Archive for abril \29\UTC 2008

Rompendo o silêncio

abril 29, 2008

Claro que eu tinha que falar sobre o caso Isabela. A pauta dos assuntos a serem discutidos no espaço público é determinada pelo jogo midiático. No entanto, meu silêncio, quebrado por este post, não foi por acaso. Recusei-me o quanto pude a fazer parte deste espetáculo (e não falo do debordiano, mas do circense mesmo). Isso porque tocar no assunto é lhe fazer eco. Agora entendo bem a postura de Marilena Chauí, que recusou-se à falar com a mídia. É a única forma de estar fora do seu alcance. Criticá-la é reconhecer seu poder inelutável. Ademais, como disse em post anterior, já não existem ouvidos para escutar os outsiders. Ou há, na verdade. Mas são ouvidos já mercantlizados. Os próprios outsiders já são insiders.

Navegando na internet, como estou agora, encontrei a opinião do jornalista, professor e ex-deputado Emiliano José. Concordei com o essencial. Discordei apenas quando ele afirma:

O que interessa é aquela criança morta – branca, de classe média. “Que pauta!” – gritará logo o chefe de reportagem. “Vamos colocar todo o reportariado em cima da menina morta”. “Vamos fungar no cangote deles!” “E seguiremos até quando sobrar fôlego, e quanto mais demorar para chegar a conclusões mais definitivas, tanto melhor”.

Na verdade, caro Emiliano, o espetáculo não pode ser encenado indefinidamente. Ele precisa se renovar constantemente, seguindo a mesma lógica da descartabilidade e da obsolescência programada das mercadorias da nossa sociedade de consumo. As pessoas cansam, ficam com enfado. A menina Isabela já deu o que tinha de dar para a mídia. Daí a culpa decretada não pelo juiz, mas pela imprensa. Porque a novela tem que ser encerrada em grande estilo, com um final arrebatador, para que o espectador pense que valeu a pena o valor do ingresso – sua consciência cedida aos “formadores de opinião”. O ritmo da Justiça é outro, ainda mais na lentidão da burocracia brasileira. O ritmo da mercadoria e das trocas mercantis sob o capitalismo é sempre alucinante. Atualmente, contudo, a mercadoria somos nós mesmos. No caso da mídia, somos tomados no varejo. Foi a vez de Isabela.

Fica uma certeza. A de que não veremos tão cedo a vez de meninos e meninas pobres – não raro, negros – maltratados todos os dias pelo imenso Brasil encontrarem o mesmo tratamento pela mídia. Estes, mais do que os contraculturais, são outsiders. Das benesses do sistema, deixemos claro. Afinal, eles são grande parte do público de massa que assiste a todo o espetáculo lá da fileira Z.

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Situando a pós-modernidade

abril 28, 2008

Algumas pessoas têm dificuldades em comer pelas beiradas. Assim, tecem críticas à maneira pulverizada com a qual este blog trata seu tema central: a pós-modernidade. Na verdade, tento mostrar que a pós-modernidade é um período de hiper-complexificação da sociedade. A pulverização do blog não é casual. Pode-se encontrar, inclusive, posts à esquerda e outros mais conservadores. Não há mais identificação necessária e total com um dos – supostos – dois únicos pólos do espectro político. Questionam: mas do que se trata mesmo isso? O que é pós-modernidade, enfim?

Busquei em minha monografia o modo como, então, tratei a questão. Adaptei alguns trechos que seguem abaixo.

Vive-se hoje em uma época que, devido à sua ambivalência, é quase sempre caracterizada como pós-algo: pós-moderna, pós-industrial, pós-ideologia, pós-política e até pós-tudo. Outra alternativa é fazer referência ao passado para caracterizar uma nova fase do presente: assim, após uma fase de modernidade clássica estaríamos hoje em uma modernidade reflexiva, alta modernidade, segunda modernidade, modernidade líquida, supermodernidade, hipermodernidade, etc. O que todas estas denominações têm em comum, a despeito de suas grandes variações teóricas e epistemológicas, é o fato de concordarem em um aspecto central: vive-se uma nova realidade. Na perspectiva aqui considerada, observa-se a pós-modernidade como um problemático conceito guarda-chuva, sob o qual as abordagens acima mencionadas mal se equilibram das convulsões da atual conformação do capitalismo sem fronteiras e que coloca em xeque constantemente o Estado-nação e a política institucionalizada das entidades da modernidade. Mas afirmar a validade do termo pós-modernidade implica dizer que a modernidade foi completamente superada?

A pós-modernidade refere-se ao não cumprimento de promessas da modernidade (igualdade, solidariedade) e à impossibilidade de cumprimento no âmbito deste paradigma aliado ao excesso de cumprimento de algumas promessas (liberdade do mercado e do indivíduo). Vejam o que nos diz o sociólogo português Boaventura de Sousa Santos:

“O paradigma cultural da modernidade constituiu-se antes de o modo de produção capitalista se ter tornado dominante e extinguir-se-á antes de este último deixar de ser dominante. A sua extinção é complexa porque é em parte um processo de superação e em parte um processo de obsolescência. É superação na medida em que a modernidade cumpriu algumas das suas promessas e, de resto, cumpriu-as em excesso. É obsolescência na medida em que a modernidade está irremediavelmente incapacitada de cumprir outras das suas promessas. Tanto o excesso no cumprimento de algumas promessas como o déficit no cumprimento de outras são responsáveis pela situação presente, que se apresenta superficialmente como de vazio ou de crise, mas que é, a nível mais profundo, uma situação de transição. Como todas as transições são simultaneamente semicegas e semi-invisíveis, não é possível nomear adequadamente a presente situação. Por esta razão lhe tem sido dado o nome inadequado de pós-modernidade. Mas à falta de melhor, é um nome autêntico na sua inadequação.”

Assim, o horizonte demasiadamente extenso da modernidade, conforme seu projeto original conformado de Descartes à Kant, trazia em si a semente do seu déficit. Por um lado, a idéia moderna de igualdade ligava-se à necessidade da regulação máxima. Por outro, a idéia de liberdade ensejava o máximo de emancipação. De fato, a luta entre emancipação e regulação foi a tônica da modernidade.

Hoje, a idéia moderna da racionalidade total acabou por se desintegrar numa miríade de mini-racionalidades a serviço de uma irracionalidade global. Irracionalidade global, nesse sentido, não significa ausência da razão, mas, sim, ausência de uma metanarrativa (progresso, ciência, socialismo, etc.) que unifique a pluralidade de racionalidades. Assim, encontramo-nos em um presente hiper-complexo e inefável em sua totalidade. O pensador David Harvey também contribui acerca da definição do termo pós-modernidade ao dizer que trata-se de uma estrutura específica do sentimento e do espaço-tempo contemporâneos. Assim, afeta tanto a macro-estrutura quanto a vida cotidiana. Se por um lado, a modernidade era a lógica cultural do capitalismo, a pós-modernidade nada mais é do que a lógica cultural do capitalismo tardio, como trata o Frederic Jameson.

Serão cinco posts sobre o assunto. No próximo tratarei de diferenciar pós-modernismo e pós-modernidade. Na sequência, sairei da abstração e abordarei o que a pós-modernidade tem a ver com a vida real dos indivíduos. Em um quarto post, tratarei das assimetrias da pós-modernidade (as variações entre as diferentes regiões do globo, entre as classes sociais, entre as etnias, etc). O último post da série tratará da condição política pós-moderna. Claro que estes posts serão intercalados por outros, tratando de temas variados. Senão ninguém aguenta, né?

…!

abril 25, 2008

A falta de assunto aliada à falta de tempo são os dois maiores problemas enfrentados pelos blogueiros. Tenho sofrido dos dois. Tempo, não tenho tido mesmo. Ando atolado de textos atrasados para ler para a pós-graduação, tenho estudado para diversos concursos, estou organizando um evento etc e tal. A falta de assunto é muito mais complexa. Na verdade, trata-se de certo desgosto pelo ato da fala, um suave desprezo à ação comunicativa. Os assuntos, na realidade, são muitos. Pouca é a vontade de iniciar uma conversa. Mas qual o motivo desse cochilo da vontade? Talvez o despertar de uma outra vontade, como a de escutar o silêncio? Não acredito nessa hipótese. O silêncio em um contexto de infinitos temas a serem discutidos é, na verdade, em meu caso, um protesto contra a surdez. A conversa, agora, é como a de um mudo para um surdo. Eis a mais bela relação comunicativa que posso imaginar na pós-modernidade: egos mudos e massas surdas.

“Quero lançar um grito desumano, que é uma maneira de ser escutado”. Chico Buarque, em Cálice.

Nova novela do dia todo

abril 21, 2008

Vocês têm assistido a novela “Quem jogou a criança pela janela?”?

Eu, não. É muito monotemática e tem poucos atores. Aguinaldo Silva é melhor que isso.

A vida imita a arte ou a arte imita a vida?

abril 20, 2008

Maio de 68 – Evento imperdível!

abril 20, 2008

O Labmundo (Laboratório de Análise Política Mundial) – grupo de pesquisa da UFBA na área de Relações Internacionais, coordenado pelo prof. Dr. Carlos R. S. Milani e pela profª. Drª. Ruthy Nadia Laniado – promove entre os dias 06 e 14 de maio uma discussão historiograficamente diferenciada e multidisciplinar acerca do contexto de contestação da década de 60. Multidisciplinar porque acredita que fenômenos desta importância política devem ser entendidos em sua complexidade, adotando perspectivas que colocam em diálogo a ciência política e a história, a sociologia, a economia etc. Historiograficamente diferenciada porque, na perspectiva historiográfica de Eric Hobsbawn, abandona o senso comum acerca do significado de Maio de 68 a fim de problematizá-lo e ressignificá-lo. Assim, o presente evento entende o Maio de 68 não apenas como os acontecimentos parisienses – que, definitivamente, entraram para a história de conhecimento geral –, mas expande-o para os acontecimentos em diversas partes do mundo que abalaram o status quo político, social e cultural, não apenas da estrutura e ordem capitalistas, mas também do que, à época, se considerava o modelo de contestação, ou seja, as experiências do socialismo real e o ideal revolucionário de tomada do poder por meio da luta armada. Desse modo, o Maio de 68 é a parte mais conhecida e, quiçá, mais emblemática, de um processo histórico muito mais amplo que se iniciou antes de 68 e terminou bem depois. O evento proposto, então, objetiva discutir as diversas faces do processo histórico em tela: a Primavera de Praga, os movimentos pacifistas contra a Guerra do Vietnã, o movimento dos direitos civis dos negros norte-americanos, a queima de sutiãs pelas mulheres, o levante estudantil em Paris, o movimento hippie, a reação contra os estudantes no Zócalo na Cidade do México, bem como os contextos particulares, como no caso do Brasil, marcado pela recrudescência de uma ditadura militar através da edição do AI-5.

Nesse sentido, a questão que ora se levanta é entender a atmosfera social ampla, aquilo que Max Weber chamaria de ethos de uma época. O que distancia e o que aproxima as diferentes expressões de uma época marcada pela turbulência e pela irreverência perante os modelos rígidos da política (capitalista ou socialista)?

Ademais, o evento se encontra na confluência de diversas discussões que serão travadas em todo o mundo acerca dos 40 anos do maio de 68 francês. Nossa idéia foi ampliar esse entendimento limitado e eurocêntrico de duas formas: a) adotando a nomenclatura “maio de 68”, mas ampliando o escopo de análise para acontecimentos históricos ocorridos em outras partes do mundo e, b) incluindo as reações do establishment ao contexto, como no já citado caso da edição do AI-5 no Brasil.

Por fim, ligando-se aos estudos da política internacional, o evento transcende a década de 60 e busca compreender seus desdobramentos até os dias atuais a partir de alguns questionamentos centrais. Quais são os efeitos do declínio do imaginário utópico socialista para a ordem política e que implicações esse fenômeno traz para o mundo da vida cotidiana dos atores? Quais os contornos da nova ordem mundial contemporânea? Como se apresenta a contestação após o fim da bipolaridade? E, ainda, quais os possíveis rumos do pensamento crítico em um contexto de hegemonia do pensamento neoliberal?

Cliquem na imagem abaixo para visualizar a programação atualizada e final do evento.

Cliquem também aqui e aqui.

NOTA: A oficina com Pronzato será realizada às 15h. Ceteris paribus, ou seja, tudo o mais permanece constante, como gostam de dizer os economistas.

Boas palestras

abril 18, 2008

O Laboratório de Análise Política Mundial (LABMUNDO) organiza duas palestras com:
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Professor Philippe Copinschi
Instituto de Estudos Políticos de Paris – Sciences Po
Tema: Economia Política Internacional do Petróleo
Data: 28 de abril
Horário: 9 horas
Sala: 14 (Escola de Administração, Vale do Canela, UFBA)
A palestra será em inglês com mediação em português.
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Professora Rosa de la Fuente
Universidad Complutense de Madrid
Tema: Chiapas e reconfiguração do espaço social no México
Data: 30 de abril
Horário: 9 horas
Sala: 14 (Escola de Administração, Vale do Canela, UFBA)
A palestra será em espanhol, mas o debate será mediado em português.
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Aberto ao público, de acordo com a disponibilidade na sala.

O planeta Terra, esta coisa que só é bonita de longe

abril 17, 2008

Imagens da missão lunar Kaguya, da Jaxa, agência espacial japonesa

Dialética pós-moderna

abril 14, 2008

a pós-modernidade não conhece mudanças, apenas modas

Sobre o silêncio

abril 14, 2008

muitos são os silêncios

poucos serão ouvidos

paulo leminski

De onde veio o logo das Olimpíadas

abril 11, 2008

Da internet, meu protesto contra a China.

Teoria Geral do Direito

abril 8, 2008

Gosto de uma piada que critica simultaneamente a hiperespecialização e os profissionais do Direito. Conta que um rapaz estava com forte dor no testículo esquerdo e se dirigiu à um amigo que era clínico geral. Ele disse não poder fazer muito, mas lhe deu um cartão de um médico urologista amigo seu. Na pressa, pegou o cartão errado e encaminhou o amigo para um advogado. Chegando ao rústico escritório cheio de livros não-lidos, típico dos advogados, o rapaz se impressionou pela singularidade do consultório. A dor, contudo, retirou-lhe de suas divagações. Finalmente atendido pelo “médico”, foi perguntado no que gostaria de ser ajudado, ao que o rapaz abriu o botão e o zíper da calça, retirou o bagulho pra fora, pôs em cima da mesa do atônito “doutor” e disse: “é que estou com uma dor terrível no meu testículo esquerdo”. Catando palavras, o “doutor” responde: “deve haver algum engano aqui – minha especialidade é o Direito!”. O rapaz inconformado, sai do consultório irritadíssimo: “vá ser especialista assim na casa da porra!”.

O Direito brasileiro – não sei se o de outros países é assim; com certeza, não os da Common Law – é representante fidedigno da papelada kafkiana e da linguagem parnasiana. Os caras – auto-intitulados e intitulados por imbecis de juristas – escrevem com um português que não existe mais e usam milhões de termos em latim. Tudo para manter a distância privilegiada entre leigos e especialistas. Pecado que as outras ciências humanas e sociais também cometem, mas ainda é possível entender alguns textos de sociologia ou ciência política (ainda que muitas vezes seja um exercício entediante). Tenho estudado alguns ramos do Direito com três dicionários ao lado: um de português, um de latim e um de juridiquês.

Mas o pior é que toda esta parafernalha linguística encobre orações de significados simples. Por exemplo, Celso Antônio Bandeira de Mello define “cargo” assim: “são as mais simples e indivisíveis unidades de competência”. Considero cargo uma palavra simples, que prescinde de conceituação, devido à ampla consciência comum de sua significação. Tente conceituar “bola”, por exemplo. Vai sair algo mais difícil de se fazer compreender do que simplesmente dizendo: bola.

O Direito é tão estranho que as pessoas que dizem o óbvio são consideradas geniais e revolucionárias no âmbito da doutrina. Como Hans Kelsen, que disse que o Direito é histórico e virou um mito. Acreditem: grande parte dos estudantes e professores discordam disso não entendem isso!

Hoje, eu diria que Kelsen acertou duplamente: o Direito é histórico – socialmente construído – e histórico – peça de museu. Só que uma peça de museu que prende. E quem manda prender é o cara do “deve haver algum engano aqui – minha especialidade é o Direito!”. Humpf!