Guerra Fria pós-Guerra Fria e a corrida armamentista na América do Sul

O post de cima é o primeiro de uma série. Toda vez que eu for falar de algo sério, irei colocar algo engraçado antes. Assim, vocês vão pensar que o de baixo também é engraçado e vão ler até o final, ansiosos em descobrir qual a graça da merda toda. No Brasil, é preciso ter estratégias para ser ouvido quando o assunto é sério. Tinha pensado em falar até do BBB, mas aí seria apelação demais. Mas a estratégia seria brilhante, uma vez que há dezenas de blogs de fofocas sobre o BBB e todos são bem visitados. Enfim.

O caso do menino Emanoel foi mais complicado de entender. A crise atual pode ser explicada rapidinho.

A América Latina vive uma guinada à esquerda (com variações do centro à extrema esquerda) desde 1998. Chávez (Venezuela), Morales (Bolívia) e Correa (Equador) formam o bloco mais radical, ou seja, nacionalista, populista e anti-americanista. Lula (Brasil), Nestór e Christina Kirchnér (Argentina) e Bachelét (Chile) formam o bloco moderado, misturando elementos social-democratas, populistas, desenvolvimentistas e neoliberais.

Nesse cenário, o Brasil, tradicionalmente o país mais influente e com maior inserção internacional da América do Sul, foi ofuscado pela guinada andina. Os conflitos entre Chávez e Uribe (neoliberal norte-americanista da Colômbia) se acirraram desde o momento em que o primeiro passou a ter boas relações com a guerrilha das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC-EP). O discurso fanfarrão e as intromissões de Chávez, como no caso das negociações para resgate de duas sequestradas pelas FARC-EP, levou o pacato – mas politicamente feroz – Uribe a aprofundar o poder de fogo da Colômbia através de alianças militares com os Estados Unidos, o que já vinha ocorrendo desde o início do Plano Colômbia. Mas Chávez não ficou para trás e, uma vez que os Estados Unidos se recusaram a vender-lhe armas, buscou o mercado bélico russo. Assim, os Andes estão presenciando uma corrida armamentista em uma atípica Guerra Fria pós-Guerra Fria. Isso afeta diretamente os interesses brasileiros, uma vez que o país não almeja aumentar gastos em armamentos por não apresentar anseios belicosos, mas, simultaneamente, não pretende perder o posto de maior poder bélico da América Latina – o que lhe permite buscar a tão sonhada cadeira permanente no Conselho de Segurança da ONU.

O estopim da crise, dessa vez mais sério, foi a incursão militar colombiana em território equatoriano para atacar guerrilheiros das FARC-EP que haviam cruzado a fronteira. Correa foi fulminante: chamou Uribe de mentiroso, cortou relações diplomáticas e destacou as Forças Armadas para fecharem a fronteira com a Colômbia. Chávez logo aproveitou e fez o mesmo, fechando a Colômbia em duas frentes de movimentações militares. Ainda por cima, chegou a mencionar a possibilidade da guerra.

Os jornais do mundo todo estamparam a crise diplomática sul-americana em primeira página. Alguns chefes de governo e de Estado se manifestaram. Por sua vez, as diplomacias brasileira, argentina e chilena (os três países mais importantes e politicamente pacificados no subcontinente) se demonstraram tímidas e a iniciativa permaneceu nas mãos de Chávez e Correa, com reação à altura de Uribe.

A Organização dos Estados Americanos (OEA), ante a inércia diplomática e a escalada militar, convocou sessão extraordinária e de urgência. Esta reunião irá demonstrar claramente o papel dos litigiosos, das diplomacias neutras (Brasil, Argentina e Chile) e, principalmente, as intenções norte-americanas frente à crise. Uma possibilidade é que os Estados Unidos queiram repassar a liderança do processo conciliatório ao Brasil, uma vez estarem atolados no Afeganistão e no Iraque e pelo fato do Brasil já ter mostrado ser uma boa alternativa, como no caso do Haiti. O presidente haitiano Jean-Bertrand Aristide foi derrubado com aval norte-americano, após o que a ONU ocupou “humanitariamente” o país, com o Brasil liderando as tropas. Se essa iniciativa norte-americana se concretizar antes do Brasil mostrar interesse em encabeçar as negociações, os governos mais esquerdistas (Chávez, Correa, Morales) podem acusá-lo de subordinação ao Império e rejeitar-lhe legitimidade para conduzir as negociações. Assim, o discurso moderado demais do chanceler brasileiro Celso Amorim pode ter sido uma tática equivocada. A meu ver, ele deveria ter sido mais propositivo, sugerindo um encontro dos chanceleres do Equador e da Colômbia em Brasília, isolando Chávez e colocando a diplomacia brasileira em destaque. O isolamento de Chávez se justifica pelo fato da Venezuela não ter sido diretamente envolvida no conflito original e, ademais, por ter representado um papel belicista ao invés de conciliador.

Uma guerra ou uma corrida armamentista não interessam à comunidade sul-americana, uma vez que desviam vultosos recursos numa região que, aos trancos e barrancos, vem recuperando a capacidade estatal de intervir na vida social, o que se convencionou chamar de pós-Consenso de Washington. Melhor seria a ampliação do crédito no âmbito do Banco do Sul, o fortalecimento do Mercosul em detrimento de tratados bilaterais com os Estados Unidos e a vitória democrática do povo colombiano sobre o governo de Uribe, sem intervenções externas e respeitando o princípio da não-ingerência. O próprio Morales tem reclamado das ligações dos separatistas da rica província de Santa Cruz com agentes norte-americanos. Não seria legal se a esquerda fizesse o mesmo e acreditasse na capacidade de cada povo responder às suas necessidades sociais, econômicas e políticas?

É bom ficar de olho. O jogo de War começou e nem todos os jogadores têm a mesma chance. No War real, a sorte não se decide nos dados.

 

“A crise atual pode ser explicada rapidinho.” Realmente, eu menti. Admito. O post não tem graça e não é artístico, eu sei. Mas é importante… Mas alguém se importa com coisas importantes?

 

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