Entre a natureza política e a cultura política

Tenho sugerido que, assim que uma pessoa se disser de esquerda no Brasil, é preciso questioná-la: “da esquerda de gabinete ou da esquerda de rua?”. Tal é a situação política após a ascensão de Lula e do PT ao mais alto cargo da República, bem como da esquerda em diversos níveis (federal, estaduais e municipais). Contudo, a mudança de postura programática e ideológica não foi inaugurada repentinamente em 2003. Já na época dos primeiros escândalos de Collor, o PT e o PCdoB viram-se numa luta intestina. Setores mais “cautelosos” defendiam que a defesa do impeachment do primeiro presidente eleito diretamente após a ditadura militar poderia causar fragilidade institucional e reanimar os militares. Assim, estrategicamente, seria mais prudente defender a conquista da democracia. Essa tese foi rechaçada pela juventude de ambos os partidos, que disseram não bastar apenas uma democracia institucional formal: era preciso que a democracia fosse verdadeira, substantiva e que, acima de tudo, servisse às demandas da maioria. O resto nós sabemos: a juventude ganhou o debate e as ruas e Collor ganhou a porta de saída do Palácio da Alvorada. Uma grande vitória programática da esquerda. Depois do episódio, Lula participou e perdeu mais duas eleições contra FHC. O PT e a esquerda perceberam que era preciso moderar no discurso e fazer alianças mais ao centro para galgar o poder em um país profundamente conservador como o Brasil. Ao mesmo tempo, a esquerda permanecia nas ruas, fortalecendo os movimentos sociais (lembremos que o Fórum Social Mundial teve sua primeira edição em 2001, em Porto Alegre, então dirigida pelo PT). Em 2002, já sob a efeito do photoshop de ideologias de Duda Mendonça, Lula ganha as eleições. A despeito do PT e da esquerda já estarem mais ao centro no momento da posse, o ritual de passagem da Era FHC para a Era Lula foi marcado pela comoção popular de massas que se deslocaram dos quatro cantos do país para Brasília. Em 2005, dois anos depois, o mesmo Lula já era vaiado no Fórum Social Mundial. Dois anos bastaram para a desilusão. O que aconteceu?

Primeiro, esclareçamos: em certo sentido, uma dose de desilusão faz bem – o photoshop de Duda Mendonça, do Lula salvacionista, precisa vir abaixo. Mas não é disso que se trata. Mas sim do isolamento da esquerda que chegou ao poder. O discurso que embasa esse isolamento e a mudança de postura é o seguinte: ao ocupar um cargo institucional é preciso mudar em dois sentidos – no protocolo (linguagem diplomática, maleabilidade, trânsito entre diferentes posições políticas) e no programa (foco na conciliação). Assim, quando você está frente a frente com um ministro de longa história de militância e engajamento em favor da justiça social e da mudança, na verdade você está frente a frente com o cargo e não com a pessoa. Explica-se, portanto, porque as respostas aos questionamentos populares sejam tão parecidas com as respostas de qualquer direitista – trata-se do protocolo e da necessidade de evitar conflitos (principalmente com a mídia).

Ambos os sentidos da mudança – protocolar e programático – apresentam problemas graves. Após a premissa (correta) de que é preciso ceder em certos pontos, chega-se à conclusão (errônea) de que natureza da política é a conciliação. Na verdade, há duas políticas e ambas são culturalmente construídas: a política dos vencedores e a política dos perdedores em relação à determinada ordem política, econômica, social e cultural. Para os vencedores, a política é conciliação – manutenção do status quo, ainda que frente a concessões. Para os perdedores, por sua vez, a política só pode significar conflito – alteração do status quo e transformações estruturais.

Não que o PT ou o Governo Lula fossem fazer somente (ou prioritariamente) a política do conflito. Mas, ao menos, deveriam ter em mente a centralidade do conflito para a mudança social. Assim, as boas iniciativas do governo, abortadas pela reação conservadora, não morreriam sem frutos, mas desembocariam em uma sociedade civil preparada para continuar a luta que o governo começou, mas não teve correlação de forças suficiente para levar adiante. Exemplo: caso Satiagraha e afastamento do delegado Protógenes Queiroz. Por que o governo (ou o PT), ao invés de contar lorotas ressoadas pela Globo, como a de que o delegado saiu do caso por livre e espontânea vontade para tomar um curso, não procurou politizar a questão, jogando os bastidores do jogo político para a frente do palco (espaço público)? Uma lorota de tal monta apenas faz os cidadãos, que sabem que a verdade dista muito da estória contada, se afastarem da política. Ao invés do governo (supostamente de esquerda ou centro-esquerda) e do PT construírem pontes entre a política institucional e o povo, eles simplesmente destróem os resquícios de pontes. Claro que a sociedade civil crítica reconhece os avanços trazidos pelo Governo Lula. Mas sabe que trata-se “deles” e não de “nós”. É a outra esquerda, a institucional, e não a nossa esquerda, pulsante e vívida, da rua. Trata-se da esquerda estatística, que responde tudo com números, e não da esquerda que sente o sofrimento humano.

Cabe perguntar: se, ao chegar ao poder, não se trata mais do histórico militante X, mas, sim, do ministro X (numérico e protocolar), de que adianta chegar ao poder, então? Se não para construir pontes entre Estado e sociedade, democratizando e politizando o primeiro, mostrando suas fissuras, para que dirigir o Estado?

Carl Schmitt dizia que a política é a arte da disputa entre amigos e inimigos para determinar vencedores e perdedores. Assim, a esquerda tem que ter consciência de que há um jogo de soma zero, no qual, se alguém ganha, outro deixa de ganhar. Não é possível agradar a todos. Quem vai ganhar com o Governo Lula? Lula, o PT e a esquerda têm que tomar sua decisão: abraçar a idéia de natureza política (defesa do status quo estrutural da política) ou a idéia de cultura política (possibilidade de construção coletiva da mudança)? Não se trata de defender rupturas institucionais, mas mudanças na concepção do que é a política e qual o papel histórico da esquerda à frente do Estado – a meu ver, construir pontes e não afastar-se rumo aos braços e abraços da nossa conhecida elite.

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6 Respostas to “Entre a natureza política e a cultura política”

  1. Daniel Says:

    “Cabe perguntar: se, ao chegar ao poder, não se trata mais do histórico militante X, mas, sim, do ministro X (numérico e protocolar), de que adianta chegar ao poder, então?” Simples! Para roubar, achincalhar o Estado Brasileiro, transformando o público cada vez mais privado de uma minoria. A questão toda não é ideológica, mas sim, sistêmica! Enquanto não houver uma profunda mudança não só nesse atual modelo política que é viciado e acarcomido, mas principalmente, uma mudança na Sociedade com um todo; sem questões ideológicas, mas sim, substânciais, a coisa continuará como está. Pode ser PT, PSDB, PC do B, PSS, Democratas, enfim… Não é só a mudança ideológica que determina os rumos de uma país, mas principalemente, a mudança CULTURAL. Gostei muito do seu blog, tanto, que já te add no meu. Um abraço e boa semana.

  2. framos Says:

    Caro Daniel,

    Fico feliz que tenha gostado do blog. Volte sempre.

    Seu comentário foi extremamente feliz e, considero, complementar ao que eu disse.

    Apenas acrescento que a mudança cultural tão necessária só poderá resultar de ação, a qual pode e deve se dar em vários âmbitos, um dos quais, a constituição de lideranças políticas individuais e/ou coletivas (grupos, entidades, partidos, etc.). Obviamente, é preciso, simultaneamente, haver outros processos de mudança de mentalidade na sociedade.

  3. Dimitri Says:

    Eu acredito que o processo de mudança tem que começar por si próprio. Eu acho a política a forma mais complexa de cultura, e o que acontece na política, não surge do nada, do acaso. Eu acho, por exemplo, que é reflexo da forma como nós vivemos a nossa vida cotidiana. E o que vai mudar, de fato? Sim, penso que é a ação, inclusive coletiva, mas pessoal primeiro. Eu sou pluralista na política. Uma das minhas grandes preocupações é: “como na polis conciliar os diferentes?” Eu fiquei muito tocado quando você falou da preocupação com o sofrimento humano, porque é algo com o qual eu me preocupo também, inclusive com o sofrimento psíquico, que é o mais crescente e o que menos se fala. E aí? Mas como nós podemos falar em preocupação social com o sofrimento, se na vida cotidiana somos indiferentes com o sofrimento daqueles que encontramos? Ou seja, como a política é a forma mais complexa de cultura, o “te vira” neoliberal é reflexo também da macro-visão que temos do cosmos. Uma visão mais solidária, mais humana pessoal, em primeiro lugar, necessariamente levará a uma política mais responsável, eu diria. Eu penso que a forma mais eficaz de mudar a sociedade a despeito de questões sistêmicas ou ideológicas é espalhar essa mentalidade.

  4. Renam Says:

    Olá!

    Felippe, gostei muito do seu blog. As provocações são extremamente atuais para aqueles que querem ajudar na construção de uma outra (des)ordem social, mais justa e solidária.

    Entretanto, fiquei com uma dúvida: qual o problema com rupturas institucionais quando existem condições coletivas, materiais e simbólicas para acelerar a construção das novas condições de sociabilidade?

    Adicionei o feed para acompanhar o que você escreve.

    Um abraço,

    Renam

  5. Resposta ao leitor e adendos acerca da Contestação hoje « Tempos Pós-Modernos Says:

    […] Resposta ao leitor e adendos acerca da Contestação hoje Estou de volta depois de quase um mês de férias do blog. É que tenho andado muito ocupado com a vida offline. E agradeço ao Renam por ter me despertado de minha letargia blogueira ao comentar (aqui): […]

  6. Rafael Says:

    passa o resumo aaê :p

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