Consertando a piada

Tem uma piada que eu gosto muito. Ela diz que se você não for socialista até os 29 anos (o limite formal da juventude), você não tem coração. Mas que se você continuar socialista após os 30, é porque não tem cérebro. Ela servia bem até a queda do Muro de Berlim. Mas ontem eu deixei de gostar dela, pois percebi que há uma inadequação para os dias atuais. Vivemos na sociedade de consumo perpassada pela cultura jovem hedonista-individualista. Tem um cara legal chamado Zygmunt Bauman – sociólogo que escreve sobre líquidos – que mostra como numa sociedade deste tipo o elemento solidário e as soluções coletivas para os problemas sociais e existenciais tendem a se dissolver no ar. Resta o indivíduo a sós no mundo. É como se a máxima popular da “farinha pouca meu pirão primeiro” passasse a ser a lógica básica de reprodução social, ao invés do que Durkheim (esse é um cara mais chatinho) apontava como a regra das sociedades: a solidariedade orgânica. Numa sociedade que perdeu seus valores (há muito Nietzsche dizia que Deus morreu), sua solidariedade, seu elemento coletivo, sua política ideológica, resta aos indivíduos atomizados a solidão. Solidão que será compensada através das companhias de objetos-mercadoria ou de companhias virtuais. Tornamo-nos, assim, os senhores absolutos da relação que podemos comprar e descartar, mas ficamos sem a possibilidade do abraço, do beijo e do carinho. E também da luta e do conflito que, afinal de contas, é melhor do que a indiferença do objeto. Aí acontece aquilo que Marx já apontava há 150 anos atrás: a reificação da mercadoria. Em outras palavras, fingimos que os objetos são seres dotados de energia vital e a mentira é tão profunda que perdemos a capacidade (e a vontade) de desmascará-las. E mesmo os que percebem que os seres não são seres preferem acreditar que são. É mais fácil viver quando vivemos de acordo com os padrões sociais. E como já não é fácil viver em uma sociedade de consumo ultra-individualista, qualquer atenuação é bem-vinda. Some-se que estamos no Brasil, onde vivemos num consumismo sem consumo, devido à baixa renda da maioria da população. O consumismo aqui é babar em frente à vitrine ou à tela da tv. Assim, eu também acabo vivendo meu consumismo particular. E vivo sonhando em como ganhar dinheiro suficiente para poder aproveitar as coisas boas que o mercado pode oferecer – como no ditado adaptado: “dinheiro não traz felicidade, mas compra o carro no qual ela vem”. Ao mesmo tempo, não abro mão de minha capacidade crítica – adoro criticar o capitalismo, o mercado, as injustiças sociais, o imperialismo. Dessa forma, o resultado é que a piada que contei no início se inverteu. Hoje podemos contá-la de outra forma. Se você é socialista antes dos 29, não tem cérebro. Se não é socialista depois dos 30, não tem coração. Assim, quero fazer a acumulação primitiva de capital que garantirá meu futuro socialista. Um dia serei como os intelectuais críticos que escrevem sobre líquidos ou precariedade do trabalho: viajarei pela França, Inglaterra, Alemanha e Itália criticando o governo neoliberal do Brasil e o imperialismo de Bush. Mas agora preciso garantir meu carro, meu celular, meu iPod, meu notebook e mais alguns utensílios – ops!, quer dizer, meus amigos.

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