De onde veio 68?

O mês de maio está chegando ao fim e eu não poderia me furtar de abordar os 40 anos do Maio de 68. Não o fiz antes por diversos motivos, um dos quais foi justamente meu envolvimento na organização do evento “Maio de 68: dos 40 anos do levante juvenil às leituras do mundo contemporâneo”, realizado de 6 a 14 deste mês na Escola de Administração da UFBA. O que se segue é a sistematização de uma pequena parte das minhas idéias, expostas durante minha conferência no evento. Em breve, a TV UFBA disponibilizará os vídeos. Como sempre, privilegiei um olhar que congrega a história e a sociologia política, buscando, mais do que entender o passado, entender o presente levando o passado em consideração.

Para a economista Maria da Conceição Tavares, o mundo contemporâneo vive uma transição da geopolítica à geoeconomia, ou seja, os imperativos últimos da ordem mundial não são mais balizados por decisões políticas, ideológicas e/ou estratégicas dos gestores do Estado, mas, sim, pelos constrangimentos “técnicos” e “neutros” do mercado financeiro globalizado. Daí o que eu chamo de transição da Economia Política à política econômica. A primeira formulação ficou famosa nos escritos de Karl Marx, que estava preocupado em demonstrar a influência decisiva da materialidade da vida social, ou seja, a esfera econômica, na estrutura social e na vida das pessoas comuns – a classe trabalhadora. Assim, qualquer decisão econômica seria, na verdade, uma decisão política. No período de vigência da bipolaridade da Guerra Fria (1947-1991), a Economia Política fez por merecer as letras maiúsculas. Lembremos o Plano Marshall: haveria algo mais absurdo para a ótica monetarista do neoliberalismo atual do que dar dinheiro a fundos perdidos para países se reconstruírem? A decisão política do Tio Sam remou contra a lógica da Economia neoclássica – e o mais impressionante: foi um sucesso! Hoje, predomina a política econômica (com letras minúsculas mesmo): superávit primário, taxas de juros, especulação financeira etc etc etc. Mas que ninguém duvide que esta minusculização da política seja uma decisão política!

Assim, podemos dizer que a década de 60 do século XX, de onde saiu o tal ano de 68, foi parte da hiperpolitização da estrutura social, o que não implica necessariamente atores (indivíduos reais como você e eu) politizados e totalmente conscientes do que se passava ao seu redor, ou melhor, acima de suas cabeças de reles mortais. Imaginem os noticiários da época: Estados Unidos contra União Soviética ou, ainda, Capitalismo contra Socialismo. Que duelos de Titãs! O povão ficava lá embaixo, sem saber direito o que eles tinham a ver com tudo isso. Assim, joguemos fora a ilusão de que todo mundo na década de 60 (notadamente os jovens) ou eram marxistas ou hippies. Na verdade, os jovens politizados, até 1968, eram apenas uma parcela vanguardista dos estudantes, numericamente pequena, mas extremamente barulhenta e, portanto, visível. Até aquele ano fatídico, jovem era só o estudante e vice versa. A partir de 68 ficará claro até os dias atuais que jovem também pode ser o negro, a mulher, o gay, a ambientalista etc etc etc.

68 testemunhou a irrupção de diversas manifestações de protesto ao redor do mundo ocidental – do Norte desenvolvido ao Sul subdesenvolvido. Primeiro, porque o capitalismo estava atravessando mudanças econômicas e sociais importantes, com o crescimento econômico (seja do Estado de Bem-Estar, no Norte, ou do Estado nacional-desenvolvimentista, no Sul, não raro, sob ditaduras) e o baby boom (a explosão demográfica do pós-guerra, que ampliou a percentagem de jovens na população na década de 60, tendo consequências diretas nos campos da cultura, da educação e do lazer). Segundo, porque, enquanto isso, o socialismo, política e economicamente, se desiludia consigo mesmo. Dessa forma, 68 nasce das condições estruturais do mundo ocidental e transmuta-se onde quer que irrompa. 68 é a luta estudantil e sindical (separadas) na França, o assassinato de Martin Luther King Jr., as lutas pacifistas contra a Guerra do Vietnã e a queima de sutiãs nos Estados Unidos, o massacre de Tlatelolco (estudantes em protesto) no México às vésperas das Olimpíadas, a breve Primavera de Praga (tentativa pelo próprio Partido Comunista local de humanizar o socialismo na Tchecoslováquia) e seu esmagamento pelos tanques soviéticos e do Pacto de Varsóvia etc etc etc. No Brasil, 68 testemunhou o assassinato do secundarista Edson Luís, a passeata dos cem mil contra os militares, a tentativa do Congresso da UNE em Ibiúna, onde cerca de mil líderes estudantis foram presos e, por fim, a vitória reacionária com a edição do AI-5 em 13 de dezembro.

Assim, onde quer que surgisse algo neste ano tão simbólico, surgia com suas especificidades. A unificação se dava no único sentido de que todas estas manifestações eram um grande grito contra a opressão econômica, social, étnica, de minorias, sexual e até mesmo existencial. 68 é um ponto significante dentro de uma linha: há ensaios com a mobilização social das lutas de descolonização, com o ponto alto da Argélia, bem como há desdobramentos em Woodstock (1969), dentre tantos outros exemplos que poderíamos aqui listar. Podemos dizer, concluindo, que 68 começou bem antes, no início da década de 60, e terminou bem depois. Há ainda quem diga que ele não terminou.

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