Archive for novembro \16\UTC 2008

Bush anuncia o fim da Guerra do Iraque!

novembro 16, 2008

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Calma, queridos leitores! Não se trata de uma revolução pós-Obama (a qual não virá), mas apenas de um tipo interessante de ativismo de um grupo norte-americano, o Yes Men, que recria as notícias não como elas são, mas como eles gostariam que elas fossem. À essa utopia, eles acrescentam um conteúdo contestatório ao imitar grandes empresas de comunicação, como o jornal The New York Times, imprimindo e distribuindo uma edição extremamente similar à original, mas com as “notícias” que os grupos defendem. Em seu site, esclarecem que seus alvos são líderes e grandes empresas que põem o lucro à frente de tudo. Assim, a notícia que dá título ao post nada mais é do que uma ação do referido grupo. Vejam como foi aqui.

Agradecimento à Thiago Varela, pelo envio da notícia.

Obama

novembro 8, 2008

Há 40 anos Martin Luther King foi assassinado por defender os direitos civis e políticos dos negros norte-americanos. A luta deu frutos. O quadro da sucessão de presidentes foi alterado.

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Questão de direito

novembro 7, 2008

Há quem goste de viajar. Para sustentar tal opinião, provavelmente não tiveram as experiências que tive nas minhas viagens. Lembro-me claramente de cada minuto da mais angustiante de todas. Saí do ônibus com a alma exausta como se tivesse levado chicotada. Tratava-se de uma viagem de cerca de sete horas, da capital para o interior do estado (uma daquelas visitas que temos que fazer aos avós). Mas deve ter durado uns três anos. Quase perdi o ônibus porque peguei o ônibus errado para ir à rodoviária. Fui o último a entrar. Por sorte, a maior parte das pessoas já havia viajado (a capital esvazia nesses feriadões, pois são muitas avós para se visitar) e assim haviam diversas poltronas vagas para escolhermos em qual janela viajar. O feriado já havia começado. Sempre sou o último da minha família a viajar porque odeio chegar à cidade pequena e ter que sorrir para as senhoras amigas da minha avó que apertam minha bochecha exclamando “como cresceu! – eu o vi deste tamanhinho aqui!”. Tudo isso ia divagando sozinho sentado na poltrona da janela, vislumbrando o Sol opaco do dia nublado e com um leve mau-cheiro oriundo do sanitário às minhas costas. Fui interrompido por um jovem rapaz (que provavelmente também viajava para visitar a avó) que solicitou-me retirar a minha mochila da poltrona vaga para poder se acomodar. Naquele instante percebi que minha viagem de divagações sobre avós e amigas das avós estava seriamente comprometida. Gosto de viajar sem ninguém ao lado, porque aprecio pensar enquanto os demais gostam de puxar papo furado, fazer amizade, contar a própria vida insignificante como se fosse uma grande aventura, comer biscoitos barulhentos e esparramar farelo no colo dos outros. Isso me deixa terrivelmente aborrecido. Só queria pensar sozinho durante as horas de viagem. Mas nada fiz nem demonstrei para o rapaz, mantendo-me completamente impassível e sem expressão ao retirar a mochila da poltrona e a colocar entre meus pés. Trocamos aquele olhar insosso que quer dizer obrigado e por nada num ritual obrigatório e ingrato. Desfiz a minha postura espontânea e ajeitei-me na poltrona em coluna reta. Puxei o braço móvel que fica entre as duas poltronas e alojei confortavelmente meu braço direito nele. O braço móvel é direito de quem chega primeiro, pois é inviável compartilhá-lo com outra pessoa e temos que estabelecer critérios justos para distribuir os confortos da viagem. Tratei logo de fingir adormecer enquanto o jovem rapaz acomodava suas bagagens no vão superior. Assim, pensei, garantia meu direito ao braço móvel – além de demarcar a fronteira entre meu território e o dele. Mas o safado estava a fim de acabar com meu sossego! Assim que sentou tratou de esbarrar seu braço esquerdo no meu braço direito que estava tão bem acomodado. Fingiu ter sido sem querer, mas percebi claramente sua declaração de guerra: ele queria dominar o braço móvel! Imediatamente esparramei-me sobre o objeto disputado fingindo um movimento sonolento espontâneo. A partir desse momento ele entendeu que eu havia compreendido suas intenções e não pôde mais usar táticas de enfrentamento direto. Esperou que eu dormisse mais profundamente (obviamente estava fingindo e encontrava-se mais acordado que nunca) para reiniciar os ataques – extremamente velados. Percebi que sua tática agora era colocar o cotovelo no ponto mais próximo das costas da poltrona, por trás do meu braço, e ir ganhando espaço centímetro por centímetro, milímetro por milímetro. O safado sabia que eu não poderia opor resistência e continuar a fingir que dormia ao mesmo tempo. Assim, cada centímetro de território perdido eu buscava recuperar sempre que o ônibus fazia uma curva mais brusca na estrada – desse modo continuava a fingir que dormia, jogando todo meu peso na disputa com a espontaneidade de um corpo que segue as leis da física. O ônibus disponibilizava café e água aos passageiros, mas não podia sair da disputa e me dar ao luxo da rendição. A luta me fazia suar, arfar e sentir dores em todo o corpo espiritual. O corpo físico clamava por um copo d’água que eu sabia que não viria até o término da viagem fatigante. O ódio era recíproco e pairava no ar como uma nuvem carregada. As horas eram intermináveis. Os minutos eram horas e os segundos, minutos. A visão da rodoviária de destino foi celebrada como o fim de um massacre do qual éramos sobreviventes. E eu ganhei a guerra. Meu braço enfim descansou no braço móvel – que era meu por direito! Com o ônibus parado, fiz o movimento contrário dos demais passageiros (inclusive aquele da parte derrotada) e ao invés de direcionar-me para a saída com o bilhete de passagem às mãos, fui ao fundo do automóvel e bebi a água e o café que me esperavam pacientemente. “As pessoas estão sempre atrapalhando a vida de gente”, como li num dos poucos livros cuja mensagem foi proveitosa.