Archive for junho \20\UTC 2008

Discurso x Significado

junho 20, 2008

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Resposta ao leitor

junho 17, 2008

Recebi um e-mail de um leitor deste blog conforme segue abaixo:

“Caro Felippe,

Na condição de leitor do seu blog, trago-lhe a seguinte provocação: ao longo dos ultimos anos, a “grande midia” empenhou-se em popularizar expressões relacionadas a escândalos na política nacional. Deste modo temos: mensaleiros e mensalão, valerioduto, apagão aéreo, dilmagate, etc. Os casos trazem em comum a participação de pelo menos um, se não vários, governistas. Não achas estranho que essa mesma mídia ainda não tenha criado expressões para designar os escândalos que ora corroem o governo de Yeda Crusius ou as irregularidades ora descobertas na gestão Mario Covas/Geraldo Alckmin no caso Alstom? Seria a imprensa também membro da oposicão?

Cordialmente,
Dário Júnior”

E respondo, prezado Dário, que a partidarização (em sentido amplo) da mídia é clara e não teria como ser de outra forma. A mídia nunca é confiável, a não ser para aqueles que nela confiam. Explico. O bias da mídia é seu pressuposto. Os órgãos de imprensa constroem sua credibilidade com discursos aceitáveis para seu público-alvo e, simultaneamente, tentam fazer prevalecer suas próprias idéias e interesses (ideológicos, mas, sobretudo, econômicos). Assim, por exemplo, eu tendo a dar mais crédito à CartaCapital do que à Veja. Os meios de comunicação de massa, em uma sociedade conservadora (política, social, cultural e moralmente), tendem a veicular o que o seu público espera ver. Finalidade óbvia: manter a fidelidade do telespectador e, assim, os níveis de audiência e os recursos provenientes dos anúncios publicitários. Assim, o grande e primeiro partido da mídia é o lucro. Contudo, a realização deste objetivo (o lucro desmedido) implica a constituição de um campo político composto por diversas forças sociais, no qual a mídia conta com diversos aliados (os setores mais conservadores da sociedade). Contudo, essa aliança conservadora da burguesia não é baseada no consenso e às vezes observamos conflitos intra-elite.

Acontece que a mídia só manterá a eficácia do seu objetivo se sustentar seu discurso legitimador básico: o da imparcialidade. Esse véu discursivo e ideológico é o que faz o consumidor da informação pensar que consome fatos, ao invés de interpretações. Daí que os indivíduos da massa social pensem que não possuem posicionamento político, quando, na verdade, ocupam espaço bem próximo às elites no que concerne aos seus valores (em outras palavras, a hegemonia).

É aí que entra a estratégia atual da grande mídia nacional: a produção do espetáculo político das crises que aparecem e evaporam sem deixar vestígios. Os dossiês ou mensalões são explorados ao máximo enquanto há audiência para eles. Uns chamam mais atenção do que outros, como o dito mensalão, que chegou a desestabilizar o governo. Mas, no fim, em tempos de aceleração do consumo, descartabilidade e obsolescência programada, a audiência cansa. Aí a mídia simplesmente deixa de abordar a questão. Aos casos políticos citados, sempre se pode argumentar que houve “pizza”. Mas e no caso do apagão aéreo? Como o caos, a catástrofe e a hecatombe anunciadas se resolveram como passe de mágica, frente à inépcia proclamada do governo? Resposta simples: não havia crise, mas apenas espetáculo. E como canta a banda Los Hermanos, “todo carnaval tem seu fim”.

Nesse sentido, a grande mídia não fará o mesmo escarcéu perante seus aliados. Pode até noticiar os acontecimentos para alimentar o discurso da imparcialidade, mas jamais os explorará politicamente, a não ser que seja um dos casos de conflito intra-elite. De qualquer forma, se será difícil ver nos tempos atuais uma edição grotesca dos fatos, como no exemplo do episódio Lula-Collor, a razão é apenas porque os métodos estão mais sofisticados.

É assim que se dá o papel da grande mídia dentro de um contexto capitalista. A solução não é a censura. Mas há alternativas: por um lado, o incremento da consciência crítica e o combate à ingenuidade que faz da população presa fácil do discurso da imparcialidade (tarefa dos movimentos sociais e dos intelectuais progressistas no âmbito da sociedade civil) e, por outro lado, a quebra de monópolios de audiência, o incentivo à TVs públicas e universitárias em canais abertos e maior inclusão digital (tarefas do Estado, pressionado pelos setores progressistas).

Quase dois irmãos

junho 12, 2008

Quase dois irmãos é um fantástico filme que eu assisti sem muito compromisso em um fim de semana. Trata-se de um filme nacional de 2004 que, pelo menos para mim, passou despercebido em seu lançamento. Não me lembro de ter ouvido um único comentário sequer sobre ele.
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Eis a sinopse do seu site oficial:
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Nos anos 70, quando o país vivia sob a ditadura militar, muitos presos políticos foram levados para a Penitenciária da Ilha Grande, na costa do Rio de Janeiro. Da mesma forma como os políticos, assaltantes de bancos também estavam submetidos à Lei de Segurança Nacional. Ambos cumpriam pena na mesma galeria. O encontro entre esses dois mundos é parte importante da história da violência que o País enfrenta hoje. “Quase Dois Irmãos” mostra como essa relação se desenvolveu e o conflito estabelecido entre eles. Entre o conflito e o aprendizado, nasceu o Comando Vermelho, que mais tarde passou a dominar o tráfico de drogas.
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Através de dois personagens, Miguel, um jovem intelectual de classe média, preso político na Ilha Grand, e hoje deputado federal e Jorge, filho de um sambista que de pequenos assaltos se transformou num dos líderes do Comando Vermelho, o filme tem como pano de fundo a história política do Brasil nos últimos 50 anos, contada também através da música popular, o ponto de ligação entre esses dois mundos. Hoje, começa um novo ciclo: Miguel tem uma filha adolescente, que fascinada pelas favelas e pela transgressão, se envolve com um jovem traficante. [fim de sinopse]
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O ponto do filme que trago para discussão é a atribulada relação entre a classe média engajada (então chamada de pequena burguesia) e a classe popular, o povão, a massa. Adeptos políticos do socialismo revolucionário, um grupo de jovens militantes presos são postos em contato com presos comuns e tentam pôr em prática a teoria marxista da superação da consciência em-si para uma mais elevada, a para-si, ou seja, da alienação para uma consciência da condição de exploração pela burguesia. Assim, na visão desta elite revolucionária (uso propositalmente elite ao invés de vanguarda), era preciso educar a massa, mesmo a delinqüente. Quando os primeiros presos comuns chegam à prisão política, os revolucionários marxistas eram majoritários. Foram abordados pelos comuns: “quem é o xerife dessa porra?”. Ao que responderam: “aqui não tem isso, não; só não pode pederastia e dar um dois (fumar maconha)”. Evidentemente, as regras moralizantes da esquerda ortodoxa eram burladas frequentemente. Com o passar do tempo, a política nacional foi se abrandando e a situação social oriunda da ditadura se agravando, o que reduziu o número de prisões políticas e ampliou o número de prisões comuns (de negros da periferia). O resultado é que a periferia é que passou a mandar no presídio. A cadeia passou a ser igual a qualquer outra, com baseado, homossexualidade, grupos inimigos, privilégios, “xerifes”, violência e linchamentos. Nesse contexto, trava-se a discussão – seria melhor dizer assembléia, conforme o vocabulário da esquerda da época – entre os que são favoráveis à separação entre presos comuns e políticos e os que se mantém firmes na idéia de “educar a massa”. O argumento racional dos defensores da separação é que eles são minoria dentro da prisão e precisam sobreviver para o bem da revolução, uma vez que há poucos revolucionários devido à repressão. Os realistas vencem o debate sobre os idealistas. No entanto, e esta é a grande sacada do filme, a verdadeira razão da separação dos presos em duas alas, a dos comuns, para negros da periferia, e a dos políticos, de classe média, é a própria incompatibilidade entre as duas formas de ser e estar no mundo. O discurso da educação das massas pode ser atraente, mas em condições extremas, como a de um presídio com todas as suas crueldades e adversidades, ele se mostra artificial. Assim, a construção do muro de concreto separando os dois pavilhões é, na verdade, uma metáfora para o muro social que já separava os dois estratos sociais. E a película encerra-se com uma frase de efeito: “um é o mundo que sonhamos, outro é o que vivemos”.

O centro da Internet – Impressionante!

junho 5, 2008

Descobriram o exato centro da internet. Imaginem, num mundo virtual povoado por milhões de sites, acontecer tal façanha.

Façam como eu e naveguem no centro da internet. É só clicar aqui.

O velho conflito Norte-Sul reloaded: a UNASUL e a IV Frota

junho 1, 2008

A criação da União Sul-Americana de Nações (UNASUL), com status de organização internacional e personalidade jurídica de Direito Internacional Público, foi anunciada em Brasília no último dia 23. Isso significa que deverá ser mais do que meros encontros esporádicos de chefes de Estado. Trata-se de uma tentativa de revigorar a Comunidade Sul-Americana de Nações – incapaz de resolver os conflitos da região, como os recentes desentendimentos entre Venezuela e Equador, por um lado, e Colômbia, por outro – através de uma organização permanente que consiga ampliar diálogos, intercâmbios e políticas multilaterais em diversas áreas. A idéia é de, para além da integração regional, tentar resolver os conflitos sem ter necessariamente de recorrer à Organização dos Estados Americanos (OEA), hegemonizada pelos Estados Unidos.

A potência do norte, obviamente, não gostou da idéia e tratou de concertar a estratégia de criação de dificuldades à iniciativa através de seu incondicional aliado colombiano, o presidente Álvaro Uribe. Este não pôde rejeitar pura e simplesmente a participação colombiana na organização, pois tal movimento aumentaria seu isolamento regional, na contramão da tendência mundial de fortalecimento das iniciativas de integração. O argumento para a reclamação de Uribe, no entanto, foi a idéia do presidente Lula da constituição de um Conselho de Ministros da Defesa da América do Sul. A iniciativa foi apelidada por alguns órgãos de imprensa, de modo infeliz, de OTAN do Sul. Infeliz porque não se trata de uma organização com efetivos militares ou verbas próprias, mas apenas de uma tentativa política, mais do que militar, de criar convergências nos processos de segurança subcontinental. Uribe, orientado por Washington, pulou fora. Argumentou que, antes de qualquer coisa, as FARC precisam ser reconhecidas enquanto grupo terrorista. Mas, na verdade, o presidente colombiano, não tinha muitas alternativas, se considerarmos o histórico do seu projeto político. Sua política de governo tem se transmutado em política de Estado e, desse modo, sinaliza que enquanto a Colômbia conviver com as FARC dominando cerca de 40% de seu território restará ao governo direitista ações que lembram a situação do conflito Israel-Palestina. Nesse contexto, faz sentido a tentativa de Hugo Chávez de transformar as FARC em grupo político desarmado (no médio prazo). Sua leitura é de que a situação política na América Latina favorece as iniciativas de governos populares e que, caso haja um desfecho democrático para as FARC, o império americano perderá seu grande álibi para incursões militares na região. Daí os diálogos entre Chávez e Raúl Reyes para a libertação paulatina de reféns da guerrilha colombiana. Esse projeto, na visão estratégica colombiana e estadunidense, precisava ser abortado. E a Colômbia, com ajuda da inteligência norte-americana, cumpriu o intento: assassinou o número dois das FARC em território equatoriano, o que gerou a recente crise, amplamente divulgada pela mídia nacional e internacional.

Assim, a tendência é que o Conselho de Defesa surja sem a Colômbia que, na verdade, era um dos principais objetivos da iniciativa. Tal situação gerou um mal-estar que desembocou na recusa, pela Colômbia, da oferta da primeira presidência rotativa da UNASUL. Não pegaria bem um país que, no presente contexto de guinada à esquerda da América do Sul, apresenta desconfianças às iniciativas de integração sul-americana à frente da organização.

Em meio a esta confusão, os Estados Unidos não ficaram parados. Pelo contrário, o presidente George W. Bush e a secretária de Estado Condoleezza Rice anunciaram a reativação da IV Frota. Trata-se de um comando militar para a América do Sul, principalmente a partir da Marinha, criado durante a II Guerra Mundial para abater navios e submarinos alemães que vinham sistematicamente atacando embarcações mercantes dos países aliados aos EUA no Cone Sul. A IV Frota havia sido extinta no início da década de 50 do século passado. O Departamento de Estado justificou a iniciativa: “trata-se de uma demonstração do compromisso dos Estados Unidos com seus aliados na região”. Mas a coincidência com o lançamento da UNASUL dá o que pensar.

Por fim, há outra coincidência: as manobras do porta-aviões norte-americano George Washington em águas brasileiras e argentinas desde o fim do mês passado para uma operação de treinamento militar conjunto. A esta altura, o presidente Lula já vinha conversando com Hugo Chávez sobre a criação do Conselho de Defesa. Mas, a um só tempo querendo demonstrar liderança e ansioso por provar que não adere ao radicalismo chavista, o governo brasileiro optou por morder e assoprar. Assim, adere à UNASUL e propõe o Conselho de Defesa, contudo, simultaneamente, demonstrando proximidade com os Estados Unidos. Por sua vez, Hugo Chávez afirmou, em seu tom característico, que o porta-aviões não lhe assusta.

Este é o grande dilema da integração sul-americana: a Colômbia, às voltas com as FARC, adere ao projeto de segurança dos Estados Unidos através do Plano Colômbia; os países mais importantes, Brasil e Argentina, evitam radicalismos e tentam retomar o protagonismo político dos governos mais à esquerda, dialogando com o império e com os contra-hegemônicos; e, por fim, o radicalismo dos governos populares dos países mais atrasados (Venezuela, Equador, Bolívia). Com que agulha se poderá costurar essa colcha de retalhos?

Uma coisa é certa: com o fim do conflito Leste-Oeste da Guerra Fria, parece que o conflito Norte-Sul, aventado pelos teóricos da dependência, ganha novo destaque por estas paragens tropicais.