O velho conflito Norte-Sul reloaded: a UNASUL e a IV Frota

A criação da União Sul-Americana de Nações (UNASUL), com status de organização internacional e personalidade jurídica de Direito Internacional Público, foi anunciada em Brasília no último dia 23. Isso significa que deverá ser mais do que meros encontros esporádicos de chefes de Estado. Trata-se de uma tentativa de revigorar a Comunidade Sul-Americana de Nações – incapaz de resolver os conflitos da região, como os recentes desentendimentos entre Venezuela e Equador, por um lado, e Colômbia, por outro – através de uma organização permanente que consiga ampliar diálogos, intercâmbios e políticas multilaterais em diversas áreas. A idéia é de, para além da integração regional, tentar resolver os conflitos sem ter necessariamente de recorrer à Organização dos Estados Americanos (OEA), hegemonizada pelos Estados Unidos.

A potência do norte, obviamente, não gostou da idéia e tratou de concertar a estratégia de criação de dificuldades à iniciativa através de seu incondicional aliado colombiano, o presidente Álvaro Uribe. Este não pôde rejeitar pura e simplesmente a participação colombiana na organização, pois tal movimento aumentaria seu isolamento regional, na contramão da tendência mundial de fortalecimento das iniciativas de integração. O argumento para a reclamação de Uribe, no entanto, foi a idéia do presidente Lula da constituição de um Conselho de Ministros da Defesa da América do Sul. A iniciativa foi apelidada por alguns órgãos de imprensa, de modo infeliz, de OTAN do Sul. Infeliz porque não se trata de uma organização com efetivos militares ou verbas próprias, mas apenas de uma tentativa política, mais do que militar, de criar convergências nos processos de segurança subcontinental. Uribe, orientado por Washington, pulou fora. Argumentou que, antes de qualquer coisa, as FARC precisam ser reconhecidas enquanto grupo terrorista. Mas, na verdade, o presidente colombiano, não tinha muitas alternativas, se considerarmos o histórico do seu projeto político. Sua política de governo tem se transmutado em política de Estado e, desse modo, sinaliza que enquanto a Colômbia conviver com as FARC dominando cerca de 40% de seu território restará ao governo direitista ações que lembram a situação do conflito Israel-Palestina. Nesse contexto, faz sentido a tentativa de Hugo Chávez de transformar as FARC em grupo político desarmado (no médio prazo). Sua leitura é de que a situação política na América Latina favorece as iniciativas de governos populares e que, caso haja um desfecho democrático para as FARC, o império americano perderá seu grande álibi para incursões militares na região. Daí os diálogos entre Chávez e Raúl Reyes para a libertação paulatina de reféns da guerrilha colombiana. Esse projeto, na visão estratégica colombiana e estadunidense, precisava ser abortado. E a Colômbia, com ajuda da inteligência norte-americana, cumpriu o intento: assassinou o número dois das FARC em território equatoriano, o que gerou a recente crise, amplamente divulgada pela mídia nacional e internacional.

Assim, a tendência é que o Conselho de Defesa surja sem a Colômbia que, na verdade, era um dos principais objetivos da iniciativa. Tal situação gerou um mal-estar que desembocou na recusa, pela Colômbia, da oferta da primeira presidência rotativa da UNASUL. Não pegaria bem um país que, no presente contexto de guinada à esquerda da América do Sul, apresenta desconfianças às iniciativas de integração sul-americana à frente da organização.

Em meio a esta confusão, os Estados Unidos não ficaram parados. Pelo contrário, o presidente George W. Bush e a secretária de Estado Condoleezza Rice anunciaram a reativação da IV Frota. Trata-se de um comando militar para a América do Sul, principalmente a partir da Marinha, criado durante a II Guerra Mundial para abater navios e submarinos alemães que vinham sistematicamente atacando embarcações mercantes dos países aliados aos EUA no Cone Sul. A IV Frota havia sido extinta no início da década de 50 do século passado. O Departamento de Estado justificou a iniciativa: “trata-se de uma demonstração do compromisso dos Estados Unidos com seus aliados na região”. Mas a coincidência com o lançamento da UNASUL dá o que pensar.

Por fim, há outra coincidência: as manobras do porta-aviões norte-americano George Washington em águas brasileiras e argentinas desde o fim do mês passado para uma operação de treinamento militar conjunto. A esta altura, o presidente Lula já vinha conversando com Hugo Chávez sobre a criação do Conselho de Defesa. Mas, a um só tempo querendo demonstrar liderança e ansioso por provar que não adere ao radicalismo chavista, o governo brasileiro optou por morder e assoprar. Assim, adere à UNASUL e propõe o Conselho de Defesa, contudo, simultaneamente, demonstrando proximidade com os Estados Unidos. Por sua vez, Hugo Chávez afirmou, em seu tom característico, que o porta-aviões não lhe assusta.

Este é o grande dilema da integração sul-americana: a Colômbia, às voltas com as FARC, adere ao projeto de segurança dos Estados Unidos através do Plano Colômbia; os países mais importantes, Brasil e Argentina, evitam radicalismos e tentam retomar o protagonismo político dos governos mais à esquerda, dialogando com o império e com os contra-hegemônicos; e, por fim, o radicalismo dos governos populares dos países mais atrasados (Venezuela, Equador, Bolívia). Com que agulha se poderá costurar essa colcha de retalhos?

Uma coisa é certa: com o fim do conflito Leste-Oeste da Guerra Fria, parece que o conflito Norte-Sul, aventado pelos teóricos da dependência, ganha novo destaque por estas paragens tropicais.

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14 Respostas to “O velho conflito Norte-Sul reloaded: a UNASUL e a IV Frota”

  1. Bruno Moreira Lima Says:

    Não é de hoje que os “irmãozinhos do norte” estão de olho em nossas riquezas naturais (petróleo, no mar, minério e patrimônio biológico, na Amazônia e em outras localidades).
    De certo, uma vez dominados, como estão, Canadá e México, também não interessa a eles nosso desenvolvimento sócio-econômico – interno e autônomo. A ordem e o progresso verdadeiros do Brasil, o terceiro maior país das Américas, fariam com que nos tornássemos uma potência, um concorrente direto – ameaçador, portanto, em todos os aspectos. A lógica é essa e resulta dos favores que Deus (talvez porque é mesmo “Brasileiro”) nos fez em termos de riquezas naturais.
    Assim sendo, pressões político-militares passam naturalmente a ocorrer, em ciclos, como essa que já se avizinha. Coincide com a iniciativa da UNASUL? Coincide. Mas, também com a descoberta de novas, e opulentas, reservas de petróleo na bacia de Campos.
    O que fazer? Em primeiro lugar, uso de nossa tão prestigiosa diplomacia, junto com o SNI, para saber quais são as reais intenções dos EUA e possibilidades destas decorrentes. Em seguida, diálogo diplomático efetivo, não só com os EUA, mas com possíveis aliados fora das Américas, para tentar repelir o vitupério que se configura.
    Se nada adiantar, então teremos que partir para o embate… E eu já vou largando o cigarro, bem como preparando meus fôlego e músculos, com muita ginástica, para a convocação iminente…
    Em qualquer caso, antes da guerra, poderíamos ainda seguir o sarcástico conselho de Raul Seixas e alugar o Brasil. Em face desta hipótese, no entanto, eu ainda prefiro engatilhar o fuzil, nem que para tanto tenha, antes, que aprender a atirar…
    Enfim, se a Nação me chamar, eu vou cantando o Hino!

  2. O teatro dos oprimidos « ANTITEXTOS Says:

    […] de Defesa – precisamente quando os EUA (que invadiram preventivamente o Iraque) reativam sua IV Frota (encarregada das operações em mares latino-americanos), que havia sido extinta nos anos 50 do […]

  3. Pinheiros e Política « Tempos Pós-Modernos Says:

    […] o que deu vazão a se falar em pós-Consenso de Washington. É ao Estado que se dirigem temas como Unasul, pesquisa com células-tronco, conquista de direitos, etc, ainda que as discussões emanem da […]

  4. lucas costa samarco Says:

    é hora do Brasil reagir , todos estão vendo, reativaram IV frota estão dizendo que é para evitar conflitos entre os paises do sul, claro que isso é uma desculpa, que nem inventaram no iraque dizendo que eles tinham armas nucleares sendo que o interesse deles é o petroleo, claro que essa guerra que existira concerteza sera daqui uns 5 a dez anos , esse tempo oBrasil devera se preparar por que isso é sério enquanto isso a midia nao divulga isso, mas pode ter certeza se o Brasil não investir em armamento belico e no exercito podemos sofrer com isso, chego a hora de agir..to pegando ódio dos americanos!!

  5. Brasileiro e depois gaúcho Says:

    A IV frota ainda está parada aqui, bem em nossa frente. Ameaçadora, talvez na tentativa de nos amedrontar. Perigosa por ser poderosa, mas não indestrutível. Nada é indestrutível. Mas o que me dá esperança de que temos qualidades para nos defender de um ataque é a sensatez das observações a respeito desta ameaça. Não vejo nenhum comentário ofensivo ou entreguista. Pelo contrário, há plena consciência de que se trata de uma ameaça concreta, mas também de que estamos dispostos a nos mobilizar em defesa do Brasil. Não adianta a mídia (que parece defender os interesses dos eua) bater em teclas ambientalistas ou de nossa corrupção e de nossos defeitos como sociedade, que mesmo assim, o povo brasileiro vai defender sua soberania até a vitória.

  6. Hezzb Says:

    Os verdadeiros terroristas piratas estão nos rondando, agora que o Brasil descobriu uma das maiores reservas de petróleo do mundo, e ainda temos uma das maiores reservas de água doce do mundo, sem contar na imensurável riqueza da Amazônia. O que me deixa mais atordoado também é o silêncio da mídia brasileira, estranho…? Olha não sou militar, mas esses governos civis desde (1985), nada fizeram para o reaparelhamento das nossas Forças Armadas, temos uns Mirage dos anos 70, que dá até vergonha, num país com dimensões continentais e ainda podre de rico em recursos naturais, nada foi feito. Somos um país que não tem inimigos (por enquanto), pacifista…Mas será que as grandes potências pensam pequeno como nós brasileiros?

  7. Hezzb Says:

    E tudo isso é culpa desses esquerdistas de m…(brasileiros), que se preocuparam mais em pilhar as riquezas do país, e com aquele velho discurso sobre a volta da ditadura, como se eles fossem diferentes, sucatearam até o fim as nossas Forças Armadas. E agora? Como recuperar o tempo perdido, digo isso porque o Brasil não aguenta com o Paraguai, imaginem com a força bélica dos EUA, para se ter uma idéia o Brasil está no 4° lugar em contigente militar aqui na América do Sul, o Brasil pensa que é uma ilha de paz, que ninguém vai botar os seus cobiçosos olhos aqui.

  8. Márcio Bonini Says:

    A intimidação é uma das armas mais antigas dos poderosos, a sutilidade com que se estabelece, faz presumir que há a força, mas não o comprometimento com a coação física. Os EUA entraram em um processo de perda de status, com a globalização tem sido cada vez mais difícil para eles camuflarem seus reais interesses, a rapidez com que as informações percorrem o mundo, tem constantemente anulado as possibilidades de barrarem a construção de opiniões críticas em relação as atitudes em busca da hegemonia.
    A IV frota e sua reativação demonstram o desespero, os EUA está falido e a China desponta como a substituta no controle do mundo.

  9. Luciana Says:

    Q legal….

  10. nayara Says:

    eu gostei muito desse texto

  11. nayara Says:

    eu gostei muito desse texto parabens para vc

  12. nayara Says:

    cade vc mim responde

  13. jeeh Says:

    eu quero o conflito entre hemisferio norte e sul de modo geral;

  14. talita Says:

    muito grande

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