Questão de direito

Há quem goste de viajar. Para sustentar tal opinião, provavelmente não tiveram as experiências que tive nas minhas viagens. Lembro-me claramente de cada minuto da mais angustiante de todas. Saí do ônibus com a alma exausta como se tivesse levado chicotada. Tratava-se de uma viagem de cerca de sete horas, da capital para o interior do estado (uma daquelas visitas que temos que fazer aos avós). Mas deve ter durado uns três anos. Quase perdi o ônibus porque peguei o ônibus errado para ir à rodoviária. Fui o último a entrar. Por sorte, a maior parte das pessoas já havia viajado (a capital esvazia nesses feriadões, pois são muitas avós para se visitar) e assim haviam diversas poltronas vagas para escolhermos em qual janela viajar. O feriado já havia começado. Sempre sou o último da minha família a viajar porque odeio chegar à cidade pequena e ter que sorrir para as senhoras amigas da minha avó que apertam minha bochecha exclamando “como cresceu! – eu o vi deste tamanhinho aqui!”. Tudo isso ia divagando sozinho sentado na poltrona da janela, vislumbrando o Sol opaco do dia nublado e com um leve mau-cheiro oriundo do sanitário às minhas costas. Fui interrompido por um jovem rapaz (que provavelmente também viajava para visitar a avó) que solicitou-me retirar a minha mochila da poltrona vaga para poder se acomodar. Naquele instante percebi que minha viagem de divagações sobre avós e amigas das avós estava seriamente comprometida. Gosto de viajar sem ninguém ao lado, porque aprecio pensar enquanto os demais gostam de puxar papo furado, fazer amizade, contar a própria vida insignificante como se fosse uma grande aventura, comer biscoitos barulhentos e esparramar farelo no colo dos outros. Isso me deixa terrivelmente aborrecido. Só queria pensar sozinho durante as horas de viagem. Mas nada fiz nem demonstrei para o rapaz, mantendo-me completamente impassível e sem expressão ao retirar a mochila da poltrona e a colocar entre meus pés. Trocamos aquele olhar insosso que quer dizer obrigado e por nada num ritual obrigatório e ingrato. Desfiz a minha postura espontânea e ajeitei-me na poltrona em coluna reta. Puxei o braço móvel que fica entre as duas poltronas e alojei confortavelmente meu braço direito nele. O braço móvel é direito de quem chega primeiro, pois é inviável compartilhá-lo com outra pessoa e temos que estabelecer critérios justos para distribuir os confortos da viagem. Tratei logo de fingir adormecer enquanto o jovem rapaz acomodava suas bagagens no vão superior. Assim, pensei, garantia meu direito ao braço móvel – além de demarcar a fronteira entre meu território e o dele. Mas o safado estava a fim de acabar com meu sossego! Assim que sentou tratou de esbarrar seu braço esquerdo no meu braço direito que estava tão bem acomodado. Fingiu ter sido sem querer, mas percebi claramente sua declaração de guerra: ele queria dominar o braço móvel! Imediatamente esparramei-me sobre o objeto disputado fingindo um movimento sonolento espontâneo. A partir desse momento ele entendeu que eu havia compreendido suas intenções e não pôde mais usar táticas de enfrentamento direto. Esperou que eu dormisse mais profundamente (obviamente estava fingindo e encontrava-se mais acordado que nunca) para reiniciar os ataques – extremamente velados. Percebi que sua tática agora era colocar o cotovelo no ponto mais próximo das costas da poltrona, por trás do meu braço, e ir ganhando espaço centímetro por centímetro, milímetro por milímetro. O safado sabia que eu não poderia opor resistência e continuar a fingir que dormia ao mesmo tempo. Assim, cada centímetro de território perdido eu buscava recuperar sempre que o ônibus fazia uma curva mais brusca na estrada – desse modo continuava a fingir que dormia, jogando todo meu peso na disputa com a espontaneidade de um corpo que segue as leis da física. O ônibus disponibilizava café e água aos passageiros, mas não podia sair da disputa e me dar ao luxo da rendição. A luta me fazia suar, arfar e sentir dores em todo o corpo espiritual. O corpo físico clamava por um copo d’água que eu sabia que não viria até o término da viagem fatigante. O ódio era recíproco e pairava no ar como uma nuvem carregada. As horas eram intermináveis. Os minutos eram horas e os segundos, minutos. A visão da rodoviária de destino foi celebrada como o fim de um massacre do qual éramos sobreviventes. E eu ganhei a guerra. Meu braço enfim descansou no braço móvel – que era meu por direito! Com o ônibus parado, fiz o movimento contrário dos demais passageiros (inclusive aquele da parte derrotada) e ao invés de direcionar-me para a saída com o bilhete de passagem às mãos, fui ao fundo do automóvel e bebi a água e o café que me esperavam pacientemente. “As pessoas estão sempre atrapalhando a vida de gente”, como li num dos poucos livros cuja mensagem foi proveitosa.

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6 Respostas to “Questão de direito”

  1. Tiago Says:

    Legal, você escreveu!

    Eu até sei o que é isso, mas sou assim raríssimas vezes.
    Isso porque eu sou o cara que gosta de conversar, falar de minha vida como se fosse importante, comer biscoitos e sujar tudo. (Ok, a parte do biscoito é mentira, mas não deveria ser).
    Sou afixionado por amigos descartáveis. Desde velhinhos meio loucos que gostam de falar com jovens para se lembrarem da antiga juventude, até guris falões que ficam fazendo careta da cadeira da frente.
    Dica: já pensou em um dia quebrar o elo misterioso que mantém aquela relação que você experimentou no ônibus ?(ui que frase miguxa!)
    Já pensou em expor o que não deveria estar exposto ?(Y. M. C. A.!)

    Já imaginou a cara do indivíduo e o que aconteceria se você chegasse e dissesse: “Ei, velho, nem a pau cê vai ficar com encosto do meio!”? (com um sorriso e o bom humor evidenciando o cinismo)…

    Na próxima faça isso, e volte pra dizer como foi.😀

  2. Felippe Ramos Says:

    Se fizesse o que você disse, me pouparia o cansaço descrito no conto. O lado ruim é que o próprio conto, desse modo, também seria sacrificado. Fazer amizades descartáveis é a regra na sociedade de massas e suas histórias já estão contadas nas novelas das 8. Mas há sempre uma estética na melancolia e na solidão (que o digam Fernando Pessoa e Dostoiévski – os grandes do sofrimento humano!).

  3. Tiago Says:

    A sociedade de massas está na novela das 8, mas os amigos descartáveis não!
    Ator só vai embora de novela quando morre!😀
    É verdade, não existiria este conto, mas quem sabe outro…

    De qualquer forma valeu pelo conto que existe.😀

  4. Marcela Isis Says:

    Aff… entendo prefeitamente o que você escreveu; basta dar trela que as pessoas tentam engatar um papo desnecessário e enfadonho, com diálogos vazios que só fazem te tirar de seus pensamentos, te roubar a solidão e o silêncio sem oferecer nada que o valha em troca.

    Pelo visto não sou a única a preferir poltronas de ônibus que não tem outra ao lado ou a fixar o olhar na janela p não ter que enxergar que tem alguém ao lado. Me sinto um pouco melhor agora, mas, por favor, não entenda isso como um convite para se sentar ao meu lado num ônibus qualquer, me tomar a janela ou começar um diálogo; que fique bem claro que, a despeito dessas linhas, o braço móvel continua separando os territórios e que meu olhar está na paisagem.

    Adorei o texto!

  5. Dimitri Says:

    Felippe, o inferno pode ser “os outros”, como profetizou Sartre, mas os outros também podem ser o paraíso. Sou extremamente grato à vida (a palavra DEUS não te ofende, não é?) pelas pessoas que encontro e procuro não perder nenhuma delas. Cada uma tem um espaço em minha vida, e foi o Infinito Mistério da vida que me fez encontrá-las. A questão fundamental toda está aqui: tudo é fruto de um gigantesco acaso, ou há uma razão para as coisas que acontecem? Não acredito que encontrar você foi “obra do acaso”, simplesmente. Você é pra mim um sinal do Infinito Mistério, pensado e querido por esta mesma Razão antes mesmo de você poder escolher isto. E por isso eu penso que não podemos somente nos justapôr uns aos outros, porque o outro é a estrada para o Infinito. O caminho ao paraíso é o outro. Sem isso, o outro torna-se “inferno”, como genialmente pintou Sartre. Resta-me somente justapôr-me a ele, e ele só me interessa quando me incomoda. Seu conto é de uma genialidade tremenda e me comove porque é uma metáfora da nossa sociedade pós-moderna, onde só resta o si mesmo. Um si mesmo que é muito pouco. Um si mesmo que é o prenúncio do nada. Um si mesmo que é prenúncio do desespero surdo que vivemos todos os dias, na confusão do barulho das nossas grandes metrópoles. Faço minhas as palavras de Jean-Guitton: “Sartre escolheu o nada, o absurdo. Eu escolhi o infinito”. E você, o que escolhe?

  6. Koji Says:

    E se o descanso de braço do ônibus fosse assim?

    http://www.faberludens.com.br/pt-br/node/1108

    Será que a sua viagem seria mais confortável?

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