Resposta ao leitor e adendos acerca da Contestação hoje

Estou de volta depois de quase um mês de férias do blog. É que tenho andado muito ocupado com a vida offline. E agradeço ao Renam por ter me despertado de minha letargia blogueira ao comentar (aqui):

“(…) Fiquei com uma dúvida: qual o problema com rupturas institucionais quando existem condições coletivas, materiais e simbólicas para acelerar a construção das novas condições de sociabilidade?”

A resposta a esta questão é complexa, importante e se confunde com a resposta aos dilemas históricos pelos quais passa a esquerda hoje. Assim, não pretendo emitir um parecer definitivo. Sigo o exemplo metodológico de Karl Marx, que furtou-se de descrever o futuro e mesmo os caminhos precisos para a utopia que defendia (o comunismo), abordando-o apenas de modo ensaístico e aberto. Isso o fez concentrar-se nos problemas de seu tempo e na análise das estruturas sociais do capitalismo, distanciando-o de pensadores eminentemente normativos, como Hegel, Saint-Simon, Spencer ou Comte, que preferiam, ao invés do que é, falar sobre o que deveria ser.

Assim, as rupturas institucionais não estão no horizonte próximo da política brasileira. Ainda menos estão as rupturas revolucionárias. Em post anterior, contudo, discorri sobre as possibilidades abertas pelo declínio da alternativa socialista tradicional a partir do fim da Guerra Fria (reunificação da Alemanha sob o capitalismo e dissolução auto-proclamada da União Soviética). A morte de um Pai poderoso demais fez os filhos chorarem, mas, simultaneamente, obrigou-os a lutar pela sobrevivência usando todo o potencial criativo à disposição. Ademais, abriu-se grande oportunidade para que os filhos analisassem os erros cometidos pelo Pai a fim de não mais os repetir em suas trajetórias. Este Pai metafórico, é claro, é o Marxismo, enquanto doutrina oficial e auto-suficiente.

O dito popular, entretanto, nos ensina a não jogar o bebê fora com a água do banho. Logo, o marxismo tem muito a contribuir para a Contestação Crítica ainda hoje. Não à toa, estou re-estudando O Capital. Mas o marxismo deve se fundir à novas perspectivas críticas, aceitando o diálogo, inclusive, com fontes extra-européias de pensamento político (pensemos, por exemplo, na contribuição dos indígenas da América Latina contemporânea, vide as novas Constituições do Equador e da Bolívia).

As oportunidades históricas, contudo, nem sempre são aproveitadas. E aqui teço duas lamentações.

A primeira refere-se à guinada autoritária da Venezuela, representada na justificativa do seu chanceler Nicolas Maduro quando da recente expulsão de membros da Human Rights Watch do país: “estrangeiro que vier opinar contra a nossa pátria será expulso de maneira imediata”. Ora, este tipo de atitude foi responsável por transformar o marxismo em stalinismo ao longo do século XX. Relembremos mais uma vez o exemplo de Karl Marx: aproveitou-se do ambiente liberal e democrático da Europa para, a partir de “inimigos teóricos” como Adam Smith e Hegel, tecer as suas teorias revolucionárias. Imaginem a riqueza para o pensamento crítico se, ao invés de expulsar os divergentes não-golpistas, Chávez dialogasse com eles, independentemente de suas nacionalidades de origem (lembremos que tanto Marx quanto Bolívar, ao qual Chávez diz seguir, eram internacionalistas e consideravam o nacionalismo uma chaga ideológica imposta pela burguesia).

A segunda lamentação se refere às eleições municipais desse ano. Moro em Salvador e voto em Walter Pinheiro (PT-PSB-PCdoB-PV), mas sempre discutindo as limitações da esquerda institucional. Paralelamente, a esquerda de rua de opção revolucionária (PSOL-PSTU-PCB) tem perdido a oportunidade histórica de rever posições teóricas e políticas para adentrarem no século XXI, sem perderem suas identidades radicais. Assim, em seu programa, defende o congelamento do preço dos alimentos e o reajuste salarial automático a partir dos níveis de inflação (gatilho salarial). Esses mecanismos, porém, não são revolucionários em si e o prova o fato do governo Sarney os ter usado amplamente devido à estagnação econômica e à hiperinflação na qual o país se atolava.

Nesse sentido, a falta de olhar histórico e a incapacidade de auto-crítica da esquerda a tem levado a desperdiçar a chance de elaborar um novo rumo para a emancipação. Por isso, caro Renam, a meu ver, pode até ser bom que não “exist[a]m condições coletivas, materiais e simbólicas para acelerar a construção das novas condições de sociabilidade” através de rupturas institucionais. A esquerda ainda tem que aprender que emancipação se faz com e para a liberdade e não em detrimento dela.

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