De volta ao interior

Odeio todas as datas comemorativas brasileiras. Natal, São João, Carnaval, Independência, Dia de Finados! Quando andava unknown like a Rolling Stone without a home (estou ouvindo Dylan neste exato instante) me refugiava na auto-solidão (creiam-me: auto-solidão é diferente de solidão): ficava em meu quarto lendo, assistindo filmes, postando no blog (na época em que este blog chegou a ter posts diários). Comprava uma cerveja e uma carteira de LA. Pronto. Este era meu feriadão. Adorava.

Mas como para ter a síndrome de Peter Pan é preciso ter dinheiro (ex: Michael Jackson e sua Neverland) ou não ter cérebro, acabei crescendo, como mamãe queria. Arrumei um emprego e sou um dito cidadão respeitável (ouvi Raul [toca Rauuuuuuul!] há pouco). Claro que o emprego é uma miséria, tanto em conteúdo como em remuneração. Sou professor universitário e como Chico Anísio já dizia, deu sorte quem fugiu dessa sina, ainda que virando puta.

Fato é que com um pouco de grana no bolso desta vez rumei ao interior, mas não no sentido das micro cidades que se sustentam com o Fundo de Participação dos Municípios, aposentadorias e festas ocasionais que servem para o povo da capital respirar ares bucólicos de quando em vez e dizer – gosto de festa de raiz! Não. Fui para Itabuna, minha cidade natal. A típica cidade que sofre a maldição das cidades médias – nem é pequena o suficiente para apresentar ar bucólico, nem grande o suficiente para prover as possibilidades da modernização e uma mentalidade urbana.

O resultado é que como sociólogo (este olhar que me acompanha diuturnamente) e sem ter nada melhor para fazer, fiquei a prestar atenção nos comportamentos da juventude local. A falta de perspectiva paira no ar. E tenho reparado na seguinte coincidência: onde falta perspectiva, abunda o sexo. Ou seja, na falta do que fazer, resta à juventude transar. Buscar o sexo é a meta maior da juventude de uma cidade média. Não estou a falar aqui das micro cidades, onde não raro ainda reinam normas de sociedades patriarcais, com forte machismo tradicional e iniciação sexual precoce, às vezes acompanhada de gravidez indesejada à qual se somam os comentários e olhares da comunidade em um misto de desdém e inveja (afinal a gravidez não planejada representa o pecado e simultaneamente a entrada forçada na vida adulta). Mas nas cidades médias, como Itabuna, a coisa é mais complexa. A cidade tem uma vida noturna agitada e já existe o anonimato (o que impede o controle direto da comunidade). Os jovens vão para a night com a indumentária de marca (roupas sem marca são um passo para a exclusão ou ao menos olhares enviesados). Um carro ajuda muito, pois homens e mulheres literalmente desfilam de automóvel ou de moto. Mas simultaneamente a esses rituais mercadológicos, verifica-se contraditoriamente um gap de intermediações simbólicas tão presentes em cidades maiores (as capitais e metrópoles). Assim, uma vez com o porte dos artefatos materiais (roupas, carro, celular), o caminho para a conquista de um par para a noite é muito fácil. Um olhar desconcertante. Um chamado para o canto. Umas palavras no pé de ouvido. Um beijo. Uma carona. Um motel. É impressionante como o caminho é direto…

Cheguei à conclusão de que Itabuna, apesar de interiorana e atrasada, apresenta uma cultura e um modus vivendi mais diretamente materialista do que a própria Salvador. Na capital, onde reina o capital, como diz o trocadilho, este capital circula de modo mais complexo e através de caminhos tortuosos. Para azarar alguém há sempre o atalho de uma noitada na boate ou um forrozinho coladinho (esse truque é tão velho quanto o “é só a cabecinha”). Mas ainda é mais difícil dar o passo seguinte e ir direto ao motel em Salvador do que em uma cidade média (nas micro cidades, na ausência de motel, há sempre aquele galpão abandonado). O capital da capital gosta de fazer um doce – a luxúria . O do interior gosta de ser consumido voluptuosamente.

Enfim, se pode entender porque as pessoas da capital migram sazonalmente para o interior. Ganham dinheiro onde as oportunidades são mais abundantes e gastam onde o sexo está a flor da pele. Freud explica.

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2 Respostas to “De volta ao interior”

  1. Valter Says:

    Gostei do texto, ficou legal.
    Me identifiquei com “Chico Anísio já dizia, deu sorte quem fugiu dessa sina, ainda que virando puta.” Não virei puta… hehehe…, mas fugi desta sina como o diabo foge da cruz.. nem sei se vc acredita em diabo… hauhau…
    T+!

  2. Valter Says:

    Aff, Itabuna tá bombando assim é… vou me mudar pra lá… hehehehehe…

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