Contra a ditadura da fé insuficiente

Desde o século XIX, Nietzsche dizia que Deus morreu. Porém, desde Jesus Cristo conhecemos a capacidade de ressurreição dos entes divinos. Assim, a pós-modernidade assiste ao retorno apoteótico da religião, após amplo combate a esta por parte das forças burguesas (liberais) e proletárias (socialistas) da modernidade iluminista – todos conhecem a formulação de Karl Marx, segundo a qual a religião é o “ópio do povo”.
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Contudo, se a Igreja Católica representa um pé no passado feudal devido a seus dogmas e ritos, as igrejas protestantes, por sua vez, têm os dois pés no presente. Também é famosa a construção teórica de Max Weber, segundo a qual a ética protestante contribuiu de forma decisiva para a conformação do espírito capitalista, devido a sua defesa do livre-arbítrio, do lucro e da acumulação, bem como da possibilidade adaptativa devido à descentralização. Tal capacidade de adaptação é tão forte que chegou-se a criar uma denominação protestante de Estado: a Igreja Anglicana, na Inglaterra. Assim, as denominações protestantes são forças do status quo, e, devido a isso, bem aceitas nos centros do capitalismo mundial, vide o exemplo dos Estados Unidos da América. Ademais, o neoconservadorismo neoliberal convive bem com as teses protestantes, em um amplo pacto conservador no mundo atual. Trata-se de um pacto utilitário, no mais das vezes, que visa manter a hegemonia das forças de mercado no mundo. Os ateus e agnósticos acabaram tendendo perigosamente à esquerda do espectro político, segundo as análises conservadoras.
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A ditadura da razão foi a marca da modernidade (e mais, do processo de modernização). O iluminismo e seu ápice, o positivismo, tentaram matar Deus através da ciência. Hoje, contudo, é a ditadura da fé que luta para ser a marca da pós-modernidade. Ressurgem as religiões e não só as ocidentais. Há uma corrida ao orientalismo, ao budismo, hare krishna, etc. O espiritismo cresce. Por sua vez, a Igreja Católica oscila entre tentativas de reforma que a aproximem do imaginário contemporâneo e ofensivas retrógradas que a mantenha coesa e fiel à sua tradição. Mas o fenômeno maior, sem dúvida, é a expansão das religiões de mercado, como as chama o meu bom professor Gey Espinheira. Mais do que nunca ocorre a simbiose, apontada por Weber, entre mercado e fé, gerando o lucrativo mercado da fé. Nem preciso falar em Edir Macedo e nos bispos da Renascer.
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Assim, as denominações protestantes, mesmo as não-pentecostais, como a Batista, embarcam na onda e lucram horrores com a novo pacto. O melhor exemplo, contudo, na minha opinião, não é o sensacionalismo barato da Igreja Universal do Reino de Deus, mas o complexo padrão apresentado pelo pastor da Assembléia de Deus, Silas Malafaia.
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O pastor da ciência divina
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Na parte mercadológica, não há muita inovação. Em intervalos de suas pregações mostra diversos produtos cristãos de sua autoria e recomenda-os aos seus fiéis em troca da benção divina. “Só 10 x de R$15,90 e Deus vai te abençoar muito!”.
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O que inova é a forma como Malafaia tenta justificar cientificamente a fé. Ele rompe assim: 1) com o “padrão Igreja Universal” de buscar adeptos nas classes mais baixas e menos escolarizadas da população através de mensagem chocantes e diretas e coloca em seu lugar uma sedutora conciliação entre fé e razão que amplia sua pregação para setores escolarizados; 2) com a dicotomia entre fé e razão, típica da modernidade. Assim, sabiamente, Malafaia contorna os perigos que a expansão do ensino universitário sempre significou para a fé cristã. Claro que ele não é tão inteligente a ponto de criar a estratégia; apenas a importou dos Estados Unidos da América. Seu mérito está na competência da importação bem-sucedida. Lá na potência do norte, o poder da “ciência divina” é tão forte que já conseguiu substituir, ou ao menos conciliar, em alguns condados, o ensino da “teoria criacionista” com a teoria da evolução.
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Obviamente, contudo, a religião necessita de pressupostos metafísicos para legitimar-se interna e externamente. Esses pressupostos são eivados de consequências para o mundo civil e político. Assim, a sangrenta conquista moderna da laicização do Estado é atacada na pós-modernidade. Mas a discussão não é posta desta forma clara e unívoca. Ela é apresentada como conciliação democrática entre as duas ciências, a divina e a acadêmica, e não como substituição da ciência pelo dogma. Assim, Malafaia substitui o “acredito em Deus pela fé” por “acredito em Deus porque pode ser cientificamente provado a sua existência”. Essa suposta prova científica o leva a meter o bedelho em diversos assuntos políticos. Nada de errado, uma vez que ele detém os direitos de cidadania como qualquer brasileiro, não fosse o uso eticamente indevido de autoridade para manipular opiniões e influenciar a vida pública.
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Vamos aos exemplos. Todos eles retirados da pregação de hoje do famoso pastor “cientista” em um canal de televisão. Percebam as consequências políticas do discurso.
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Exemplo 1. Malafaia afirmou que a mulher deve ser submissa ao marido. Usou um versículo bíblico – argumento religioso – e depois citou estatísticas – argumento científico – para provar que a insubmissão da mulher é um dos principais fatores da suposta desintegração familiar contemporânea. Não reparou ele que o contraditório é marca da boa ciência. A professora Maria Gabriela Hita, por exemplo, sustenta que a família atravessa metamorfoses que a adequam ao contexto atual. Assim, não seria necessariamente uma desintegração – termo que demonstra uma defesa ideológica do padrão familiar que vem sendo substituído. Ademais, desconsidera também ideologicamente as conquistas sociais alcançadas pelas mulheres para o alcance da igual dignidade em relação aos homens.
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Exemplo 2. Malafaia condenou a rebelião às autoridades instituídas. A defesa do status quo é evidente. Isso em um país desigual e injusto como o nosso. E lembremos que rebelião não é apenas coisa de comunista. O próprio pai do liberalismo, John Locke, defendia a rebelião quando a ordem social e política se demonstrasse tirânica.
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Exemplo 3. Para Malafaia, a teoria da criação deve ser igualmente ensinada em todas as escolas. O argumento é “científico”: a teoria da evolução tem caráter especulativo. Como, para o pastor neopositivista, ciência é sinônimo de prova empírica, então a teoria da evolução é tão teoria quanto a da criação. Ambas apenas afirmam sem ter como provar. Desconhece Malafaia, que ciência, mais que prova, é método. E na ausência da primeira, deve-se usar o segundo para, processual e dedutivamente, se chegar a noções mais verossímeis da realidade. Ao contrário da teoria da criação, que tem como ponto de partida o que deveria ser ponto de chegada: a conclusão lógica de que Deus criou o mundo.
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Exemplo 4. Malafaia, para sustentar o criacionismo, disse que a Terra está localizada no único ponto do sistema solar que poderia abrigar a vida – argumento científico. Assim, a Lua está a trezentos e tantos mil quilômetros de distância da Terra. Se estivesse a oitenta, as marés inundariam os continentes. Daí concluiu que existe uma inteligência cósmica, ou seja, Deus. Não explicou, contudo, que a distância se deve à repulsa e atração simultâneas que os corpos celestes exercem entre si devido às forças gravitacionais. Como acontece com dois ímãs. Assim, tal distância pode muito bem ser fruto do acaso cósmico.
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Exemplo 5. Aqui a intervenção na área laica foi mais direta. Malafaia tentou demonstrar que a vida tem início no ato do encontro do espermatozóide com o óvulo para pregar contra a liberação de pesquisas científicas com embriões adultos inviáveis. Esta questão encontra-se em julgamento no Supremo Tribunal Federal. Tal intervenção é duplamente danosa. Primeiro, porque reveste de ciência o que deveria ser colocado como opinião fundada na fé – a qual o indivíduo tem todo o direito de abraçar. Segundo, porque visa ter alcance erga omnes, ou seja, aplicável a todos os cidadãos, concordem ou não. Ora, isso fere a liberdade básica dos indivíduos. Ninguém está dizendo que os deficientes físicos evangélicos devem ser tratados obrigatoriamente com os avanços das pesquisas em embriões. Eles que permaneçam deficientes! O que se está querendo fazer é criar a possibilidade de escolha para os deficientes que querem o tratamento. Aliás, a escolha não seria mais condizente com o livre-arbítrio cristão?
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Exemplo 6. Para finalizar o programa, Malafaia não podia deixar de apresentar sua mercadoria. Mas desta vez não se tratava de um livro sobre a fé de Jó ou coisa parecida. A mercadoria era o “Manual de Defesa da Fé”, uma obra “acadêmica e apologética”, como defendeu o pastor, para que os crentes não fiquem embaraçados com os ataques que a ciência satânica, a laica, empreendem contra os filhos de Deus. Nas palavras de Malafaia, os pais não precisam mais ficar embaraçados com os questionamentos dos seus filhos universitários. Obviamente, o objetivo é mais fortalecer a convicção dogmática dos crentes do que convencer o público das universidades. O formato do livro? O clássico das auto-ajudas: 100 perguntas e respostas. Imaginem a qualidade “acadêmica”…
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Uma das grandes virtudes da condição pós-moderna, com certeza, é acabar com o reinado absoluto da razão, supostamente monopolizada por cientistas devidamente certificados, como bem demonstrou Michel Foucault ao falar sobre o poder autoritário de quem detém o saber. Assim, a sociedade pôde respirar ares mais democráticos e experimentar novos saberes. Contudo, nada na realidade social é unilateral ou definitivo. Dessa forma, a nova atmosfera pós-positivista serviu também para a entrada vigorosa de atores religiosos na cena pública, detentores de privilégios de autoridade antes conferidos apenas à ciência positiva. Trata-se de um abuso da democratização dos saberes. O que se deve ter não é o fim da ciência, mas sim sua colocação no seu devido lugar em detrimento de sua hipertrofia social moderna. A religião, segundo Durkheim, é funcional e como tal deve ser valorizada, mas não é ciência e não deve gozar de seus privilégios. Assim como a ciência não salva a alma de ninguém, pois tal é típico das religiões. A convivência democrática de saberes não significa a intromissão de uns na arena de outros, mas a garantia de suas existências com dignidade a partir das escolhas livres dos indivíduos. Obviamente, há espaços para a reformulação daquilo que denominamos científico. Assim, conhecimentos que contrariem o mainstream científico podem vir a ser, e é bom que o sejam, reconhecidos como legítimos. Não defendo o engessamento da ciência, mas apenas a sua conformação como campo independente da realidade social, com suas regras próprias e seu regime de inclusão e exclusão, como defendido por Pierre Bourdieu. O inefável, por exemplo, é assunto muitíssimo importante para a compreensão existencial da condição humana, mas deve ser tratado por filósofos, religiosos e cidadãos comuns que o queiram fazer, mas não sob a autoridade da ciência, que serviria apenas para petrificar pontos de vistas particulares. Tal delimitação do campo científico limita-lhe a abrangência e a arrogância, reconhecendo que este é incompetente em diversas áreas do humano, e, ao mesmo tempo, evita o uso político deste por entes externos já demasiado poderosos – como a Igreja.
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Na verdade, e digo isso com tristeza, a democracia nunca foi a marca principal da civilização ocidental, mas apenas um penduricalho colocado e removido sempre que necessário para se manter os interesses dos mais fortes – laicos ou religiosos. Contra os discursos democráticos apresentam-se as histórias das ditaduras da razão moderna e, mais recentemente, da fé pós-moderna, que insuficiente para legitimar-se sozinha no mundo do Deus morto, busca fontes complementares de legitimidade, estranhas, quando não antagônias, à sua própria dogmática. Assim, o que chamei de retorno apoteótico da religião é, na verdade, o retorno de diversas religiões, onde nenhuma detém o monopólio da verdade. As religiões cristãs, que almejam sempre a hegemonia, precisam, então, de novos recursos de legitimação. A ditadura presente não é a da fé de Jó, que se bastava a si mesma, mas, sim, a da fé insuficiente, como a de São Tomé – aquele que só acreditava vendo.

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7 Respostas to “Contra a ditadura da fé insuficiente”

  1. Tiago Lorenzo Says:

    Felippe,

    Isto me lembra o livrinho “Tratado de ateologia” que li. É uma espécie de “Manifesto do partido comunista” da tal “ateologia”. De suas 200 e tantas páginas aproveita-se cerca de 5. E tudo de melhor que você pode tirar do livro talvez se encaixe em apenas uma destas páginas.
    Estou sem ele aqui agora, mas quero pegá-lo para citar a tal página aqui nos comentários. É de lá que sai talvez o que discordo de você neste texto, que é apenas uma parte mas é importante.
    Bom coelhinho de Donnie Darko.

  2. Felippe Ramos Says:

    É. Está na moda. Tipo, Deus, um delírio, de Richard Dawkins.

    Mas ao contrário dessa moda, não sou intolerante com religiosos. Apenas com fundamentalismos. Principalmente os mais perigosos, ou seja, aqueles que querem se mascarar de ciência para se legitimar. Imagine um “talibã científico”. Não seria agradável.

    Talvez se aproveite pouco desta moda, ou do meu post. Mas se aproveitarem a velha distinção moderna (e olha que para um pós-moderno, isso é uma grande concessão) entre religião e política, me darei por satisfeito.

    E que o STF aprove as pesquisas com embriões! Eis minha torcida.

  3. framos Says:

    Ah. E ainda há os exemplos do “socialismo científico” e do “nazismo científico”.

    Deus que salva, sim. Mas Deus que mata, não!

  4. Carol Says:

    Menino! Vc escreve mt! Com tanto texto da pós para ler, eu passei por aqui só pra dar uma prestigiada e fiquei assustada! Vou ver se arrumo um tempinho depois!
    Falou!
    Bjs
    Ps: adorei menino de barba q fica levantando a mão toda hora!

  5. Dimitri Says:

    O texto é inteligente, tem esse mérito. Eu também não gosto dessa confusão entre ciência e religião. Na verdade, isso já é um “derrota” da religião. Acredito que o fenômeno religioso é um fato, mais do que abundantemente documentado em toda a História. A particularidade do cristianismo é que Jesus, ao invés de fundar uma nova religião, ou apontar um caminho ou doutrina, apresentou-se como “a” religião. A grande inovação dele foi identicar a si mesmo como “o” Deus, “a” religião. E se a ciência é um método, a fé também o é. A fé é um método de conhecimento indireto, que todos usam, mesmos os que se dizem não-religiosos. Por exemplo, é a fé que usamos quando comemos o bife que nossa mãe faz, sem mandá-lo para uma análise química. Podemos conhecer a Deus e a Jesus não porque a ciência o prova, mas porque temos testemunhas (a fé é o conhecimento por meio de uma testemunha). A Igreja é a testemunha de Cristo, assim como Cristo é a testemunha do Pai. Quando o apóstolo Filipe pediu a Cristo que mostrasse a ele o Pai, ele não apelou para a ciência, mas disse: “Estou há tanto tempo com você, Filipe, e você me pede para te mostrar o Pai? Quem me vê, vê o Pai”. Penso que é isso o que falta. Admiro o papa Bento XVI, porque o que ele pede é o mesmo que Cristo: que nós, cristãos, nos amemos uns aos outros. Não nos pede batalhas apologéticas, mas nos fala de amizade. Ele pensa que o mundo só voltará a ser cristão de novo, se a Igreja o for em si. E a Igreja é um mistério de amor, ou de amizade, como eu prefiro chamar. O que vai converter o mundo não é a apologética de Silas Malafaia, mas é o amor, a esperança suscitada por uma vida nova, em ato, presente. E é só isso, essa valorização da vida, que explica as posições da Igreja na defesa inalienável do bem, inclusive daqueles que são os mais fracos: os embriões, os fetos, os idosos, os estrangeiros, que a Igreja faz e continuará fazendo, apelando não para a ciência, mas para a fé: que Cristo ressuscitou e continua presente.

  6. Jean Carlo Says:

    Vou concordar com vc citando o filosofo….
    de uma olhada no meu blog depois……
    Alguém pode vir a conhecer alguma coisa acerca de Cristo a partir da História? Não. E por que não? É porque Cristo é o paradoxo, o objeto da fé e existe somente para a fé. Não se pode conhecer com certeza nada acerca dele. Só se pode crer nele. Você não pode conhecer nada acerca de Cristo a partir da História. Se alguém adquire sobre ele pouco ou muito conhecimento, isto não significa que ele seja realmente assim. A obtenção dos fatos históricos torna Cristo em alguém, exceto no que ele realmente é.
    (Kierkegaard)

  7. JoséJúnior Says:

    Gostei muito do texto!
    Provocativo, estimulante e iniciático, no sentido de apontar possibilidades de aprofundamento dessa discussão que é bem mais ampla e complexa.

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