Rompendo o silêncio

Claro que eu tinha que falar sobre o caso Isabela. A pauta dos assuntos a serem discutidos no espaço público é determinada pelo jogo midiático. No entanto, meu silêncio, quebrado por este post, não foi por acaso. Recusei-me o quanto pude a fazer parte deste espetáculo (e não falo do debordiano, mas do circense mesmo). Isso porque tocar no assunto é lhe fazer eco. Agora entendo bem a postura de Marilena Chauí, que recusou-se à falar com a mídia. É a única forma de estar fora do seu alcance. Criticá-la é reconhecer seu poder inelutável. Ademais, como disse em post anterior, já não existem ouvidos para escutar os outsiders. Ou há, na verdade. Mas são ouvidos já mercantlizados. Os próprios outsiders já são insiders.

Navegando na internet, como estou agora, encontrei a opinião do jornalista, professor e ex-deputado Emiliano José. Concordei com o essencial. Discordei apenas quando ele afirma:

O que interessa é aquela criança morta – branca, de classe média. “Que pauta!” – gritará logo o chefe de reportagem. “Vamos colocar todo o reportariado em cima da menina morta”. “Vamos fungar no cangote deles!” “E seguiremos até quando sobrar fôlego, e quanto mais demorar para chegar a conclusões mais definitivas, tanto melhor”.

Na verdade, caro Emiliano, o espetáculo não pode ser encenado indefinidamente. Ele precisa se renovar constantemente, seguindo a mesma lógica da descartabilidade e da obsolescência programada das mercadorias da nossa sociedade de consumo. As pessoas cansam, ficam com enfado. A menina Isabela já deu o que tinha de dar para a mídia. Daí a culpa decretada não pelo juiz, mas pela imprensa. Porque a novela tem que ser encerrada em grande estilo, com um final arrebatador, para que o espectador pense que valeu a pena o valor do ingresso – sua consciência cedida aos “formadores de opinião”. O ritmo da Justiça é outro, ainda mais na lentidão da burocracia brasileira. O ritmo da mercadoria e das trocas mercantis sob o capitalismo é sempre alucinante. Atualmente, contudo, a mercadoria somos nós mesmos. No caso da mídia, somos tomados no varejo. Foi a vez de Isabela.

Fica uma certeza. A de que não veremos tão cedo a vez de meninos e meninas pobres – não raro, negros – maltratados todos os dias pelo imenso Brasil encontrarem o mesmo tratamento pela mídia. Estes, mais do que os contraculturais, são outsiders. Das benesses do sistema, deixemos claro. Afinal, eles são grande parte do público de massa que assiste a todo o espetáculo lá da fileira Z.

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