Quase dois irmãos

Quase dois irmãos é um fantástico filme que eu assisti sem muito compromisso em um fim de semana. Trata-se de um filme nacional de 2004 que, pelo menos para mim, passou despercebido em seu lançamento. Não me lembro de ter ouvido um único comentário sequer sobre ele.
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Eis a sinopse do seu site oficial:
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Nos anos 70, quando o país vivia sob a ditadura militar, muitos presos políticos foram levados para a Penitenciária da Ilha Grande, na costa do Rio de Janeiro. Da mesma forma como os políticos, assaltantes de bancos também estavam submetidos à Lei de Segurança Nacional. Ambos cumpriam pena na mesma galeria. O encontro entre esses dois mundos é parte importante da história da violência que o País enfrenta hoje. “Quase Dois Irmãos” mostra como essa relação se desenvolveu e o conflito estabelecido entre eles. Entre o conflito e o aprendizado, nasceu o Comando Vermelho, que mais tarde passou a dominar o tráfico de drogas.
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Através de dois personagens, Miguel, um jovem intelectual de classe média, preso político na Ilha Grand, e hoje deputado federal e Jorge, filho de um sambista que de pequenos assaltos se transformou num dos líderes do Comando Vermelho, o filme tem como pano de fundo a história política do Brasil nos últimos 50 anos, contada também através da música popular, o ponto de ligação entre esses dois mundos. Hoje, começa um novo ciclo: Miguel tem uma filha adolescente, que fascinada pelas favelas e pela transgressão, se envolve com um jovem traficante. [fim de sinopse]
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O ponto do filme que trago para discussão é a atribulada relação entre a classe média engajada (então chamada de pequena burguesia) e a classe popular, o povão, a massa. Adeptos políticos do socialismo revolucionário, um grupo de jovens militantes presos são postos em contato com presos comuns e tentam pôr em prática a teoria marxista da superação da consciência em-si para uma mais elevada, a para-si, ou seja, da alienação para uma consciência da condição de exploração pela burguesia. Assim, na visão desta elite revolucionária (uso propositalmente elite ao invés de vanguarda), era preciso educar a massa, mesmo a delinqüente. Quando os primeiros presos comuns chegam à prisão política, os revolucionários marxistas eram majoritários. Foram abordados pelos comuns: “quem é o xerife dessa porra?”. Ao que responderam: “aqui não tem isso, não; só não pode pederastia e dar um dois (fumar maconha)”. Evidentemente, as regras moralizantes da esquerda ortodoxa eram burladas frequentemente. Com o passar do tempo, a política nacional foi se abrandando e a situação social oriunda da ditadura se agravando, o que reduziu o número de prisões políticas e ampliou o número de prisões comuns (de negros da periferia). O resultado é que a periferia é que passou a mandar no presídio. A cadeia passou a ser igual a qualquer outra, com baseado, homossexualidade, grupos inimigos, privilégios, “xerifes”, violência e linchamentos. Nesse contexto, trava-se a discussão – seria melhor dizer assembléia, conforme o vocabulário da esquerda da época – entre os que são favoráveis à separação entre presos comuns e políticos e os que se mantém firmes na idéia de “educar a massa”. O argumento racional dos defensores da separação é que eles são minoria dentro da prisão e precisam sobreviver para o bem da revolução, uma vez que há poucos revolucionários devido à repressão. Os realistas vencem o debate sobre os idealistas. No entanto, e esta é a grande sacada do filme, a verdadeira razão da separação dos presos em duas alas, a dos comuns, para negros da periferia, e a dos políticos, de classe média, é a própria incompatibilidade entre as duas formas de ser e estar no mundo. O discurso da educação das massas pode ser atraente, mas em condições extremas, como a de um presídio com todas as suas crueldades e adversidades, ele se mostra artificial. Assim, a construção do muro de concreto separando os dois pavilhões é, na verdade, uma metáfora para o muro social que já separava os dois estratos sociais. E a película encerra-se com uma frase de efeito: “um é o mundo que sonhamos, outro é o que vivemos”.

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