Advogado do Diabo: há exageros de parte à parte

O professor Antonio Natalino Dantas, que afirmou que baiano tem QI baixo, renunciou ao cargo de coordenador do colegiado do curso de Medicina da UFBA, lançando nota pública na qual se diz envergonhado, arrependido e mal-interpretado. Os movimentos sociais e mesmo manifestações individuais foram fulminantes. Exigem a expulsão, execração, enxotamento etc do professor. Natalino foi estúpido, conforme já opinei aqui. Mas foi linchado pela mídia local e mesmo nacional, autuado pelo Ministério Público, renunciou ao cargo de coordenador, sofreu adverências oficiais da UFBA e da Faculdade de Medicina e lançou uma carta na qual a vergonha é a tônica. Ademais os movimentos sociais já mostraram sua cara e deram seu recado. O que mais se pode exigir? O esquartejamento e a exibição em postes das partes do seu corpo? Deixemos – fiscalizando, é claro – a Justiça averiguar se medidas penais ou cíveis são cabíveis.

Na democracia, mesmo que formal, como a brasileira, os cidadãos têm o direito à livre expressão. Como afirmou o ministro do STF Carlos Ayres de Britto, a liberdade de expressão é a maior expressão da liberdade. Mas quando os indivíduos ou grupos ultrapassam os limites do bom senso no usufruto desse direito e caem no preconceito/racismo a democracia tem que punir. Mas punição desmedida, nos ensinou o pensador francês Michel Foucault, só serve para alimentar a barbárie. Uma punição proporcional serve não apenas apenas para punir o infrator, mas sobretudo para educar os demais cidadãos através do exemplo.

O desastre da Revolução Cultural na China já demonstrou que justiça sumária nas supostas mãos “do povo” leva à injustiça e ao abuso. Temos que equilibrar a ação institucional com a ação social. Os movimentos sociais devem, desse modo, medir palavras e ações na execução de sua justíssima luta. E focar no X da questão, que não é o comportamento ou a fala de um indivíduo isolado, mas o arraigado e atávico preconceito numa sociedade dita bastião da “democracia racial”, do qual o comportamento do professor é apenas um dos muitos exemplos, mas que tomou eco por seu portador ser uma figura pública. A questão, contudo, é estrutural e os movimentos sociais devem aproveitar a oportunidade para educar a sociedade e não para saciar uma recôndita sede de sangue. O grande problema é a reprodução do pensameto (e ação) racista/preconceituoso no mundo da vida cotidiana, reproduzindo, dessa forma, de modo imperceptível ou silencioso a estrutura excludente da nossa sociedade. O sangue derramado de um bode expiatório sacia a indignação acumulada e reprimida, mas não resolve o problema. Ademais, bodes expiatórios são ótimos para a elite: vão-se os anéis, mas os dedos ficam intactos.

Para continuar na polêmica, a realidade é como o berimbau: aparenta ser simples, mas ultrapassa todos os maniqueísmos e demonstra, em um nível mais profundo, sua complexidade.

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Uma resposta to “Advogado do Diabo: há exageros de parte à parte”

  1. Rafael Says:

    Concordo plenamente. Vc defendeu, conforme eu mesmo em outro lugar, que a grande questão do Natalino era a possível volta das teorias raciológicas. Eu ainda fui bastante otimista ao afirmar que, na academia, essas teorias já foram esquecidas (embora, na prática, uma nova leva de teorias “biologizantes” estejam em moda). Contudo, a minha maior preocupação é que a fala de Natalino representa o pensamento do corpo social, ainda racista e bastante determinista, biológico e geográfico.

    Não é raro ver intolerâncias e ignorâncias serem praticadas a partir desses modelos de fundamentação. Ao dar minha opinião sobre o ocorrido, defendi que os movimentos sociais se manifestassem e cobrassem alguma providência. Contudo, conforme a sua opinião, isso não significa sede de sangue ou punição ao indivíduo, mas sim um modo de intervenção na realidade, no corpo social ou, nas suas palavras, no mundo da vida cotidiana e das práticas.

    Os movimentos sociais e seus militantes raivosos que ainda querem sangue precisam deixar de ser personalistas e necessitam aprender a lidar com o mundo mais racionalizado e/ou orgânico, para usar de termos clássicos.

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