O apanhador no campo de centeio

Recomendo a leitura deste magnífico livro. Sempre tive vontade de ler, mas consegui apenas na internet, o que me dava desânimo e preguiça. Aí o vi por acaso dando sopa na casa de um amigo meu. Pronto. Li em duas sentadas.

O estilo é único. Apresenta uma linguagem coloquial e adolescente que soa natural e flui com facilidade. O tema é ótimo: a narrativa, pela personagem principal, de suas visões acerca do mundo. A personagem: Holden Scaufield – um garoto menor de idade expulso do colégio e cheio de distúrbios. Mas até o autor, J. D. Salinger, tem seus distúrbios.

Sociologicamente, poderíamos dizer que a personagem se rebela contra o interacionismo simbólico, ou seja, contra as máscaras e papéis que temos que usar ou desempenhar para mantermos um bom nível de convivência em sociedade. Para a abordagem interacionista, con-viver é sinônimo de viver mascarado, no sentido de que sempre estamos querendo controlar as impressões que os outros têm de nós mesmos. Isso gera uma moral que dá forma ao convívio social e nos diz aquilo que podemos e aquilo que não podemos fazer frente ao outro. É uma bem nobre forma de hipocrisia – sabemos como destruir a máscara tão cara do outro, mas sabemos também que nunca poderemos fazê-lo. A não ser que se esteja disposto a pagar o preço. E este tende a ser caro. A sociedade não perdoa aqueles que tramam contra os princípios basilares de sua estrutura.

Para vocês ficarem com água na boca e correrem para procurar o livro na rede ou com algum amigo safado que o tem, mas não leu, seguem pequenos trechos do capítulo 12:

“- Que maravilhoso encontrar com você! – ela falou. Puro fingimento. – Como vai teu irmão? – perguntou. Era só isso que ela queria saber.

(…)

– Você está sozinho meu querido? – a safada da Lillian perguntou. Ela estava interrompendo a droga do trãnsito todo na passagem. A gente via logo que ela gostava um bocado de parar o trânsito. Tinha um garçon esperando que ela saísse da frente, mas ela nem reparou no sujeito. Era engraçado. Estava na cara que o garçon não gostava dela e que nem o cara da Marinha gostava muito dela, embora estivesse saindo com ela. E eu não gostava muito dela. Ninguém gostava. De certa maneira a gente tinha que sentir pena da infeliz.

(…)

– Holden, vem sentar conosco. Traz o teu drinque.

– Não, obrigado. Já estava saindo – respondi. – Tenho um encontro marcado.

(…)

Aí foi embora. O cara da Marinha e eu dissemos que tinha sido um prazer conhecer um ao outro. Esse é um troço que me deixa maluco. Estou sempre dizendo: “Muito prazer em conhecê-lo” para alguém que não tenho nenhum prazer em conhecer. Mas a gente tem que fazer essas coisas para seguir vivendo.

Depois que eu disse a ela que tinha um encontro marcado, não podia mesmo fazer droga nenhuma senão sair. Nem podia ficar por lá para ouvir o Ernie tocar alguma coisa minimamente decente. Mas não ia de jeito nenhum sentar numa mesa com Lillian Simmons e com aquele cara da Marinha e morrer de chateação. Por isso saí. Mas fiquei danado quando apanhei meu sobretudo. As pessoas estão sempre atrapalhando a vida da gente.”

Tags: , , , ,

6 Respostas to “O apanhador no campo de centeio”

  1. Larissa Says:

    Li há algum tempo atrás. Achei bom, mas não tããããão bom assim. Talvez tenha lido na epoca errada.

  2. Marcella Says:

    Amo esse livro. É um dos meus preferidos.

  3. Questão de direito « Tempos Pós-Modernos Says:

    […] às mãos, fui ao fundo do automóvel e bebi a água e o café que me esperavam pacientemente. “As pessoas estão sempre atrapalhando a vida de gente”, como li num dos poucos livros cuja mensagem foi […]

  4. Isa Says:

    De-tes-tei ler esse post porque me deu muita vontade de ler o livro. rs

  5. Tatiana Padilha Says:

    Catcher in the Rye é um livro maravilhoso, que fala sobre as experiências de um adolescente que se nega a aceitar as hipocrisias alheias e quem tem uma ampla visão sobre os que o rodeiam, por isso ele fala o tempo todo das máscaras que a sociedade usa diariamanete já que o preço que se paga por falar o que pensa é a rejeição.
    É um livro fascinante, envolvente do começo ao fim.

  6. Agatha Says:

    meu livro preferido.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s


%d blogueiros gostam disto: