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As pessoas estão sempre atrapalhando a vida da gente

fevereiro 28, 2008

Em post anterior, disponibilizei trechos do livro O apanhador no campo de centeio. A frase que encerrou o post foi a seguinte:

“As pessoas estão sempre atrapalhando a vida da gente”.

Merece umas considerações a mais.

O ser humano é um animal social. Mas também político, conforme Aristóteles, o que implica interesses, conflito e identidade. Nesse sentido, quando constituímos nossas identidades ao longo dos cotidianos (e o plural aqui é válido), constituímos um sistema de gostos e desgostos – coisas e pessoas que apreciamos e as que repudiamos. Cada pessoa tem o seu próprio sistema e, assim, cada pessoa diferencia-se das outras todas. Mas a diplomacia social nos faz con-viver (viver com) as diferenças dos outros e evitamos o rompimento pela dor moral que ele nos traria. A personagem do livro não estava imune à isso. Por ser uma narração em primeira pessoa, o desabafo é, na verdade, intimista e não significa um diálogo público. De fato, vivemos pensando coisas sobre outras pessoas as quais não poderíamos nem teríamos a coragem de dizer em público, mesmo à amigos próximos ou ao padre do confessionário.

Sim, Durkheim estava certo ao dizer que precisamos organicamente dos outros. Mas há o elemento interessado mesmo dentro da moral. Não rompemos a diplomacia social com as pessoas que “vivem atrapalhando a vida da gente” para evitar abalos maiores em nossa forma cotidiana de lidar com a vida.

O declínio da esquerda tradicional e o futuro da Contestação Crítica – comentários a partir da saída de Fidel

fevereiro 23, 2008
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A expressão “declínio da esquerda” pode remeter à falsa impressão de que o início desse processo se deu a partir da queda do Muro de Berlim e da dissolução da União Soviética. Na verdade, a esquerda começou a se desintegrar a partir da própria ascensão do stalinismo. A partir daí, as correntes socialistas se viram às voltas com uma Realpolitik empobrecedora e castrante da criatividade filosófica e cultural que necessariamente devem acompanhar um movimento de contestação. Ademais, o stalinismo significou o fim do “movimento” leninista em nome de uma institucionalização brutal do socialismo meramente “científico”. A “ciência” falou mais alto que os demais aspectos da realidade social. E olha que Gramsci já tinha falado que era preciso haver liberdade no socialismo e na revolução e que a cultura era tão importante quanto o Partido e as “determinações econômicas”. Weber ia dizer a mesma coisa, mas pelo lado capitalista da Guerra Fria intelectual. Ninguém deu bola pro coitado do Gramsci, acusado de revisionismo, que morreu sozinho e triste no cárcere.
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A partir daí, o socialismo (marxismo-leninismo, maoísmo, trotskismo) significou Realpolitik, ou seja, a resposta clara e pronta contra o sistema capitalista que precisava ser combatido. A poesia, o cinema, a literatura, a “teoria” tinham que ser “engajadas” no pior significado que o termo pode assumir: pré-prontos, enlatados, manipulados, sem sal e sabor estético algum. Desde as cavernas os seres humanos são estéticos, o que se prova pelas pinturas rupestres. O capitalismo soube usar essa necessidade humana ao extremo, engendrando a sociedade do espetáculo. O socialismo, por sua vez, quis abafar a estética em nome da revolução. Quando, na verdade, a revolução precisava ser, ela mesma, também estética. De que adiantaria o socialismo, se não fosse belo? Não por acaso, as massas fugiam da Alemanha Oriental rumo à zona de prosperidade capitalista no lado Ocidental. É melhor a enganação estética do que o deserto do real.
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Lutar contra o capitalismo, contra os governos capitalistas, contra a moral burguesa, contra o pensamento acadêmico burguês, contra o prazer burguês, contras as piadas burguesas… Era muita coisa para destruir em um sistema que funcionava perfeitamente bem (no sentido funcional, não em sentido moral). E pior: tudo isso deveria ser substituído por fórmulas prontas e rígidas impostas por inteligências verticais (comitês centrais). O capitalismo era mais estimulante: pregava o self-made-man, dizia que você deveria ser dono de si, que ninguém podia lhe roubar a liberdade (ainda que efetivamente roubasse). O socialismo dizia: submeta-se à direção, seja abnegado, renegue tudo. O problema do socialismo é que se tornou um deserto de realidade extrema. Se tornou chato. Isso quando o capitalismo inventou a sociedade do ócio e do entretenimento para aproveitar e lucrar com o tempo livre conquistado pelos trabalhadores e classes médias ascendentes a partir da redução e regulamentação das jornadas de trabalho. Para os capitalistas, lazer após o trabalho. Para os socialistas, luta após o trabalho. Não era difícil prever o que a maioria escolheria. Ninguém pensou (porque não quiseram ouvir Gramsci) que se deveria aliar lazer e luta, luta e lazer.
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A culpa talvez tenha sido do gigantismo da vontade. Nunca um sistema organizador da realidade social (cidades-estado rurais-comerciais, feudalismo, capitalismo etc) foi substituído por outro de forma racional e pré-programada. Para se ter idéia, o termo capitalismo só passou a ser amplamente usado no século XIX, quando já estávamos há muito sob sua hegemonia. Não consta nos registros históricos passeatas no século XVI com slogans “Revolução Capitalista Já!”. Mas consta que os burgueses buscaram aliança e distância do Estado quando preciso fosse, consta o nascimento de um sentido burguês da vida etc, mas tudo paulatinamente, sem pressa.
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O socialismo errou por tentar ser total, o que só poderia desembocar em totalitarismo. Alocou-se autoritariamente em sistemas diretivos centralizados o monopólio da criatividade, quando esta deveria emanar livremente de todos. Tentou-se impor a resposta universal do materialismo, quando, não raro, as pessoas queriam dar risadas com uma comédia. Mas isto seria burguês ou dominação “pão e circo” do sistema. Mas não tinha que ser necessariamente assim.
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O stalinismo contaminou imperceptivelmente até seus opositores de esquerda, ao ser o crupiê, ou seja, aquele que ditava as regras do jogo de tal forma que, até para se opor, era preciso se igualar. Qualquer que fosse o tipo de marxismo abraçado, a discussão era pragmática: ganhar sindicatos, organizar passeatas, mobilizar estudantes e operários etc. Mas e a reflexão sobre a vida? E o humor? E o jovem Marx da Ideologia Alemã? Nada disso importava. A pobreza conceitual e espiritual dominou aqueles que, de início, representavam a emancipação. E eles nem perceberam. Não perceberam que suas bandeiras deixaram de empolgar. Não perceberam que já não despertavam emoções. Quando ruiu o muro de Berlim e a União Soviética, o que ruía, na verdade, eram os fantasmas de sonhos passados e os pesadelos presentes.
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Nesses últimos dias, Fidel Castro renunciou ao cargo de Comandante-em-chefe de Cuba, após 49 anos ininterruptos no poder. Não quero aqui tecer os prós e contras de seu longo governo, pois no fim das contas, acho que dá empate. Por mais que alguns exagerem na admiração do ícone. De qualquer forma, uma coisa é certa: sua saída fez bem menos barulho do que sua entrada em cena junto com Che Guevara e Camilo Cienfuegos na marcha sobre Havana em 1959.
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A saída de cena de Fidel representa o encerramento completo de um ciclo histórico de contestação baseado no socialismo “científico”. Enquanto Fidel se mantinha em cena,  a queda de Muro de Berlim e a dissolução da União Soviética pareciam incompletas. China e Vietnã já tinham se decidido por um capitalismo de Estado e a Coréia do Norte vive em um isolamento tão brutal que pouco se lembra da sua existência. Mas outros ciclos virão e espero que sejam mais abertos à filosofia (acadêmica e popular), à arte, à criatividade, à utopia em detrimento do realismo gulaguiano. Política não se pode fazer sem realismo, é verdade. Mas emancipação não se pode fazer sem sonho. É preciso que a nova contestação combine equilibradamente os dois pólos. Racionalização e subjetivação, como fala Alain Touraine. Estrutura e mundo da vida, como ensina a Sociologia pós-positivista.
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Por isso, a contestação só não basta. Não basta apenas criticar o Outro, o Mal, o Sistema, o Capital. É preciso também criticar cada tentação autoritária, cada saída fácil. Assim, a Contestação só pode, neste novo milênio, ser Crítica. Daí minha proposta da Contestação Crítica. Alguns podem ainda chamá-la de socialismo. Isso é o de menos. O que interessa é o espírito da coisa e não sua nomenclatura.
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A Contestação Crítica, por sua vez, deve ter sua casa no Clube da Política, ou seja, numa renovada Ágora que não assuste os indivíduos que deseja agregar, mas que, ao contrário, saiba inserir os elementos que cada indivíduo ou grupo valorizam e com o qual tenham identidade, respeitados os limites democráticos e do bem comum. A Contestação Crítica deve ser o substituto dos partidos centralizadores do marxismo ortodoxo, mas de forma a despontar em cada canto do globo e de formas distintas, sem a atrofia por vanguardas iluminadas. A Contestação Crítica será cada insurreição espontânea e/ou organizada contra a opressão (material e simbólica) em todos os seus moldes. O Clube da Política, por sua vez, deverá ser a vida cotidiana de cada um de nós.
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Retira-te em paz, Fidel! Lutaste bastante. Mas agora é hora de outras tentativas por outras pessoas em um novo tempo.

Entre o Pelô e Amsterdã

fevereiro 23, 2008

Quem assistiu seu Valera hoje viu uma cena muito explorada pelo “jornalista”: um casal de turistas sendo roubado na parte não restaurada do Pelourinho. O ladrão leva o colar de ouro da senhora. O roubo foi tão tranquilo e honesto que o ladrão pára e lança: “Dando bobeira, andando com corrente de ouro no Pelourinho… Aqui não é Amsterdã, não…”. Tudo filmado por um cinegrafista amador. As palavras do ladrão foram exaustivamente repetidas.

Seu Valera achou o fato um absurdo porque demonstrou a insegurança que ronda os turistas em um dos principais cartões postais da cidade do Salvador. Ele sugeriu delicadamente ao governador, dando tapas na mesa, que comprasse um colar novo na HStern e desse à infeliz.

Para seu Valera, a questão é externa: segurança dos turistas. Para o honesto ladrão, que ainda se preocupou em ser pedagógico com a turista imbecil inocente, a questão é interna, pois Amsterdã absolutamente não é aqui. Lembro que alguém da cultura já tinha dito que aqui é o Haiti.

Reflexões 1

fevereiro 23, 2008

“Acusações de racismo contra a polícia da Bahia têm sido constantes ao longo dos anos, embora se calcule que 85% dos integrantes da corporação sejam afro-descendentes”.

 Da CartaCapital

 Provoco: como se explica isso? Sintam-se à vontade para comentar.

De Vargas à Wagner

fevereiro 19, 2008

No início do governo Vargas, em 1933, Wilson Batista, famoso compositor de samba da época, redigiu a seguinte letra:

Com meu chapéu de lado, tamanco arrastando,
Lenço no pescoço, navalha no bolso
Eu passo gingando, provoco e desafio
Eu tenho orgulho de ser vadio
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Após o golpe do Estado Novo, com a implantação do regime ditatorial de Vargas em 1937, o governo investiu pesado na valorização do trabalho através do Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP), do sindicalismo oficial e pelego, da legislação trabalhista etc. A partir daí, valia mesmo prestar atenção no lema “aos amigos, pão; aos inimigos, pau”. Wilson Batista, que não era bobo nem nada, mudou o tom do samba do crioulo que não é doido. Em 1940, ele escreve:
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Quem trabalha é quem tem razão
Eu digo e não tenho medo de errar
O bonde de São januário
Leva mais um operário
Sou eu que vou trabalhar
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Muito tempo depois, besta continua sendo coelho. Na era carlista, Ivete Sangalo parou o trio Madeirada em frente ao camarote onde estavam Paulo Souto, César Borges, Antônio Imbassahy e ACM Neto e mandou aqueeeele beijo, disse que eles são lindoooos, que a Bahia está uma maravilha e os parabenizou pelo Carnaval belííííssimo. Esse ano, porém, os agraciados foram Jaques Wagner (PT) e João Henrique (PMDB), ambos opositores ao carlismo que conseguiram galgar ao poder depois de deixar claro às elites que nada mudariam.
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Quem disse que Carnaval não é momento para se pensar em política? Não é momento para a massa pensar em política! Mas essa nunca pensa em política mesmo…
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PS. Teve beijinho pra Imbassahy também, uma vez que ele perdoou as dívidas dos grandes blocos de Carnaval nos últimos dias de seu governo, já sabendo da vitória de João Henrique. Alegação: os grandes blocos de Carnaval não têm fins lucrativos.

A Justiça é cega?

fevereiro 19, 2008

Victor Nunes Leal, em seu clássico trabalho Coronelismo, enxada e voto, faz uma belíssima análise da tradição mandonista e coronelista da política nacional. Ao longo do livro, ele traz exemplos de como tal estrutura sócio-política se dá no cotidiano e como as pessoas comuns lidam e respondem a ela. Já era famosa a sabedoria popular que ele consagrou: “aos amigos, pão; aos inimigos, pau”. Mas descobri no seu trabalho, outra sentença ainda mais profunda e explicativa da desgraça nacional:

“Aos amigos, Justiça; aos inimigos, Lei.”

Essa diferenciação entre Justiça (auxílio, liberdade) e Lei (repressão, regulação, violência) é a mais clara face da Injustiça e Desigualdade que assolam o país. É como costumo dizer: a Justiça é cega, mas lê em braile. Assim, sabe reconhecer muito bem aqueles que devem ser acolhidos e aqueles que devem ser enxotados como bestas. Obviamente, as bestas tem nome: pobres e/ou negros e, às vezes, até membros da classe média. Assim, a fórmula política de sucesso poderia ser ainda mais clara:

“Tem dinheiro? Justiça!

Não tem? Lei!”

Isso explica desde o Cansei até a ausência das políticas públicas e sociais do Estado em regiões de baixa renda, onde, de quando em vez, aparece o Caveirão.

À César o que é de César, à África o que é da África

fevereiro 19, 2008

Bush prometeu capitais para a China, produtos industrializados para o Brasil etc etc.

Em visita à África hoje, prometeu milhões de mosquiteiros para combater a febre amarela e a malária. Isso mesmo: mosquiteiros… Das duas uma: ou Bush tem acordo com alguma indústria de mosquiteiro e está tentando ampliar mercados ou os mosquiteiros são usados e doados pelas associações beneficentes do nobre povo estadunidense para ajudar o continente esquecido.

Mas o que eu daria (quase) tudo pra saber é: o que Bush estava pensando enquanto participava de uma dança típica da Tanzânia? Tenho quase certeza que ele pensou: “Que selvagens! Basta uns mosquiteiros para eles dançarem…”

Mão Branca, Getúlio Vargas e Getúlio Marginal

fevereiro 18, 2008

Passei nove dias sem postar e a visitação ao blog caiu consideravelmente. Seus miseráveis! Acham que é fácil manter um blog?

Mas vamos ao que importa.

A Bahia é um estado bizarro e cheio de bizarrices. A TV local não tem jornalismo, a não ser programas sensacionalistas que exploram narcisisticamente o sofrimento e a dor humanas.

Hoje, o Se Liga, Bocão conseguiu se superar. Mostrou uma senhora de idade com úlcera nas pernas e o apresentador, o Bocão, ficou perguntando se doía e se ela acreditava na ajuda de Bocão. Só para ouvir: “Abaixo de Deus, só o Bocão!”. Aí ele perguntou se quem cuida de úlcera é ortopedista ou cirurgião plástico.

Também teve uma mãe que foi em busca de internação do filho dependente químico. Bocão demonstrou-se ainda mais ignorante. Perguntou se o rapaz ficava dando chilique, se roubava, se batia nela. E a mãe: “Não, ele é tranquilo.” Desarmou, assim, em sua simplicidade, a charlatanice televisiva. Mas Bocão insistiu: “Você cheira a mão dele? Você cheira? – e – Já pegou ele drogadão, lá, assim, aéééreoooo?” Ela disse categoricamente que não. O único problema é que ele estava devendo ao traficante e foi jurado de morte.

Depois, ou antes, o programa mostrou três assaltantes num posto policial. O repórter era o Mão Branca, figura caricata que só mostra as mãos cobertas por uma luva branca. Aí ele perguntou a um assaltante chamado Getúlio se ele sabia quem foi Getúlio Vargas. O assaltante sinalizou timidamente que não conhecia o infeliz. Mão Branca disparou sem hesitar: “Conhecer História do Brasil você não sabe, mas assaltar sabe, né?”.

Conhecer História do Brasil… Pois é. Parece que ele não conhece porque simplesmente não quis. O Timothy Mulholland não tem culpa alguma, afinal de contas, a decoração da casa do Reitor não pode ser feita a facão e os mais de 470 mil reais estão justificados. A TV também não tem culpa, que fica passando Se Liga, Bocão.

Claro que a mídia não manipula pura e simplesmente. As pessoas vão atrás desses programas sensacionalistas sabendo da exposição pública que sofrerão. Mas em um país onde o poder público e os serviços estratégicos, como a comunicação e a educação, são relegados a último plano, recorrer a líderes messiânicos pode ser a última cartada de indivíduos e grupos acometidos pelo desespero.

E que venha o povo!

O apanhador no campo de centeio

fevereiro 9, 2008

Recomendo a leitura deste magnífico livro. Sempre tive vontade de ler, mas consegui apenas na internet, o que me dava desânimo e preguiça. Aí o vi por acaso dando sopa na casa de um amigo meu. Pronto. Li em duas sentadas.

O estilo é único. Apresenta uma linguagem coloquial e adolescente que soa natural e flui com facilidade. O tema é ótimo: a narrativa, pela personagem principal, de suas visões acerca do mundo. A personagem: Holden Scaufield – um garoto menor de idade expulso do colégio e cheio de distúrbios. Mas até o autor, J. D. Salinger, tem seus distúrbios.

Sociologicamente, poderíamos dizer que a personagem se rebela contra o interacionismo simbólico, ou seja, contra as máscaras e papéis que temos que usar ou desempenhar para mantermos um bom nível de convivência em sociedade. Para a abordagem interacionista, con-viver é sinônimo de viver mascarado, no sentido de que sempre estamos querendo controlar as impressões que os outros têm de nós mesmos. Isso gera uma moral que dá forma ao convívio social e nos diz aquilo que podemos e aquilo que não podemos fazer frente ao outro. É uma bem nobre forma de hipocrisia – sabemos como destruir a máscara tão cara do outro, mas sabemos também que nunca poderemos fazê-lo. A não ser que se esteja disposto a pagar o preço. E este tende a ser caro. A sociedade não perdoa aqueles que tramam contra os princípios basilares de sua estrutura.

Para vocês ficarem com água na boca e correrem para procurar o livro na rede ou com algum amigo safado que o tem, mas não leu, seguem pequenos trechos do capítulo 12:

“- Que maravilhoso encontrar com você! – ela falou. Puro fingimento. – Como vai teu irmão? – perguntou. Era só isso que ela queria saber.

(…)

– Você está sozinho meu querido? – a safada da Lillian perguntou. Ela estava interrompendo a droga do trãnsito todo na passagem. A gente via logo que ela gostava um bocado de parar o trânsito. Tinha um garçon esperando que ela saísse da frente, mas ela nem reparou no sujeito. Era engraçado. Estava na cara que o garçon não gostava dela e que nem o cara da Marinha gostava muito dela, embora estivesse saindo com ela. E eu não gostava muito dela. Ninguém gostava. De certa maneira a gente tinha que sentir pena da infeliz.

(…)

– Holden, vem sentar conosco. Traz o teu drinque.

– Não, obrigado. Já estava saindo – respondi. – Tenho um encontro marcado.

(…)

Aí foi embora. O cara da Marinha e eu dissemos que tinha sido um prazer conhecer um ao outro. Esse é um troço que me deixa maluco. Estou sempre dizendo: “Muito prazer em conhecê-lo” para alguém que não tenho nenhum prazer em conhecer. Mas a gente tem que fazer essas coisas para seguir vivendo.

Depois que eu disse a ela que tinha um encontro marcado, não podia mesmo fazer droga nenhuma senão sair. Nem podia ficar por lá para ouvir o Ernie tocar alguma coisa minimamente decente. Mas não ia de jeito nenhum sentar numa mesa com Lillian Simmons e com aquele cara da Marinha e morrer de chateação. Por isso saí. Mas fiquei danado quando apanhei meu sobretudo. As pessoas estão sempre atrapalhando a vida da gente.”

Fantasmas e Biografias

fevereiro 7, 2008

É engraçado ver como as biografias tomaram conta das livrarias. Ontem fui na Saraiva, a livraria que possui a maior variedade de livros na cidade, e reparei isso. Entre os dez mais vendidos, quatro eram biografias. Aí fui na seção de Ciência Política e encontrei a auto-biografia de FHC, a biografia de Roberto Marinho escrita imparcialmente por seu colega Pedro Bial e as biografias de Barack Obama e Hillary Clinton, além, obviamente, das clássicas: Che, Fidel, Mao, Hitler, Stálin, Trotski, Churchill, Roosevelt etc – essas nunca saem de moda e nos fazem reviver a Guerra Fria. Na parte de Sociologia havia a biografia de Weber e a de Gramsci. E nas prateleiras mais disputadas – as de auto-ajuda – havia biografias de dezenas de pessoas que se deram bem na vida vendendo hambúrgueres ou coisas que o valham. Havia também, é claro, Meu nome não é Johnny.

Foi aí que lembrei do Bauman.  Ele disse, no livro Modernidade Líquida, que vivemos uma época biográfica com ausência de biografias. Ou seja, valoriza-se o indivíduo no exato momento em que ele perdeu a capacidade de construtir autonomamente sua própria trajetória dotada de significado. Se o 1984 de Orwell acertou ou não, pouco importa agora.  O que interessa é que os indivíduos-atomizados querem abraçar pessoas que têm (ou parecem ter) biografias. Buscam encontrar um enredo que sirva para, a partir de elementos deles, eles mesmos narrarem as próprias vidas. Aquilo que Guy Debord chamou de espetáculo vem se aprofundando. Já estamos a viver uma época holo-bio-gráfica. Somos fantasmas de nós mesmos?

Google it!

fevereiro 2, 2008

Já que é Carnaval, não dá só pra reclamar. Então vamos brincar com o Google. É coisa velha, mas talvez vocês ainda não tenham visto. Cliquem aqui.

1 – Escrevam “o maior mentiroso do Brasil” e cliquem em “estou com sorte”.

2 – Escrevam “vergonha nacional” e cliquem em “estou com sorte”.

3 – Escrevam “find chuck norris” e cliquem em “estou com sorte”.

4 – Escrevam “crack” aqui e vejam o que o Google recomenda.

Pronto. E agora vou falar bem de minha cidade querida, terra da diversidade! Axé!

Extra: revolta em Salvador!

fevereiro 2, 2008

Às vezes me sinto um autista. Ou então a imprensa exagera as coisas. Fato do qual, talvez, nem CartaCapital (única revista semanal que ainda consigo ler) consiga escapar.

É que tomei um susto ao saber por uma revista nacional que a cidade na qual moro passa por uma revolta ou rebelião social. Acho que depois que comecei a estudar Relações Internacionais deixei de me ligar às questões locais.

Talvez a CartaCapital tenha pecado por aquilo que nas Ciências Sociais dão os difíceis nomes de “falta de neutralidade axiológica”, “falta de objetividade”, “normativismo” ou “engajamento científico”. Ou seja (é uma maravilha esse negócio de “ou seja”, ou seja, uma explicação depois de algo que a gente não entende, tipo “moral da história”), passou nas páginas da revista aquilo que ela desejava que acontecesse, superdimensionando as consequências do acontecimento.

A periferia daqui não se encontra em revolta social alguma, mas sim no Carnaval, espremida entre camarotes, cordas de bloco e tropa de choque – e todos felizes para sempre…