Consumidor-da-cidade

Ao contrário do que normalmente se pensa, a cidade não é o lugar onde se vive, mas é a própria vida. Na primeira idéia, do lugar onde se vive, está implícita a visão de que a cidade é um objeto apropriado pelo consumidor-da-cidade: as opções-mercadorias estão lá e o consumidor compra o que deseja de acordo com seu potencial econômico de consumo. Assim, o consumidor-da-cidade escolhe os lugares que freqüenta: trabalho (de acordo com suas capacitações), faculdade (de acordo com sua vocação), ambientes de lazer e festa (de acordo com seus gostos e preferências). O consumidor-da-cidade é, assim, na concepção liberal do mundo, um sujeito livre. Se ele não freqüenta certos lugares é pelo simples fato de não desejar ir nesses lugares. Por exemplo, quem, em sã consciência, desejaria ir a uma favela no sábado à noite? Ou trabalhar em um barraco? Ou estudar em um serviço social para pessoas carentes em um bairro distante? Estes elementos simbolizam o fracasso e são motivo de vergonha.

O problema começa a aparecer quando nos damos conta de que nem todos são consumidores-da-cidade. Alguns não apresentam a renda necessária para abraçar a concepção liberal de mundo que permite o sentimento de vergonha. Na verdade, esses alguns são maioria e se sentissem vergonha por estar na favela sábado à noite, trabalhar em um barraco ou estudar em um serviço social, teriam simplesmente que admitir que suas vidas são, em si, uma vergonha completa. Assim, a cidade é, na verdade, não tanto a expressão da liberdade do consumidor-da-cidade, mas a manifestação da própria vida de diferentes sujeitos com diferentes linguagens incapazes de tradução. De fato, o jovem de classe média que gosta de Los Hermanos normalmente não consegue entender como um jovem de periferia gosta de Nu Estilo. No entanto, a sensação de liberdade de quem pode consumir, se é atraente para o consumidor, é simultaneamente a manifestação real de que o indivíduo internalizou um condicionamento de classe para sentir no próprio corpo como liberdade o que é objetivamente prisão. Não gostar de Nu Estilo implica não poder gostar de Nu Estilo. O indivíduo não sente isso como opressão porque ele não quer gostar de Nu Estilo porque enxerga seu próprio gosto como mais elevado. Mas o fato é que compartilhar de outra visão de mundo, de uma classe minoritária, a classe média ou a elite, significa estar preso a certas opções do leque disposto pela realidade. Claro que certas opções são desconsideradas pelo consumidor-da-cidade: é como se você tivesse a opção de comer repolho estragado ou Outback. A primeira opção simplesmente deixa de existir como opção.

Assim, a cidade passa a ter espaços invisíveis, indesejáveis que são. Todas essas considerações acima se originaram na minha constatação de que as pessoas com quem convivo chamam de cidade o que é uma parte da cidade. O trajeto que os pneus do carro com ar condicionado traçam no asfalto das avenidas principais é repetitivo e o carro quase segue sozinho o seu rumo predestinado. Assim, no mapa de Salvador abaixo, circulado em preto estão as áreas que o consumidor-da-cidade não sabe que existem. Em vermelho está seu trajeto, com as devidas rotas alternativas que circundam as ilhas de miséria e a rota de fuga para o litoral norte que sedia a casa de praia.

O consumidor-da-cidade é prisioneiro da ilusão de liberdade. Aprende a não querer o que não pode. Ignora e abomina a realidade de 80% da população.

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8 Respostas to “Consumidor-da-cidade”

  1. Tiago Lorenzo Says:

    Massa.
    😀

  2. bonecapensante Says:

    Ah bom! Tava pensando que você ia com o pensamento liberal do consumidor-da-cidade…

    Muito bom! voltou com tudo eim?

    bjooos

  3. bonecapensante Says:

    num próximo texto, quem sabe, vc poderia nos falar mais das “rotas alternativas que circundam as ilhas de miséria” eu adorei essa expressão! Daria um excelente post!

    obs: onde vc achou esse mapa?

    bjs, bjs

  4. Priscila Carvalho Says:

    acho que o termo “serviço social” foi mal colocado nessa postagem…
    pois, pelo que entendi, você faz referencia a uma entidade – talvez filantrópica – de ensino e não à profissão “serviço social”. Exemplo: “estudar em uma entidade de ensino para pessoas carentes em um bairro distante?”

    e quanto ao frequentar favelas no sábado à noite, tem que goste de ir a bailes funks no morro… e isso não significa necessariamente ser fracassado.

  5. Cristina Says:

    O que vc quer dizer com “estudar em um serviço social para pessoas carentes em um bairro distante? Estes elementos simbolizam o fracasso e são motivo de vergonha? Não gostei da sua colocação. Posso estar entendendo errado, por isso gostaria de ver o seu esclarecimento. Você está se referindo a profissão?

  6. Felippe Says:

    Serviço Social (com maiúscula) = Disciplina acadêmica.

    serviço social (com minúsculas) = substantivo composto, um serviço social qualquer.

    É a mesma lógica de:

    Relações Internacionais = disciplina

    relações internacionais = as relações que de fato ocorrem fora das fronteiras dos Estados

    Efetivamente, “faz referencia a uma entidade – talvez filantrópica – de ensino e não à profissão “serviço social”. Exemplo: “estudar em uma entidade de ensino para pessoas carentes em um bairro distante?””. Mas o termo não está mal colocado, no meu entender, claro.

    Sim, a classe média que vai a bailes funks é excessão. Mas hoje já há até “Favela Tour” pelas empresas de turismo para que estes conheçam a pobreza in loco. Trata-se da lógica do exótico. Infelizmente.

    Portanto, fica claro também à Cristina que não me referi à profissão, mas à relação social de construção de um estereótipo e cultura de classe média que inferioriza as demais classes a fim de reproduzir a dominação. O texto é claramente irônico, como estilo adotado para incomodar a classe média e as elites. Mas assim explicado por mim perde a graça.😦

  7. Eu Says:

    Acho q nao necessariamente vc “Aprende a não querer o que não pode.”
    Minha empregada escuta ‘toda enfiada’ todo dia e gosta de Men at Work,
    Jack Jonhson, Led Zeppelin, Pink Floyd, Aerosmith etc.
    E obviamente, ela nao entende o que eles cantam!
    Ela escolheu gostar daquilo que faz bem aos ouvidos dela. Nao é a regra, infelizmente.
    Mas a vida é feita de escolhas!

  8. Dimitri Martins Says:

    O que a cidade consome:
    http://dimitrimartins.blogspot.com/2010/09/diante-do-avanco-da-cultura-da-morte.html

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