Situando a pós-modernidade

Algumas pessoas têm dificuldades em comer pelas beiradas. Assim, tecem críticas à maneira pulverizada com a qual este blog trata seu tema central: a pós-modernidade. Na verdade, tento mostrar que a pós-modernidade é um período de hiper-complexificação da sociedade. A pulverização do blog não é casual. Pode-se encontrar, inclusive, posts à esquerda e outros mais conservadores. Não há mais identificação necessária e total com um dos – supostos – dois únicos pólos do espectro político. Questionam: mas do que se trata mesmo isso? O que é pós-modernidade, enfim?

Busquei em minha monografia o modo como, então, tratei a questão. Adaptei alguns trechos que seguem abaixo.

Vive-se hoje em uma época que, devido à sua ambivalência, é quase sempre caracterizada como pós-algo: pós-moderna, pós-industrial, pós-ideologia, pós-política e até pós-tudo. Outra alternativa é fazer referência ao passado para caracterizar uma nova fase do presente: assim, após uma fase de modernidade clássica estaríamos hoje em uma modernidade reflexiva, alta modernidade, segunda modernidade, modernidade líquida, supermodernidade, hipermodernidade, etc. O que todas estas denominações têm em comum, a despeito de suas grandes variações teóricas e epistemológicas, é o fato de concordarem em um aspecto central: vive-se uma nova realidade. Na perspectiva aqui considerada, observa-se a pós-modernidade como um problemático conceito guarda-chuva, sob o qual as abordagens acima mencionadas mal se equilibram das convulsões da atual conformação do capitalismo sem fronteiras e que coloca em xeque constantemente o Estado-nação e a política institucionalizada das entidades da modernidade. Mas afirmar a validade do termo pós-modernidade implica dizer que a modernidade foi completamente superada?

A pós-modernidade refere-se ao não cumprimento de promessas da modernidade (igualdade, solidariedade) e à impossibilidade de cumprimento no âmbito deste paradigma aliado ao excesso de cumprimento de algumas promessas (liberdade do mercado e do indivíduo). Vejam o que nos diz o sociólogo português Boaventura de Sousa Santos:

“O paradigma cultural da modernidade constituiu-se antes de o modo de produção capitalista se ter tornado dominante e extinguir-se-á antes de este último deixar de ser dominante. A sua extinção é complexa porque é em parte um processo de superação e em parte um processo de obsolescência. É superação na medida em que a modernidade cumpriu algumas das suas promessas e, de resto, cumpriu-as em excesso. É obsolescência na medida em que a modernidade está irremediavelmente incapacitada de cumprir outras das suas promessas. Tanto o excesso no cumprimento de algumas promessas como o déficit no cumprimento de outras são responsáveis pela situação presente, que se apresenta superficialmente como de vazio ou de crise, mas que é, a nível mais profundo, uma situação de transição. Como todas as transições são simultaneamente semicegas e semi-invisíveis, não é possível nomear adequadamente a presente situação. Por esta razão lhe tem sido dado o nome inadequado de pós-modernidade. Mas à falta de melhor, é um nome autêntico na sua inadequação.”

Assim, o horizonte demasiadamente extenso da modernidade, conforme seu projeto original conformado de Descartes à Kant, trazia em si a semente do seu déficit. Por um lado, a idéia moderna de igualdade ligava-se à necessidade da regulação máxima. Por outro, a idéia de liberdade ensejava o máximo de emancipação. De fato, a luta entre emancipação e regulação foi a tônica da modernidade.

Hoje, a idéia moderna da racionalidade total acabou por se desintegrar numa miríade de mini-racionalidades a serviço de uma irracionalidade global. Irracionalidade global, nesse sentido, não significa ausência da razão, mas, sim, ausência de uma metanarrativa (progresso, ciência, socialismo, etc.) que unifique a pluralidade de racionalidades. Assim, encontramo-nos em um presente hiper-complexo e inefável em sua totalidade. O pensador David Harvey também contribui acerca da definição do termo pós-modernidade ao dizer que trata-se de uma estrutura específica do sentimento e do espaço-tempo contemporâneos. Assim, afeta tanto a macro-estrutura quanto a vida cotidiana. Se por um lado, a modernidade era a lógica cultural do capitalismo, a pós-modernidade nada mais é do que a lógica cultural do capitalismo tardio, como trata o Frederic Jameson.

Serão cinco posts sobre o assunto. No próximo tratarei de diferenciar pós-modernismo e pós-modernidade. Na sequência, sairei da abstração e abordarei o que a pós-modernidade tem a ver com a vida real dos indivíduos. Em um quarto post, tratarei das assimetrias da pós-modernidade (as variações entre as diferentes regiões do globo, entre as classes sociais, entre as etnias, etc). O último post da série tratará da condição política pós-moderna. Claro que estes posts serão intercalados por outros, tratando de temas variados. Senão ninguém aguenta, né?

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2 Respostas to “Situando a pós-modernidade”

  1. ilane Says:

    Li parte de sua mono, mas estarei atenta aos seus textos aqui. O conteúdo é bem elucidativo para estas novas questões.
    Só uma coisa, a capa do “Nevermind” é para ilustrar a idéia ou é por gosto musical mesmo? rs

  2. Felippe Ramos Says:

    Ambos. E no fim das contas, há uma convergência total: o movimento grunge, o império do capital, a naturalização do presente, o suicídio de Cobain.

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