Roda Viva

O Roda Viva agora disponibiliza entrevistas clássicas na internet em dois formatos: texto e audiovisual. Tem muita coisa boa. Passem por lá.

Destaco um trecho da entrevista com Octavio Ianni, pois é a própria justificativa do esforço deste blog.

“Jorge Caldeira: Eu queria colocar essa questão, mas de um outro ângulo. O senhor, depois de se formar com a sua geração, tendo como base idéias de que o trabalho inventório iria ser feito em torno de conceitos rigorosos, claros, partiu agora para o ensaio. Para o ensaio amplo que era, vamos dizer assim, o objeto contra o qual a sua geração, nos anos 50, se opunha. A geração do senhor se firmou contra os ensaístas, que eram impressionistas ou que eram menos precisos. Essa mudança se deve, essa volta ao ensaio, vamos dizer assim, se deve ao fato de que a globalização só pode ser entendida se a gente esquecer os conceitos tradicionais? Ou seja, esse ponto que o senhor está apontando dessa mudança, ela vai até as bases da própria vida intelectual também?

Octavio Ianni: Veja bem, no caso do Brasil, no caso da América Latina, em geral, a institucionalização da sociologia, da economia, da política como disciplinas científicas é um processo muito tardio e que se realiza, principalmente, nos anos 30, 40, 50. Talvez, em alguns países, um pouco antes. E essa institucionalização, naturalmente, veio acompanhada de um empenho, de um compromisso dos seus autores, com um certo rigor conceitual, de metodologia, de capacidade de pesquisa, de distinção entre pesquisa de reconstrução histórica e pesquisa de campo. Então, isso significou para muitos alheios um certo hermetismo, um certo “academicismo”. Mas, na verdade, era o preço que se devia pagar para constituir essas disciplinas como disciplinas científicas num ambiente brasileiro e latino-americano. Agora, a despeito desse compromisso, o diálogo desses autores, e eu posso mencionar nominalmente, seja Celso Furtado, seja Florestan Fernandes, seja Antônio Cândido, seja no caso da universidade brasileira, de intelectuais que tiveram sempre um diálogo com quem? Com Rui Barbosa, com Euclides da Cunha, com Lima Barreto, com Joaquim Nabuco, com os ensaístas. De modo que não é verdade que a academia satanizou ou esqueceu os ensaístas. Ao contrário, há trabalhos que dão continuidade às reflexões deles. Agora, o que acontece no mundo contemporâneo é que começa a haver novos espaços de diálogos e pouco a pouco diferentes intelectuais em diferentes campos começam a beneficiar-se do cinema, do romance, da poesia, para desenvolver um trabalho que é, basicamente, científico, mas que pode ser enriquecido, senão enquanto forma de esclarecimento, ao menos como forma de embelezamento da narrativa.

Jorge Caldeira: Como é que foi para o senhor essa possibilidade nova de poder escrever bonito, poder escrever usando a literatura, usando o cinema, usando teoria da linguagem, antropologia, usando extensão de tempo muito grande, porque esse ensaio trata de cinco séculos. O senhor sente-se bem assim. O senhor gostou da experiência de poder ampliar?

Octavio Ianni: Eu acho uma maravilha. A possibilidade de combinar o rigor do conceito com a beleza da metáfora é uma glória. Aliás, se nós formos aos grandes cientistas, por exemplo, Adam Smith, de repente, nós encontramos uma metáfora fascinante: a mão invisível. Ou então, se vamos a Max Weber, de repente, encontramos a metáfora fantástica: o desencantamento do mundo. Então, nós descobrimos, e acho que devemos aproveitar isso, que o rigor do pensamento científico, inclusive o rigor da formulação do conceito da interpretação, não impede, ao contrário, beneficia-se da habilidade com a qual o autor pode elaborar ou recuperar metáforas, figuras, que não só embeleze uma frase, mas que, eventualmente, colaboram para aprimorar, refinar a clarificação.”

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