Archive for julho \31\UTC 2008

Pinheiros e Política

julho 31, 2008

Para aqueles leitores deste blog que não são de Salvador, cabe uma nota: Walter Pinheiro é o candidato do PT à prefeitura, tendo como vice a ex-prefeita Lídice da Mata, numa coligação na qual constam PT-PSB-PCdoB-PV. No início da corrida eleitoral, Pinheiro saiu atrás de três outros candidatos: ACM Neto (dispensa apresentações), Antônio Imbassahy (atualmente no PSDB, mas criado no colo de ACM, quando foi eleito prefeito) e João Henrique (PMDB, buscando a reeleição e péssimo gestor público). Pinheiro é menos conhecido do que sua vice, o que demonstra a força do PT (que atualmente governa o estado, com Jaques Wagner) para encabeçar chapas. Lídice na vice demonstra uma tentativa de agregar força à candidatura de esquerda, emprestando-lhe nome e votos. Mas toda essa análise de conjuntura me servirá para um objetivo mais ousado de traçar algumas considerações acerca da política hoje. Parto da questão: como Pinheiro poderá reverter situação tão desfavorável, uma vez que os três candidatos à sua frente saem como favoritos?

Aqui começo uma expansão de escopo, uma vez que meu argumento pretende ser útil para a política da esquerda no Brasil e não apenas em Salvador. Qual o público que vota no PT (ouçam bem: PT e não apenas Lula)? É um público eleitoral da classe média bem alfabetizada com viés crítico, oriunda, não raro, do funcionalismo público e das universidades. Digamos, um público mais CartaCapital e menos Veja. Este público mais esquerdista (que, segundo o filósofo italiano Norberto Bobbio, defende a prioridade da igualdade frente à prioridade da liberdade defendida pelos liberais de direita) sempre esteve automaticamente vinculado à histórica coligação PT-PCdoB desde a redemocratização. Contudo, a dificuldade de articulação entre movimento social (ideais, identidade, bandeiras, demandas) e governo (instituição, burocracia, poder, governabilidade, concessão, aliança), em um contexto de hegemonia do neoliberalismo (privatização, redução da função social do Estado, predomínio do discurso técnico sobre o político [governo virou gestão]), desembocou numa desilusão com a política de contestação baseada nas instituições (partidos, sindicatos, entidades estudantis, Estado). Assim, o alinhamento automático com o PT-PCdoB declinou. Por alguns instantes, alguns intelectuais, e mesmo cidadãos comuns, cogitaram a ascensão de um novo sentido da política que estaria além da institucionalidade dos partidos e parlamentos. Contudo, este novo sentido se dá pari passu ao velho sentido. As mudanças nas mentalidades acontecem em um ambiente institucional já bem petrificado e consolidado, o que implica que somos obrigados a conviver com a ordem em declínio enquanto a nova vai surgindo paulatinamente. E esta nova ordem não implica em desaparecimento da antiga, mas em sua contínua adaptação. Assim, por exemplo, após uma década de neoliberalismo inconteste (no Brasil, de Collor à FHC) e desilusão dos esquerdistas no contexto pós-Muro de Berlim, a ascensão das esquerdas na América do Sul (Chávez, Lula, Morales, Lugo, Correa, etc) engendrou um novo período de centralidade do Estado, o que deu vazão a se falar em pós-Consenso de Washington. É ao Estado que se dirigem temas como Unasul, pesquisa com células-tronco, conquista de direitos, etc, ainda que as discussões emanem da sociedade civil. Assim, o desafio posto é a emergência de uma nova articulação entre movimento social e Estado, uma vez passada a euforia utópica de que se poderia mudar tudo repentinamente através de atos de vontade. À sociedade civil crítica não cabe abrir mão de sua radicalidade, mas, sim, canalizá-la para uma fiscalização autônoma dos atos emanados dos governos de esquerda enquanto mantém seus discursos no âmbito da disputa ideológica por convecimento da maioria. Assim, por exemplo, o movimento estudantil pode reivindicar o passe livre, mas simultaneamente reconhecer os avanços de uma política de transporte urbano que garanta uma tarifa justa e acessível à população. Nesse sentido, é preciso reconhecer, como sugere o historiador Fernando Braudel, que a história é composta por três tempos: o curto – do acontecimento, o médio – da conjuntura, e o longo – da estrutura. Os movimentos sociais podem, então, manter suas identidades e bandeiras intactas, ao mesmo tempo em que dialogam com a realidade presente na qual o neoliberalismo dá sinais de esgotamento, abrindo espaço para novas experiências institucionais, ainda que muito aquém do que se tem como ideal.

E o que isso tudo tem a ver com Pinheiro? Muita coisa. Primeiro, porque estas mudanças citadas engendram um novo tipo de engajamento, que é múltiplo: o sujeito crítico pode defender a causa ambientalista, a feminista, a identidade étnica, o software livre, etc, e, simultaneamente, manter-se afastado da política institucional, a qual critica, o que gera déficit nos quadros da esquerda tradicional e, assim, uma virada da esquerda ao pragmatismo da gestão ao invés da ênfase no programa estratégico. Segundo, porque o novo contexto implica em eleitores mais flexíveis e menos alinhados automaticamente. Um sujeito crítico pode votar em Lula (PT) em uma eleição, em Heloísa Helena (PSOL) em outra, e em Cristóvam Buarque (PDT) numa outra. Disso decorrem duas implicações: 1) é preciso recriar a ponte entre sujeitos críticos e política institucional, combatendo o abandono da última aos políticos de direita, aos meramente fisiologistas ou à esquerda sem programa e 2) é preciso convencer constantemente o eleitor crítico. Essas implicações, aparentemente negativas, são, na verdade, grandes oportunidades de aprofundamento da democracia, uma vez que o alinhamento prévio é substituído pela necessidade constante de convencimento e debate (uma chance para o agir comunicativo, pensado pelo filósofo alemão Jürgen Habermas, mas limitado às esferas de influência da esquerda). O desafio de Pinheiro (tomem Pinheiro como cada candidatura de esquerda no Brasil) é, então, convencer o eleitor crítico ouvindo-os, mais do que lhes falando, e, assim, garantindo o espaço público necessário para a reconstrução da ponte entre intelectuais/povo e a política. Daí a importância da ampla participação já na formulação do programa de governo, o que indicaria inclinação (e, quem sabe, comprometimento) à aplicação de políticas progressistas, como conselhos descentralizados e setoriais (por bairro, por tema – juventude, mulheres, etc), orçamento participativo, etc. Pinheiro, concluindo, precisa demonstrar vontade de refazer a política institucional, relegitimando-a frente aos setores críticos da sociedade e acordando a esquerda do seu sono programático. Assim, haverá a possibilidade de reconstrução da capacidade coletiva de acreditar e da esquerda de ser auto-confiante – em oposição à política opaca cabalmente demonstrada pela postura do governador Wagner de afirmar que tem três candidatos, numa tentativa de retirar a discussão programática da pauta das eleições municipais. Precisamos menos de jovens tristonhos pagos para segurar bandeiras na sinaleira e mais de debate de idéias. Caso contrário, a história do muro pode, melancolicamente, se repetir.

O NOSSO LIVRO

julho 27, 2008

Já que tenho falado de livros por aqui…

Florbela Espanca

Livro do meu amor, do teu amor,
Livro do nosso amor, do nosso peito…
Abre-lhe as folhas devagar, com jeito,
Como se fossem pétalas de flor.

Olha que eu outro já não sei compor
Mais santamente triste, mais perfeito.
Não esfolhes os lírios com que é feito
Que outros não tenho em meu jardim de dor!

Livro de mais ninguém! Só meu! Só teu!
Num sorriso tu dizes e digo eu:
Versos só nossos mas que lindos sois!

Ah! meu Amor! Mas quanta, quanta gente
Dirá, fechando o livro docemente:
“Versos só nossos, só de nós dois!…”

O sumiço dos Nardoni

julho 24, 2008

Alguém pode me dizer o que aconteceu com os Nardoni? Como aquele estardalhaço todo terminou de uma hora para outra?

Já respondi em outra ocasião.

Na companhia de livros

julho 23, 2008

Livros. Boas companhias. Devido a eles tenho estado um pouco ausente do blog.

E aqui inicio uma nova categoria: fotos by Felippe Ramos.

Angela Davis na Bahia

julho 21, 2008

Clique na imagem para ampliá-la.

FORA GILMAR MENDES JÁ!

julho 14, 2008

Não gosto muito dos jargões dos movimentos sociais de ultra-esquerda: tudo é “fora” e “já”. Mas o fato é que fiquei tão indignado pela prostituição aberta do Supremo Tribunal Federal que resolvi aderir, momentaneamente, ao discurso. Assim, proponho a vocês, caros leitores, que cliquem aqui e assinem a petição on-line (ao menos isso, né? nem precisa sair da cadeira).

Ler pontos interessantes sobre o caso aqui e aqui.

Declarado ex-ministro pelo povo!

Resgate heróico ou negociado?

julho 4, 2008

Desde o início me soou um pouco estranho esse papo de que um punhado de soldados colombianos se passaram por agentes humanitários, pousou no ninho das FARC e levou seus principais reféns, dentre eles a franco-colombiana Ingrid Betancourt. Até que uma rádio suíça levantou a hipótese (fundamentada) de que o resgate, na verdade, foi pago pelo governo colombiano (alguns milhões de dólares). As especulações vão desde a mediação dos governos da Espanha e da França, às ações de inteligência da CIA e até mesmo as ações de Hugo Chávez. Bem, as dúvidas são muitas, mas o papel da mídia é bem claro: divulgar a versão oficial do heroísmo colombiano.

Roda Viva

julho 2, 2008

O Roda Viva agora disponibiliza entrevistas clássicas na internet em dois formatos: texto e audiovisual. Tem muita coisa boa. Passem por lá.

Destaco um trecho da entrevista com Octavio Ianni, pois é a própria justificativa do esforço deste blog.

“Jorge Caldeira: Eu queria colocar essa questão, mas de um outro ângulo. O senhor, depois de se formar com a sua geração, tendo como base idéias de que o trabalho inventório iria ser feito em torno de conceitos rigorosos, claros, partiu agora para o ensaio. Para o ensaio amplo que era, vamos dizer assim, o objeto contra o qual a sua geração, nos anos 50, se opunha. A geração do senhor se firmou contra os ensaístas, que eram impressionistas ou que eram menos precisos. Essa mudança se deve, essa volta ao ensaio, vamos dizer assim, se deve ao fato de que a globalização só pode ser entendida se a gente esquecer os conceitos tradicionais? Ou seja, esse ponto que o senhor está apontando dessa mudança, ela vai até as bases da própria vida intelectual também?

Octavio Ianni: Veja bem, no caso do Brasil, no caso da América Latina, em geral, a institucionalização da sociologia, da economia, da política como disciplinas científicas é um processo muito tardio e que se realiza, principalmente, nos anos 30, 40, 50. Talvez, em alguns países, um pouco antes. E essa institucionalização, naturalmente, veio acompanhada de um empenho, de um compromisso dos seus autores, com um certo rigor conceitual, de metodologia, de capacidade de pesquisa, de distinção entre pesquisa de reconstrução histórica e pesquisa de campo. Então, isso significou para muitos alheios um certo hermetismo, um certo “academicismo”. Mas, na verdade, era o preço que se devia pagar para constituir essas disciplinas como disciplinas científicas num ambiente brasileiro e latino-americano. Agora, a despeito desse compromisso, o diálogo desses autores, e eu posso mencionar nominalmente, seja Celso Furtado, seja Florestan Fernandes, seja Antônio Cândido, seja no caso da universidade brasileira, de intelectuais que tiveram sempre um diálogo com quem? Com Rui Barbosa, com Euclides da Cunha, com Lima Barreto, com Joaquim Nabuco, com os ensaístas. De modo que não é verdade que a academia satanizou ou esqueceu os ensaístas. Ao contrário, há trabalhos que dão continuidade às reflexões deles. Agora, o que acontece no mundo contemporâneo é que começa a haver novos espaços de diálogos e pouco a pouco diferentes intelectuais em diferentes campos começam a beneficiar-se do cinema, do romance, da poesia, para desenvolver um trabalho que é, basicamente, científico, mas que pode ser enriquecido, senão enquanto forma de esclarecimento, ao menos como forma de embelezamento da narrativa.

Jorge Caldeira: Como é que foi para o senhor essa possibilidade nova de poder escrever bonito, poder escrever usando a literatura, usando o cinema, usando teoria da linguagem, antropologia, usando extensão de tempo muito grande, porque esse ensaio trata de cinco séculos. O senhor sente-se bem assim. O senhor gostou da experiência de poder ampliar?

Octavio Ianni: Eu acho uma maravilha. A possibilidade de combinar o rigor do conceito com a beleza da metáfora é uma glória. Aliás, se nós formos aos grandes cientistas, por exemplo, Adam Smith, de repente, nós encontramos uma metáfora fascinante: a mão invisível. Ou então, se vamos a Max Weber, de repente, encontramos a metáfora fantástica: o desencantamento do mundo. Então, nós descobrimos, e acho que devemos aproveitar isso, que o rigor do pensamento científico, inclusive o rigor da formulação do conceito da interpretação, não impede, ao contrário, beneficia-se da habilidade com a qual o autor pode elaborar ou recuperar metáforas, figuras, que não só embeleze uma frase, mas que, eventualmente, colaboram para aprimorar, refinar a clarificação.”