Archive for março \31\UTC 2008

Maio de 68

março 31, 2008
Em 2008, comemoram-se os 40 anos do Maio de 68. Em breve este blog apresentará uma novidade bem legal sobre isso. Aguardem. Por enquanto, fiquem com algumas frases, grafites e pensamentos que marcaram os eventos.
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“Unbutton your imagination as often as your zipper!”
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” Je suis Marxiste, tendence Groucho.”
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“It’s forbidden to forbid!”
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“Soyez réalistes, demandez l’impossible!”
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“Sous le pavé, la plage.”
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“Vivre sans temps mort, jouir sans entraves.”
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“Decretamos estado de felicidade permanente!”
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“Sexo anal para derrotar o capital!”
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Eu, do meu lado, compartilho todos estes sonhos. E simultaneamente concordo com Baud:
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“Na representação imaginária, as massas flutuam em algum ponto entre a passividade e a espontaneidade selvagem, mas sempre como uma energia potencial, como um estoque de social e de energia social, hoje referente mudo, amanhã protagonista da história, quando elas tomarão a palavra e deixarão de ser a “maioria silenciosa” – ora, justamente as massas não têm história a escrever, nem passado, nem futuro, elas não têm energias virtuais para liberar, nem desejo a realizar: sua força é atual, toda ela está aqui, e é a do seu silêncio. Força de absorção e de neutralização, desde já superior a todas as que se exercem sobre elas. Força de inércia especifica, cuja eficácia é diferente da de todos os esquemas de produção, de irradiação e de expansão sobre os quais funciona nosso imaginário, incluindo a vontade de destruí-los.”
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Jean Baudrillard, em À sombra das maiorias silenciosas: o fim do social e o surgimento das massas.
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Sabem como é: teimo em fazer minhas as palavras de Gramsci:
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“É preciso combinar o pessimismo da razão com o otimismo da vontade”.
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Saibam!

março 30, 2008
Fico impressionado com o Arnaldo Antunes. Como uma das piores vozes do Brasil pode ser tão maravilhoso músico-poeta, inclusive cantando?
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Na música Saiba, ele aborda a condição humana de forma inteligente, profunda e extremamente simples. As rimas diretas exibem a igualdade inata de indivíduos tão díspares entre si como Nietzsche, Simone de Beauvoir e Fernandinho Beira-Mar, o que não os impedem de construirem trajetórias que os distanciem durante suas existências singulares – abstraindo-se, claro, o anacronismo proposital do autor. No entanto, a dignidade – tão orgulhosamente defendida pelos que supostamente a detém nos meios mais elevados da sociedade – é extremamente efêmera. “Saiba: todo mundo vai morrer!” No fim das contas, podemos pensar naquilo que Schopenhauer chamava de “angústia”: a criança que fomos, o medo que sentimos, aquilo que nos tornamos – a máscara que gruda na cara – sem ter total controle ou mesmo consciência. Sim, “todo mundo foi neném”. E o que a sociedade fez de nós? Ou, pensando como Sartre, o que fizemos de nós mesmos? “Eu e você”. Oh, Maggie, what have we done? – como cantava o Pink Floyd…
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Aqui vocês podem ler a letra da música poesia.

Nietzsche está morto

março 30, 2008
Esse vídeo é um clássico. Superprodução brasileira muito bem cotada no YouTube. Tive a honra de ser co-produtor, co-diretor, figurinista e ator. Sou aquele com a camisa do Vasco. O vídeo aborda temas filosóficos de forma fantástica. Imperdível!

Um céu para os pecadores

março 28, 2008

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Free Tibet

março 28, 2008

Vejam um bom site para ter a versão dos próprios tibetanos acerca dos conflitos no Tibet. É do grupo Students for a free Tibet.

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E já que estamos falando de Direitos Humanos, vejam um evento legal em Salvador.

Provocação

março 27, 2008
Uma frase, de autoria do pequeno Teo, segundo Yoani Sánchez, citada post abaixo, me fez pensar acerca da relação entre liberdade e poder:
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“Entonces, ustedes siguen libres porque son un poco cobardes”.
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Não costumamos pensar muito nisso, acostumados que estamos a pensar que somos livres. A situação política de Cuba, bem como de qualquer país que viva sob regime de força e restritivo, não deixa espaço para ilusões do tipo. Mas mesmo sob a nossa democracia formal, não seria interessante oportuno pensarmos se não somos apenas covardes?

Mais sobre Cuba, direto da fonte

março 27, 2008
Eu já tinha emitido a minha opinião sobre a saída de Fidel. Como sou brasileiro, acho que é suficiente. Mas há outras fontes, diretamente cubanas, para se entender criticamente a situação da ilha. E não estou falando do Granma (que, engraçadamente, é .cu).
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Estou falando do blog de Yoani Sánchez, o Generacion Y, que trata de assuntos do cotidiano dos habitantes da ilha, com seus sonhos e frustrações.
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Há também outro interessante, dentre outros, que trata da situação da internet e da censura em Cuba: o Potro Salvaje.
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Os dois endereços estão disponíveis em meu blogroll, ali à direita ó.

CineLabmundo

março 25, 2008
Na próxima sexta (28/03), às 15h, o Labmundo – grupo de pesquisa da UFBA na área de Relações Internacionais e do qual sou membro – dará início às atividades do CineLabmundo. Trata-se de uma iniciativa com o intuito de promover o debate acadêmico na área das Relações Internacionais através da apreciação da sétima arte – o cinema. A première do Cine contará com a exibição do filme “Syriana”, seguido de debate acerca da temática “Atores e poderes na política mundial hoje”.

Para maiores informações, visitem o blog do Cine.

Contra a ditadura da fé insuficiente

março 22, 2008
Desde o século XIX, Nietzsche dizia que Deus morreu. Porém, desde Jesus Cristo conhecemos a capacidade de ressurreição dos entes divinos. Assim, a pós-modernidade assiste ao retorno apoteótico da religião, após amplo combate a esta por parte das forças burguesas (liberais) e proletárias (socialistas) da modernidade iluminista – todos conhecem a formulação de Karl Marx, segundo a qual a religião é o “ópio do povo”.
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Contudo, se a Igreja Católica representa um pé no passado feudal devido a seus dogmas e ritos, as igrejas protestantes, por sua vez, têm os dois pés no presente. Também é famosa a construção teórica de Max Weber, segundo a qual a ética protestante contribuiu de forma decisiva para a conformação do espírito capitalista, devido a sua defesa do livre-arbítrio, do lucro e da acumulação, bem como da possibilidade adaptativa devido à descentralização. Tal capacidade de adaptação é tão forte que chegou-se a criar uma denominação protestante de Estado: a Igreja Anglicana, na Inglaterra. Assim, as denominações protestantes são forças do status quo, e, devido a isso, bem aceitas nos centros do capitalismo mundial, vide o exemplo dos Estados Unidos da América. Ademais, o neoconservadorismo neoliberal convive bem com as teses protestantes, em um amplo pacto conservador no mundo atual. Trata-se de um pacto utilitário, no mais das vezes, que visa manter a hegemonia das forças de mercado no mundo. Os ateus e agnósticos acabaram tendendo perigosamente à esquerda do espectro político, segundo as análises conservadoras.
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A ditadura da razão foi a marca da modernidade (e mais, do processo de modernização). O iluminismo e seu ápice, o positivismo, tentaram matar Deus através da ciência. Hoje, contudo, é a ditadura da fé que luta para ser a marca da pós-modernidade. Ressurgem as religiões e não só as ocidentais. Há uma corrida ao orientalismo, ao budismo, hare krishna, etc. O espiritismo cresce. Por sua vez, a Igreja Católica oscila entre tentativas de reforma que a aproximem do imaginário contemporâneo e ofensivas retrógradas que a mantenha coesa e fiel à sua tradição. Mas o fenômeno maior, sem dúvida, é a expansão das religiões de mercado, como as chama o meu bom professor Gey Espinheira. Mais do que nunca ocorre a simbiose, apontada por Weber, entre mercado e fé, gerando o lucrativo mercado da fé. Nem preciso falar em Edir Macedo e nos bispos da Renascer.
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Assim, as denominações protestantes, mesmo as não-pentecostais, como a Batista, embarcam na onda e lucram horrores com a novo pacto. O melhor exemplo, contudo, na minha opinião, não é o sensacionalismo barato da Igreja Universal do Reino de Deus, mas o complexo padrão apresentado pelo pastor da Assembléia de Deus, Silas Malafaia.
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O pastor da ciência divina
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Na parte mercadológica, não há muita inovação. Em intervalos de suas pregações mostra diversos produtos cristãos de sua autoria e recomenda-os aos seus fiéis em troca da benção divina. “Só 10 x de R$15,90 e Deus vai te abençoar muito!”.
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O que inova é a forma como Malafaia tenta justificar cientificamente a fé. Ele rompe assim: 1) com o “padrão Igreja Universal” de buscar adeptos nas classes mais baixas e menos escolarizadas da população através de mensagem chocantes e diretas e coloca em seu lugar uma sedutora conciliação entre fé e razão que amplia sua pregação para setores escolarizados; 2) com a dicotomia entre fé e razão, típica da modernidade. Assim, sabiamente, Malafaia contorna os perigos que a expansão do ensino universitário sempre significou para a fé cristã. Claro que ele não é tão inteligente a ponto de criar a estratégia; apenas a importou dos Estados Unidos da América. Seu mérito está na competência da importação bem-sucedida. Lá na potência do norte, o poder da “ciência divina” é tão forte que já conseguiu substituir, ou ao menos conciliar, em alguns condados, o ensino da “teoria criacionista” com a teoria da evolução.
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Obviamente, contudo, a religião necessita de pressupostos metafísicos para legitimar-se interna e externamente. Esses pressupostos são eivados de consequências para o mundo civil e político. Assim, a sangrenta conquista moderna da laicização do Estado é atacada na pós-modernidade. Mas a discussão não é posta desta forma clara e unívoca. Ela é apresentada como conciliação democrática entre as duas ciências, a divina e a acadêmica, e não como substituição da ciência pelo dogma. Assim, Malafaia substitui o “acredito em Deus pela fé” por “acredito em Deus porque pode ser cientificamente provado a sua existência”. Essa suposta prova científica o leva a meter o bedelho em diversos assuntos políticos. Nada de errado, uma vez que ele detém os direitos de cidadania como qualquer brasileiro, não fosse o uso eticamente indevido de autoridade para manipular opiniões e influenciar a vida pública.
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Vamos aos exemplos. Todos eles retirados da pregação de hoje do famoso pastor “cientista” em um canal de televisão. Percebam as consequências políticas do discurso.
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Exemplo 1. Malafaia afirmou que a mulher deve ser submissa ao marido. Usou um versículo bíblico – argumento religioso – e depois citou estatísticas – argumento científico – para provar que a insubmissão da mulher é um dos principais fatores da suposta desintegração familiar contemporânea. Não reparou ele que o contraditório é marca da boa ciência. A professora Maria Gabriela Hita, por exemplo, sustenta que a família atravessa metamorfoses que a adequam ao contexto atual. Assim, não seria necessariamente uma desintegração – termo que demonstra uma defesa ideológica do padrão familiar que vem sendo substituído. Ademais, desconsidera também ideologicamente as conquistas sociais alcançadas pelas mulheres para o alcance da igual dignidade em relação aos homens.
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Exemplo 2. Malafaia condenou a rebelião às autoridades instituídas. A defesa do status quo é evidente. Isso em um país desigual e injusto como o nosso. E lembremos que rebelião não é apenas coisa de comunista. O próprio pai do liberalismo, John Locke, defendia a rebelião quando a ordem social e política se demonstrasse tirânica.
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Exemplo 3. Para Malafaia, a teoria da criação deve ser igualmente ensinada em todas as escolas. O argumento é “científico”: a teoria da evolução tem caráter especulativo. Como, para o pastor neopositivista, ciência é sinônimo de prova empírica, então a teoria da evolução é tão teoria quanto a da criação. Ambas apenas afirmam sem ter como provar. Desconhece Malafaia, que ciência, mais que prova, é método. E na ausência da primeira, deve-se usar o segundo para, processual e dedutivamente, se chegar a noções mais verossímeis da realidade. Ao contrário da teoria da criação, que tem como ponto de partida o que deveria ser ponto de chegada: a conclusão lógica de que Deus criou o mundo.
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Exemplo 4. Malafaia, para sustentar o criacionismo, disse que a Terra está localizada no único ponto do sistema solar que poderia abrigar a vida – argumento científico. Assim, a Lua está a trezentos e tantos mil quilômetros de distância da Terra. Se estivesse a oitenta, as marés inundariam os continentes. Daí concluiu que existe uma inteligência cósmica, ou seja, Deus. Não explicou, contudo, que a distância se deve à repulsa e atração simultâneas que os corpos celestes exercem entre si devido às forças gravitacionais. Como acontece com dois ímãs. Assim, tal distância pode muito bem ser fruto do acaso cósmico.
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Exemplo 5. Aqui a intervenção na área laica foi mais direta. Malafaia tentou demonstrar que a vida tem início no ato do encontro do espermatozóide com o óvulo para pregar contra a liberação de pesquisas científicas com embriões adultos inviáveis. Esta questão encontra-se em julgamento no Supremo Tribunal Federal. Tal intervenção é duplamente danosa. Primeiro, porque reveste de ciência o que deveria ser colocado como opinião fundada na fé – a qual o indivíduo tem todo o direito de abraçar. Segundo, porque visa ter alcance erga omnes, ou seja, aplicável a todos os cidadãos, concordem ou não. Ora, isso fere a liberdade básica dos indivíduos. Ninguém está dizendo que os deficientes físicos evangélicos devem ser tratados obrigatoriamente com os avanços das pesquisas em embriões. Eles que permaneçam deficientes! O que se está querendo fazer é criar a possibilidade de escolha para os deficientes que querem o tratamento. Aliás, a escolha não seria mais condizente com o livre-arbítrio cristão?
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Exemplo 6. Para finalizar o programa, Malafaia não podia deixar de apresentar sua mercadoria. Mas desta vez não se tratava de um livro sobre a fé de Jó ou coisa parecida. A mercadoria era o “Manual de Defesa da Fé”, uma obra “acadêmica e apologética”, como defendeu o pastor, para que os crentes não fiquem embaraçados com os ataques que a ciência satânica, a laica, empreendem contra os filhos de Deus. Nas palavras de Malafaia, os pais não precisam mais ficar embaraçados com os questionamentos dos seus filhos universitários. Obviamente, o objetivo é mais fortalecer a convicção dogmática dos crentes do que convencer o público das universidades. O formato do livro? O clássico das auto-ajudas: 100 perguntas e respostas. Imaginem a qualidade “acadêmica”…
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Uma das grandes virtudes da condição pós-moderna, com certeza, é acabar com o reinado absoluto da razão, supostamente monopolizada por cientistas devidamente certificados, como bem demonstrou Michel Foucault ao falar sobre o poder autoritário de quem detém o saber. Assim, a sociedade pôde respirar ares mais democráticos e experimentar novos saberes. Contudo, nada na realidade social é unilateral ou definitivo. Dessa forma, a nova atmosfera pós-positivista serviu também para a entrada vigorosa de atores religiosos na cena pública, detentores de privilégios de autoridade antes conferidos apenas à ciência positiva. Trata-se de um abuso da democratização dos saberes. O que se deve ter não é o fim da ciência, mas sim sua colocação no seu devido lugar em detrimento de sua hipertrofia social moderna. A religião, segundo Durkheim, é funcional e como tal deve ser valorizada, mas não é ciência e não deve gozar de seus privilégios. Assim como a ciência não salva a alma de ninguém, pois tal é típico das religiões. A convivência democrática de saberes não significa a intromissão de uns na arena de outros, mas a garantia de suas existências com dignidade a partir das escolhas livres dos indivíduos. Obviamente, há espaços para a reformulação daquilo que denominamos científico. Assim, conhecimentos que contrariem o mainstream científico podem vir a ser, e é bom que o sejam, reconhecidos como legítimos. Não defendo o engessamento da ciência, mas apenas a sua conformação como campo independente da realidade social, com suas regras próprias e seu regime de inclusão e exclusão, como defendido por Pierre Bourdieu. O inefável, por exemplo, é assunto muitíssimo importante para a compreensão existencial da condição humana, mas deve ser tratado por filósofos, religiosos e cidadãos comuns que o queiram fazer, mas não sob a autoridade da ciência, que serviria apenas para petrificar pontos de vistas particulares. Tal delimitação do campo científico limita-lhe a abrangência e a arrogância, reconhecendo que este é incompetente em diversas áreas do humano, e, ao mesmo tempo, evita o uso político deste por entes externos já demasiado poderosos – como a Igreja.
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Na verdade, e digo isso com tristeza, a democracia nunca foi a marca principal da civilização ocidental, mas apenas um penduricalho colocado e removido sempre que necessário para se manter os interesses dos mais fortes – laicos ou religiosos. Contra os discursos democráticos apresentam-se as histórias das ditaduras da razão moderna e, mais recentemente, da fé pós-moderna, que insuficiente para legitimar-se sozinha no mundo do Deus morto, busca fontes complementares de legitimidade, estranhas, quando não antagônias, à sua própria dogmática. Assim, o que chamei de retorno apoteótico da religião é, na verdade, o retorno de diversas religiões, onde nenhuma detém o monopólio da verdade. As religiões cristãs, que almejam sempre a hegemonia, precisam, então, de novos recursos de legitimação. A ditadura presente não é a da fé de Jó, que se bastava a si mesma, mas, sim, a da fé insuficiente, como a de São Tomé – aquele que só acreditava vendo.

A grande ilusão

março 18, 2008
Assisti um bom filme no fim de semana que passou. Trata-se do “A grande ilusão” (All the king’s men, no original), contracenado por Sean Penn, Jude Law, Kate Winslet e Anthony Hopkins, dentre outros.
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Em um tempo de totalitarismo neoliberal, cujas consequências, para Chico de Oliveira, são “a privatização do público, a destituição da fala e a anulação da política”, este filme vem na contramão e coloca a política em primeiro plano de forma primorosa. Talvez por isso tenha sido um “commercial failure, despite its strong cast, direction, and production team. Few critics endorsed it”. Leia mais aqui. Mostra a trajetória de um homem simples – um camponês – no sul subdesenvolvido dos EUA, na década de 30, desde sua iniciação na política, como um candidato laranja sem o saber, passando por seus discursos sinceros, duros e comoventes que mobilizaram a população até sua vitória e gestão, na qual é obrigado a lidar com “todos os homens do rei”, o que irá desembocar na “grande ilusão”. Nesse sentido, os títulos em português e no original são bem válidos.
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A questão que fica é: até que ponto pode um único homem com um ótimo programa político e amplo apoio popular ser bem sucedido em seus intentos sem uma base institucional sólida, ou seja, os apoios políticos e de parte das elites necessários  para a obtenção do que se convencionou, não sem viés ideológico, chamar de “governabilidade”? E o que fazer quando essa base institucional defende ferrenhamente o status quo? São os grandes dilemas da política ainda hoje, o que se pode verificar na conjuntura da América Latina. Parece que certo mesmo estava Montesquieu, quando dizia que um povo só pode ter o melhor governo que é capaz de suportar.
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A história do filme foi adaptada do livro All the king’s men, de Robert Penn Warren, que, por sua vez, é baseado na história de Huey Long.
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Assistam o trailer.

Extra: grande evento em Salvador!!!

março 18, 2008
Um grande evento em Salvador!!! Isso mesmo, é inacreditável, mas real. Nomes como Michel Onfray, Philip Glass, Win Wenders, David Byrne (Talking Heads), Ayaan Ali etc. Vejam aqui.
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Mas a felicidade termina por aqui. Para ter acesso às conferências, é preciso desembolsar o preço promocional de apenas R$ 250,00 – depois de certa data irá aumentar! Obviamente, “A Braskem tem orgulho de ser uma empresa socialmente responsável” (sic!).
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A UFBA consta como “parceiro acadêmico” e será a entidade expedidora do certificado de atividade de extensão. E aí, Reitor Naomar de Almeida, cadê a Universidade Nova que, segundo propagandas, deve combater o elitismo?
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Assim, comemoramos o primeiro passo: a realização de um evento de grande porte em Salvador. O próximo passo é fazer com que isto seja acessível ao grande público – tanto em divulgação como em acesso gratuito. Continuamos honrando a tradição brasileira da transformação paulatina, controlada e sem choques – a modernização conservadora, segundo alguns sociólogos. Seria querer demais ter, de repente, em Salvador, um evento interessante e, ainda por cima, gratuito, ou, ao menos, acessível às condições econômicas da maior parte da população.
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Por enquanto, fica, para mim, aquele som, bem conhecido do brasileiro: “aaaaaaahhh”. Mais uma vez, foi quase.

Uma esmola, pelo amor de Deus…

março 18, 2008
Um garoto de cerca de dez anos de idade foi suficiente para driblar o mega esquema de segurança da Secretária de Estado norte-americana, Condoleezza Rice. Durante visita ao Pelourinho, o garoto surgiu do nada ao lado do carro da poderosa e, em italiano, pediu um real para “manjare“!
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Menino pede à Condi um real para manjare; ela não deu.
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Com isso, o menino ficou famoso por dois motivos:
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1 – Mostrou que é melhor Condi pensar bem antes de ir ao Iraque, tendo em vista a competência de seus guarda-costas;
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2 – Mostrou que a realidade sempre bate à porta e que, ao vir ao Brasil, ela não vai lidar apenas com figuras ilustres como Lula, Wagner e Carlinhos Brown.