Fantasmas e Biografias

É engraçado ver como as biografias tomaram conta das livrarias. Ontem fui na Saraiva, a livraria que possui a maior variedade de livros na cidade, e reparei isso. Entre os dez mais vendidos, quatro eram biografias. Aí fui na seção de Ciência Política e encontrei a auto-biografia de FHC, a biografia de Roberto Marinho escrita imparcialmente por seu colega Pedro Bial e as biografias de Barack Obama e Hillary Clinton, além, obviamente, das clássicas: Che, Fidel, Mao, Hitler, Stálin, Trotski, Churchill, Roosevelt etc – essas nunca saem de moda e nos fazem reviver a Guerra Fria. Na parte de Sociologia havia a biografia de Weber e a de Gramsci. E nas prateleiras mais disputadas – as de auto-ajuda – havia biografias de dezenas de pessoas que se deram bem na vida vendendo hambúrgueres ou coisas que o valham. Havia também, é claro, Meu nome não é Johnny.

Foi aí que lembrei do Bauman.  Ele disse, no livro Modernidade Líquida, que vivemos uma época biográfica com ausência de biografias. Ou seja, valoriza-se o indivíduo no exato momento em que ele perdeu a capacidade de construtir autonomamente sua própria trajetória dotada de significado. Se o 1984 de Orwell acertou ou não, pouco importa agora.  O que interessa é que os indivíduos-atomizados querem abraçar pessoas que têm (ou parecem ter) biografias. Buscam encontrar um enredo que sirva para, a partir de elementos deles, eles mesmos narrarem as próprias vidas. Aquilo que Guy Debord chamou de espetáculo vem se aprofundando. Já estamos a viver uma época holo-bio-gráfica. Somos fantasmas de nós mesmos?

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