Pinheiros e Política

Para aqueles leitores deste blog que não são de Salvador, cabe uma nota: Walter Pinheiro é o candidato do PT à prefeitura, tendo como vice a ex-prefeita Lídice da Mata, numa coligação na qual constam PT-PSB-PCdoB-PV. No início da corrida eleitoral, Pinheiro saiu atrás de três outros candidatos: ACM Neto (dispensa apresentações), Antônio Imbassahy (atualmente no PSDB, mas criado no colo de ACM, quando foi eleito prefeito) e João Henrique (PMDB, buscando a reeleição e péssimo gestor público). Pinheiro é menos conhecido do que sua vice, o que demonstra a força do PT (que atualmente governa o estado, com Jaques Wagner) para encabeçar chapas. Lídice na vice demonstra uma tentativa de agregar força à candidatura de esquerda, emprestando-lhe nome e votos. Mas toda essa análise de conjuntura me servirá para um objetivo mais ousado de traçar algumas considerações acerca da política hoje. Parto da questão: como Pinheiro poderá reverter situação tão desfavorável, uma vez que os três candidatos à sua frente saem como favoritos?

Aqui começo uma expansão de escopo, uma vez que meu argumento pretende ser útil para a política da esquerda no Brasil e não apenas em Salvador. Qual o público que vota no PT (ouçam bem: PT e não apenas Lula)? É um público eleitoral da classe média bem alfabetizada com viés crítico, oriunda, não raro, do funcionalismo público e das universidades. Digamos, um público mais CartaCapital e menos Veja. Este público mais esquerdista (que, segundo o filósofo italiano Norberto Bobbio, defende a prioridade da igualdade frente à prioridade da liberdade defendida pelos liberais de direita) sempre esteve automaticamente vinculado à histórica coligação PT-PCdoB desde a redemocratização. Contudo, a dificuldade de articulação entre movimento social (ideais, identidade, bandeiras, demandas) e governo (instituição, burocracia, poder, governabilidade, concessão, aliança), em um contexto de hegemonia do neoliberalismo (privatização, redução da função social do Estado, predomínio do discurso técnico sobre o político [governo virou gestão]), desembocou numa desilusão com a política de contestação baseada nas instituições (partidos, sindicatos, entidades estudantis, Estado). Assim, o alinhamento automático com o PT-PCdoB declinou. Por alguns instantes, alguns intelectuais, e mesmo cidadãos comuns, cogitaram a ascensão de um novo sentido da política que estaria além da institucionalidade dos partidos e parlamentos. Contudo, este novo sentido se dá pari passu ao velho sentido. As mudanças nas mentalidades acontecem em um ambiente institucional já bem petrificado e consolidado, o que implica que somos obrigados a conviver com a ordem em declínio enquanto a nova vai surgindo paulatinamente. E esta nova ordem não implica em desaparecimento da antiga, mas em sua contínua adaptação. Assim, por exemplo, após uma década de neoliberalismo inconteste (no Brasil, de Collor à FHC) e desilusão dos esquerdistas no contexto pós-Muro de Berlim, a ascensão das esquerdas na América do Sul (Chávez, Lula, Morales, Lugo, Correa, etc) engendrou um novo período de centralidade do Estado, o que deu vazão a se falar em pós-Consenso de Washington. É ao Estado que se dirigem temas como Unasul, pesquisa com células-tronco, conquista de direitos, etc, ainda que as discussões emanem da sociedade civil. Assim, o desafio posto é a emergência de uma nova articulação entre movimento social e Estado, uma vez passada a euforia utópica de que se poderia mudar tudo repentinamente através de atos de vontade. À sociedade civil crítica não cabe abrir mão de sua radicalidade, mas, sim, canalizá-la para uma fiscalização autônoma dos atos emanados dos governos de esquerda enquanto mantém seus discursos no âmbito da disputa ideológica por convecimento da maioria. Assim, por exemplo, o movimento estudantil pode reivindicar o passe livre, mas simultaneamente reconhecer os avanços de uma política de transporte urbano que garanta uma tarifa justa e acessível à população. Nesse sentido, é preciso reconhecer, como sugere o historiador Fernando Braudel, que a história é composta por três tempos: o curto – do acontecimento, o médio – da conjuntura, e o longo – da estrutura. Os movimentos sociais podem, então, manter suas identidades e bandeiras intactas, ao mesmo tempo em que dialogam com a realidade presente na qual o neoliberalismo dá sinais de esgotamento, abrindo espaço para novas experiências institucionais, ainda que muito aquém do que se tem como ideal.

E o que isso tudo tem a ver com Pinheiro? Muita coisa. Primeiro, porque estas mudanças citadas engendram um novo tipo de engajamento, que é múltiplo: o sujeito crítico pode defender a causa ambientalista, a feminista, a identidade étnica, o software livre, etc, e, simultaneamente, manter-se afastado da política institucional, a qual critica, o que gera déficit nos quadros da esquerda tradicional e, assim, uma virada da esquerda ao pragmatismo da gestão ao invés da ênfase no programa estratégico. Segundo, porque o novo contexto implica em eleitores mais flexíveis e menos alinhados automaticamente. Um sujeito crítico pode votar em Lula (PT) em uma eleição, em Heloísa Helena (PSOL) em outra, e em Cristóvam Buarque (PDT) numa outra. Disso decorrem duas implicações: 1) é preciso recriar a ponte entre sujeitos críticos e política institucional, combatendo o abandono da última aos políticos de direita, aos meramente fisiologistas ou à esquerda sem programa e 2) é preciso convencer constantemente o eleitor crítico. Essas implicações, aparentemente negativas, são, na verdade, grandes oportunidades de aprofundamento da democracia, uma vez que o alinhamento prévio é substituído pela necessidade constante de convencimento e debate (uma chance para o agir comunicativo, pensado pelo filósofo alemão Jürgen Habermas, mas limitado às esferas de influência da esquerda). O desafio de Pinheiro (tomem Pinheiro como cada candidatura de esquerda no Brasil) é, então, convencer o eleitor crítico ouvindo-os, mais do que lhes falando, e, assim, garantindo o espaço público necessário para a reconstrução da ponte entre intelectuais/povo e a política. Daí a importância da ampla participação já na formulação do programa de governo, o que indicaria inclinação (e, quem sabe, comprometimento) à aplicação de políticas progressistas, como conselhos descentralizados e setoriais (por bairro, por tema – juventude, mulheres, etc), orçamento participativo, etc. Pinheiro, concluindo, precisa demonstrar vontade de refazer a política institucional, relegitimando-a frente aos setores críticos da sociedade e acordando a esquerda do seu sono programático. Assim, haverá a possibilidade de reconstrução da capacidade coletiva de acreditar e da esquerda de ser auto-confiante – em oposição à política opaca cabalmente demonstrada pela postura do governador Wagner de afirmar que tem três candidatos, numa tentativa de retirar a discussão programática da pauta das eleições municipais. Precisamos menos de jovens tristonhos pagos para segurar bandeiras na sinaleira e mais de debate de idéias. Caso contrário, a história do muro pode, melancolicamente, se repetir.

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7 Respostas to “Pinheiros e Política”

  1. Tiago Says:

    Eu conversava sobre isso com Cláudio André há um tempo, depois de uma aula de documentação.
    Conseguir que indivíduos “críticos”, como você chama, entrem na luta da política institucional é verdadeiramente um desafio. Eu mesmo não tenho estômago, apesar de achar importantíssimo.
    Na divisão dos “trabalhos de militância” me sinto mais a vontade pela disputa da digamos, “superestrutura”.
    Mas não é só porquê eu jamais faria medicina que eu não enxergue a grande importância dos médicos.

  2. Iolanda Says:

    Concordo com o seu discurso a respeito dm modo de agir do candidato do PT, Walter Pinheiro. Na verdade, eu, eleitora do PT não o conhecia. Pensava que o candidato seria Pelligrino, mais simpático e carismático que esse que foi escolhido. Sou uma pessoa simples e ando muito de ônibus e escuto o que as pessoas falam: por exemplo, porque tiraram o número de ônibus dias de sábado e feriados e domingos? Será que nesses dias não há usuários? Pelo contrário, os pontos ficam cheios, principalmente, agora que veio a lei seca e não se pode andar dirigindo seu próprio carro quem tem. E quem não tem? Fico, pessoalmente, 1 a 2 horas esperando um ônibus na Paulo VI, quem vem do Itaigara, pois segundo um motorista eles têm ordens de não rodarem do atual prefeito.

    “O desafio de Pinheiro (tomem Pinheiro como cada candidatura de esquerda no Brasil) é, então, convencer o eleitor crítico ouvindo-os, mais do que lhes falando, e, assim, garantindo o espaço público necessário para a reconstrução da ponte entre intelectuais e política.”

    Digo que o desafio do Pinheiro é conversar e ouvir o povo, criando um plano que interessa ao povo e não à Política.Que ele seja mais simpático e aberto aos problemas das comunidades.

  3. Dimitri Says:

    Felippe,

    Eu acho o seguinte: pra mim, é mais do mesmo! Eu parto da premissa de não esperar a salvação da política (seja ela mais coletiva ou mesmo privada), então eu não consigo mais ler um texto como esse sem esperar uma futura desilusão no futuro, que é o que acontece desde o Iluminismo. Isso me moveria a uma apatia, a um niilismo, mas me nasce a pergunta do que é pode mesmo mudar a sociedade de verdade, sem decepcionar. E eu me dou conta de que a única possibilidade de mudança concreta é a pessoa mudada. De nada adianta mudanças estruturais e programáticas se a pessoa, o sujeito continua o mesmo. Isso a História mais do que atesta. Mas de qualquer forma, eu admiro o seu entusiasmo, embora não concorde com ele, e fico feliz de que o brilho da esperança ainda habita em você.

  4. framos Says:

    Dimitri,

    Houve um pequeno engano na sua compreensão do meu post. Em nenhum momento proponho salvacionismos. Muito pelo contrário, seguindo a idéia de Nietzsche, é só depois de termos negado tudo que podemos voltar a afirmar algo. Assim, fui um dos muitos desiludidos com a política institucional (como não seria, após aquela efusiva esperança lulista em 2003?). Daí em diante, houve o niilismo. Nietzsche nos ajuda porque defende que perante o abismo há duas alternativas: cair resignado em sua escuridão ou dançar alegremente sobre ele. Assim, como defendi, há uma crise profunda da política institucional (em termos de legitimidade e não de efetividade) e da alternativa política de esquerda. Contudo, a institucionalidade, o Estado, a dominação, a exploração, o Capitalismo, etc, continuam existindo quer estejamos desiludidos com ele ou não. Assim, a desilusão niilista nos possibilita ver a podridão inerente a todas as atividades humanas e nos torna mais perspicazes e desconfiados de salvacionismos discursivos, mas de jeito nenhum deve nos paralisar frente a uma realidade que exige ação. Quem não gosta de política é governado por quem gosta, diz Frei Betto. Assim, minha proposta é superar a desilusão (o que não implica acreditar em ideologias totalizadoras iluministas passadas) e encarar a realidade de frente, agindo sobre ela e, ao mesmo tempo, superando-a, seja através da mudança de mentalidade ou das ações em novas esferas da política que transcendem a meramente institucional. Assim, é preciso recuperar a capacidade de agir em contextos adversos, porque a ação, essa, sim, é necessária para transformar a realidade.

    Tudo isso supera em larga escala o mero nome de Pinheiro (que adotei alegoricamente). Trata-se da repolitização da política e do combate à ideologia da política como técnica ou gestão. Política é conflito e interesse. Mas também cooperação entre visões compartilhadas.

    Dialogar com a candidatura de Pinheiro é apenas um pequeno passo dentro de todo este arcabouço teórico e prático traçado. Ainda mais que há a possibilidade real de termos dois carlistas no segundo turno (ACM Neto e Imbassahy). Desiludir-se com a possível gestão de Pinheiro só acontecerá se exigirmos dela o que ela não pode dar.

  5. Dimitri Says:

    Felippe, eu só hoje li seu e-mail. Eu acho o seguinte: que o seu desejo de justiça e mudança é tão grande que, no fundo, você não admite o niilismo, o que eu acho ótimo. Essa história de dançar no vazio é uma coisa muito corajosa, mas ao mesmo tempo muito desesperada, como naquele quadro de Münch, O Grito. eu acho muito interessante continuar a esperar, como diz Chico Buarque, “amanhã será outro dia…” Mas eu desejo mesmo uma esperança que não decepcione, até mesmo na política!

  6. framos Says:

    Caro Dimitri,

    Como bem nos ensina o velho Schopenhauer, enquanto desejo e realidade não coincidirem (e não há perspectivas para tanto), a frustração será a sina humana. Mas o velho Sartre nos ensina a lidar com a angústia gerada dessa situação, ao nos dizer que não importa o que fizeram de nós, mas o que fazemos com o que fizeram de nós.

    Assim, frustrações são bem-vindas, se aprendermos com elas e seguirmos adiante.

    No caso da política, a frustração nos faz ver além dos desejos, enxergando que a esquerda não tem o monopólio do bem, tampouco indivíduos ou partidos singulares poderão reverter situações históricas por atos de vontade. A política é uma mistura de realidade e desejo e o posicionamento em favor de um ou de outro, da esquerda ou da direita, é uma opção de intervir. Como diz o Frei Betto, quem não gosta de política é governado por quem gosta.

  7. Resposta ao leitor e adendos acerca da Contestação hoje « Tempos Pós-Modernos Says:

    […] municipais desse ano. Moro em Salvador e voto em Walter Pinheiro (PT-PSB-PCdoB-PV), mas sempre discutindo as limitações da esquerda institucional. Paralelamente, a esquerda de rua de opção revolucionária […]

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