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Consumidor-da-cidade

agosto 23, 2010

Ao contrário do que normalmente se pensa, a cidade não é o lugar onde se vive, mas é a própria vida. Na primeira idéia, do lugar onde se vive, está implícita a visão de que a cidade é um objeto apropriado pelo consumidor-da-cidade: as opções-mercadorias estão lá e o consumidor compra o que deseja de acordo com seu potencial econômico de consumo. Assim, o consumidor-da-cidade escolhe os lugares que freqüenta: trabalho (de acordo com suas capacitações), faculdade (de acordo com sua vocação), ambientes de lazer e festa (de acordo com seus gostos e preferências). O consumidor-da-cidade é, assim, na concepção liberal do mundo, um sujeito livre. Se ele não freqüenta certos lugares é pelo simples fato de não desejar ir nesses lugares. Por exemplo, quem, em sã consciência, desejaria ir a uma favela no sábado à noite? Ou trabalhar em um barraco? Ou estudar em um serviço social para pessoas carentes em um bairro distante? Estes elementos simbolizam o fracasso e são motivo de vergonha.

O problema começa a aparecer quando nos damos conta de que nem todos são consumidores-da-cidade. Alguns não apresentam a renda necessária para abraçar a concepção liberal de mundo que permite o sentimento de vergonha. Na verdade, esses alguns são maioria e se sentissem vergonha por estar na favela sábado à noite, trabalhar em um barraco ou estudar em um serviço social, teriam simplesmente que admitir que suas vidas são, em si, uma vergonha completa. Assim, a cidade é, na verdade, não tanto a expressão da liberdade do consumidor-da-cidade, mas a manifestação da própria vida de diferentes sujeitos com diferentes linguagens incapazes de tradução. De fato, o jovem de classe média que gosta de Los Hermanos normalmente não consegue entender como um jovem de periferia gosta de Nu Estilo. No entanto, a sensação de liberdade de quem pode consumir, se é atraente para o consumidor, é simultaneamente a manifestação real de que o indivíduo internalizou um condicionamento de classe para sentir no próprio corpo como liberdade o que é objetivamente prisão. Não gostar de Nu Estilo implica não poder gostar de Nu Estilo. O indivíduo não sente isso como opressão porque ele não quer gostar de Nu Estilo porque enxerga seu próprio gosto como mais elevado. Mas o fato é que compartilhar de outra visão de mundo, de uma classe minoritária, a classe média ou a elite, significa estar preso a certas opções do leque disposto pela realidade. Claro que certas opções são desconsideradas pelo consumidor-da-cidade: é como se você tivesse a opção de comer repolho estragado ou Outback. A primeira opção simplesmente deixa de existir como opção.

Assim, a cidade passa a ter espaços invisíveis, indesejáveis que são. Todas essas considerações acima se originaram na minha constatação de que as pessoas com quem convivo chamam de cidade o que é uma parte da cidade. O trajeto que os pneus do carro com ar condicionado traçam no asfalto das avenidas principais é repetitivo e o carro quase segue sozinho o seu rumo predestinado. Assim, no mapa de Salvador abaixo, circulado em preto estão as áreas que o consumidor-da-cidade não sabe que existem. Em vermelho está seu trajeto, com as devidas rotas alternativas que circundam as ilhas de miséria e a rota de fuga para o litoral norte que sedia a casa de praia.

O consumidor-da-cidade é prisioneiro da ilusão de liberdade. Aprende a não querer o que não pode. Ignora e abomina a realidade de 80% da população.