Uma saudade nostálgica dos muros

Há cerca de um mês atrás estive em minha terra natal – Itabuna – para rever meus avós. Toda vez que vou lá, fico trancado na casa deles, fazendo-lhes companhia – o que me agrada bastante. Não costumo visitar outros parentes nem perambular pela cidade. Então, nos momentos em que não há nada para fazer (e esses momentos são muitos), fico na varanda olhando as coisas, o que me lembra aquele poema de Drummond. O ócio me faz reparar em detalhes, como a formiga que carrega um pedaço de folha que talvez tenha quatro vezes o seu peso ou na irregularidade do meio-fio – o que me levou a divagar sobre como são pintadas as faixas que dividem as pistas. Isso não tinha nada a ver com a paisagem em frente, pois a rua da casa de minha vó não tem faixa divisora. Enfim. Em determinado momento reparei em um muro de um terreno baldio. (Acho que não era terreno baldio – talvez seja os fundos de uma casa ou algo do tipo.) No muro havia uma pintura desgastada, mostrando claramente ter sido pintada há muitos anos. E em letras garrafais: RENATO COSTA 40. Era apenas mais uma pintura de muro para campanha política. Vejo essas coisas que enfeiam as cidades todos os dias. Mas esta pintura particularmente me tocou.

Meus pais nunca foram lá muito politizados, mas de uma forma ou de outra, sempre mantiveram contato com a política. Tenho uma vaga lembrança da inauguração de um grande colégio em Itabuna (eu devia ter uns seis anos) e minha mãe me levou para ver as autoridades presentes: o governador, o prefeito, o senador ACM! Fiquei emocionado e em êxtase, mesmo sem saber muito o porquê. Mas a confusão era contagiante. As pessoas estavam realmente emocionadas naquele calor de lascar – como eu não estaria?

Anos depois (eu já tinha uns doze), aconteceram eleições municipais que mexeram com a cidade. Meus pais, avós, tios, irmãos, primos, todos estavam envolvidos de corpo e alma na campanha deste tal de Renato Costa. Íamos à todos os comícios nos bairros, levávamos bandeiras e eu ficava emocionado quando ele apertava minha mão (os adultos normalmente não se importam em falar com as crianças ou fazem de modo rídiculo, tratando-as como idiotas e fazendo gracinhas sem graça). A parte que eu mais gostava era quando soltavam os fogos ao som do jingle: “é de Renato Costa, que a gente gosta, pra trabalhar em Itabuna, com mais amor”. Aquilo soava como um hino.

Dez anos depois, Itabuna continua a mesma merda coisa de sempre. Os muros sempre foram importantes para a política, desde o grande muro da China até o outro, lá em Berlim. Hoje, em tempos de espetáculo, resta-nos os muros sem graça das propagandas políticas. Ninguém sequer se preocupa em apagar as suas mensagens. Estas se propagam no vácuo enquanto o tempo – a borracha infalível – é o único preocupado em apagar lentamente a hipocrisia e o cinismo.

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2 Respostas to “Uma saudade nostálgica dos muros”

  1. Rafael Says:

    O que devemos preferir, os muros que nos prendem a coisas pré-fabricadas (é esse mesmo o termo mais apropriado,) que nos dão um norte qualquer (absurdo, castrador, – insuportavelmente – claro, racional e óbvio) ou as incertezas que nos dão uma liberdade tão absurda que acabam por nos prender no vazio?

    Evolucionismo, relativismo cultural ou relativização do relativismo? Relativizar o relativismo é voltar ao evolucionismo ou é negar os dois anteriores e construir algo novo?

    Talvez escreva algo sobre muros e incertezas, incentivado por sua reflexão. Contudo, estou sem vontade de escrever de modo fordista e continuo esquecido nas veredas sombrias de meu sofá…

  2. Fabricio Kc Says:

    a internet destruiu os muros… mas ainda é formada de pessoas, e há, sempre, quem goste de muros! Quanto a política, penso como Kurosawa: ‘não se pode mudar um país sem antes mudar o povo’ – que diremos de mudar o mundo? mas a internet é um bom começo. – A sociedade sempre conspira contra a humanidade, mas na net a sociedade É a humanidade.

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