Resposta ao leitor

Recebi um e-mail de um leitor deste blog conforme segue abaixo:

“Caro Felippe,

Na condição de leitor do seu blog, trago-lhe a seguinte provocação: ao longo dos ultimos anos, a “grande midia” empenhou-se em popularizar expressões relacionadas a escândalos na política nacional. Deste modo temos: mensaleiros e mensalão, valerioduto, apagão aéreo, dilmagate, etc. Os casos trazem em comum a participação de pelo menos um, se não vários, governistas. Não achas estranho que essa mesma mídia ainda não tenha criado expressões para designar os escândalos que ora corroem o governo de Yeda Crusius ou as irregularidades ora descobertas na gestão Mario Covas/Geraldo Alckmin no caso Alstom? Seria a imprensa também membro da oposicão?

Cordialmente,
Dário Júnior”

E respondo, prezado Dário, que a partidarização (em sentido amplo) da mídia é clara e não teria como ser de outra forma. A mídia nunca é confiável, a não ser para aqueles que nela confiam. Explico. O bias da mídia é seu pressuposto. Os órgãos de imprensa constroem sua credibilidade com discursos aceitáveis para seu público-alvo e, simultaneamente, tentam fazer prevalecer suas próprias idéias e interesses (ideológicos, mas, sobretudo, econômicos). Assim, por exemplo, eu tendo a dar mais crédito à CartaCapital do que à Veja. Os meios de comunicação de massa, em uma sociedade conservadora (política, social, cultural e moralmente), tendem a veicular o que o seu público espera ver. Finalidade óbvia: manter a fidelidade do telespectador e, assim, os níveis de audiência e os recursos provenientes dos anúncios publicitários. Assim, o grande e primeiro partido da mídia é o lucro. Contudo, a realização deste objetivo (o lucro desmedido) implica a constituição de um campo político composto por diversas forças sociais, no qual a mídia conta com diversos aliados (os setores mais conservadores da sociedade). Contudo, essa aliança conservadora da burguesia não é baseada no consenso e às vezes observamos conflitos intra-elite.

Acontece que a mídia só manterá a eficácia do seu objetivo se sustentar seu discurso legitimador básico: o da imparcialidade. Esse véu discursivo e ideológico é o que faz o consumidor da informação pensar que consome fatos, ao invés de interpretações. Daí que os indivíduos da massa social pensem que não possuem posicionamento político, quando, na verdade, ocupam espaço bem próximo às elites no que concerne aos seus valores (em outras palavras, a hegemonia).

É aí que entra a estratégia atual da grande mídia nacional: a produção do espetáculo político das crises que aparecem e evaporam sem deixar vestígios. Os dossiês ou mensalões são explorados ao máximo enquanto há audiência para eles. Uns chamam mais atenção do que outros, como o dito mensalão, que chegou a desestabilizar o governo. Mas, no fim, em tempos de aceleração do consumo, descartabilidade e obsolescência programada, a audiência cansa. Aí a mídia simplesmente deixa de abordar a questão. Aos casos políticos citados, sempre se pode argumentar que houve “pizza”. Mas e no caso do apagão aéreo? Como o caos, a catástrofe e a hecatombe anunciadas se resolveram como passe de mágica, frente à inépcia proclamada do governo? Resposta simples: não havia crise, mas apenas espetáculo. E como canta a banda Los Hermanos, “todo carnaval tem seu fim”.

Nesse sentido, a grande mídia não fará o mesmo escarcéu perante seus aliados. Pode até noticiar os acontecimentos para alimentar o discurso da imparcialidade, mas jamais os explorará politicamente, a não ser que seja um dos casos de conflito intra-elite. De qualquer forma, se será difícil ver nos tempos atuais uma edição grotesca dos fatos, como no exemplo do episódio Lula-Collor, a razão é apenas porque os métodos estão mais sofisticados.

É assim que se dá o papel da grande mídia dentro de um contexto capitalista. A solução não é a censura. Mas há alternativas: por um lado, o incremento da consciência crítica e o combate à ingenuidade que faz da população presa fácil do discurso da imparcialidade (tarefa dos movimentos sociais e dos intelectuais progressistas no âmbito da sociedade civil) e, por outro lado, a quebra de monópolios de audiência, o incentivo à TVs públicas e universitárias em canais abertos e maior inclusão digital (tarefas do Estado, pressionado pelos setores progressistas).

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2 Respostas to “Resposta ao leitor”

  1. Dario Says:

    Obrigado, Felipe. Ficarei na torcida para que a famigerada “TV digital” emplaque de uma vez e possa proporcionar uma maior democratizacao nas comunicacoes. Se nao der certo, como alguns criticos do modelo japones acreditam, ainda nos resta a internet que, por enquanto, ainda e um espaco de livre circulacao de ideias.

  2. O sumiço dos Nardoni « Tempos Pós-Modernos Says:

    […] Já respondi em outra ocasião. […]

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