesmente acessando os meus pensamentos, da forma desorganizada e contraditória como são os pensamentos – isto é, livres. Sempre que quiser evitar mal-entendidos, farei posts escritos, revisados, acadêmicos, assépticos. Quando entender que é momento de ver o circo pegar fogo, recuperando Nietzsche para criar uma sociologia à golpes de martelo, recorrerei ao vodcast.

O primeiro vídeo (versão completamente beta) não poderia deixar de ser uma versão precária, com baixa qualidade de imagem e som (a fim de facilitar upload para Youtube) e sem qualquer edição. Caso a iniciativa agrade (ou desagrade) o público, enfim, tenha repercussão, a idéia é haver certa profissionalização, ainda que primária, dos vídeos, com recursos a moviemakers e maior qualidade de gravação. Portanto, comentários são bem vindos. Não há qualquer tipo de censura neste blog, exceto à reservada a cada indivíduo, incluindo o blogueiro que vos fala (escreve), de poder ignorar, cuspir no vaso sanitário ou coçar o suvaco. Reações humanas à parte, o debate pode – e deve – rolar solto.

O primeiro vodcast, “Festa da Xoxota Louca e a esquerda hegeliana pós-moderna”, aborda os limites e impactos da discussão moral do politicamente correto, a partir da mudança de nome de uma festa a ser produzida por um centro acadêmico devido a repercussões críticas ao nome proposto, homônimo de uma festa popular no interior do Maranhão. Eis no que deu abaixo.