A criança, a escola, a sociedade burguesa e o Estado moderno: quem é quem nessa história?

Ontem o Fantástico veiculou uma reportagem que mostrava uma família cujos pais retiraram os dois filhos da escola e passaram, eles mesmos, a ministrar a educação dos filhos. O argumento dos pais é de que o ensino atual nas escolas é péssimo. Processada por negligência, os pais argumentaram que seus filhos estudam seis horas por dia em casa, já falam inglês fluente e, ao prestarem vestibular para uma universidade privada, foram aprovados – inclusive o mais novo, de apenas 13 anos.
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Os pais referidos têm razão em relação ao péssimo estado da educação brasileira – tanto pública quanto privada. A vantagem desta última em relação à primeira é a preparação para o vestibular e não para a vida. Também têm razão no fato de que a educação familiar, se bem disciplinada, pode ser mais eficaz em relação ao nível de conhecimento adquirido. Mas aqui cabem algumas considerações.
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Dostoiévski – não me lembro agora se em Notas do subterrâneo ou em Crime e Castigo – deu o exemplo de um homem que foi questionado se preferia esperar a chuva passar sob um barraco ou um castelo. Respondeu imediatamente que preferia um castelo, ao que o interlocutor o questionou se não daria no mesmo, uma vez que era uma questão temporária e que o abrigo num casebre seria igualmente eficaz. Respondeu: “Sim, se vivêssemos apenas para nos abrigarmos da chuva”. A versão original apresenta algumas diferenças, mas a síntese é mesmo essa.
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Assim, devemos nos perguntar se a escola também só serve para ministrar o ensino das letras mais algumas informações adicionais. A diferença entre o ensino doméstico e o ensino exterior ao lar deve ser medido, como fizeram os pais, apenas em relação ao aprendizado imediato – cujo ápice é o uso, pelos pais, da aprovação no vestibular como prova de sua razão no processo?
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Um membro do Conselho Nacional de Educação chamou a atenção para o fato de que a escola, a partir da modernidade e ainda na pós-modernidade, tem função de fazer de um ente que traz consigo a marca indelével da família uma pessoa com individualidade própria, preparada para o mundo real repleto de relações sociais das mais próximas e afetivas às mais impessoais. A criança aprende na escola a viver em sociedade e a distinguir os diferentes campos de regras morais que existem no mundo. Assim, não se deve lidar da mesma forma com a mãe, a professora, o colega, ou a pessoa com a qual se tem apenas uma relação contratual. Não é preciso gostar do pipoqueiro para lhe comprar a pipoca.
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No clássico Raízes do Brasil, Sérgio Buarque de Holanda nos ajuda no entendimento da questão ao dizer que devido às exigências imperativas das novas condições de vida, a educação familiar deve ser apenas propedêutica (introdutória) da vida em sociedade; a criança deve ser preparada para a individualidade. Onde quer que prospere a idéia de família como valor supremo, tende a ser precária a sociedade racional e capitalista. Assim, exemplifica: “E não haveria grande exagero em dizer-se que, se os estabelecimentos de ensino superior, sobretudo os cursos jurídicos, fundados desde 1827 em São Paulo e Olinda, contribuiram largamente para a formação de homens públicos capazes, devemo-lo às possibilidades que, com isso, adquiriam numerosos adolescentes arrancados aos seus meios provinciais e rurais de viver por si, libertando-se progressivamente dos velhos laços caseiros, quase tanto quanto aos conhecimentos que ministravam as faculdades. A personalidade social do estudante, moldada em tradições acentuadamente particularistas, era forçada a ajustar-se a novas situações e a novas relações sociais que importavam na necessidade de uma revisão, por vezes radical, dos interesses, atividades, valores, sentimentos, atitudes e crenças adquiridos no convívio da família”.
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Assim, está colocada em questão até onde vai a liberdade dos indivíduos. Os pais podem educar os filhos como bem entendem ou é lícito ao Estado impor-lhes uma conduta necessária em prol da mentalidade burguesa mais condizente com a nossa conformação social? Em última instância, podemos pensar acerca da própria legitimidade do Estado e a ordem social sob a qual vivemos.
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4 Respostas to “A criança, a escola, a sociedade burguesa e o Estado moderno: quem é quem nessa história?”

  1. pedro Says:

    ñ tem muitas coisas sobre este assunto

  2. meire Says:

    R.Um n34 (19)81252079
    J.Santa Clara (19)38795896 recador
    Campinas /SP

    Meire Maria Silva Mmartins.
    data de nasimento 27/12/1974

    Objetivo Professora-Nîvel infatil ou Fundamental
    Monitora-auxiliae de sala

    Experiencia-Prefeitura de Hortolandia
    Rua Euclides Pires de Assis N 205 Remanso Campineiro Cep 13184-330
    cargo-.Estadiaria em pedagogia atuando em sala de aula.

    Formaçao- Professora infatil e fundamental
    Unip- Universidade Paulista.

    Cursos-

    -Intel Aprender -Tecnologia e comunidade.Fundação Bradesco
    -Libras de Lingua Brasileira de sinas.
    – Formação continuada de Estagiario Ingressante na Rede Publica

  3. roberta Says:

    btrewgh

  4. Felismina Mukondola Says:

    Quere saber como estava a educaçao na sociedade burguesa

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