Meu nome não é Johnny; é dinheiro.

Hoje assisti dois filmes. Ou foi ontem? Talvez tenha sido um hoje e outro ontem. Explico.

Eu e minha namorada aproveitamos a decadência do Aeroclube Plaza Show para curtir um cinema mais barato, mesmo estando quase sem ar condicionado (recomendo bermudas). Chegando lá, os filmes em exibição eram quase todos dublados, tipo Xuxa e os duendes, Uma família da pesada ou Um macaco muito louco. Mas tinha Meu nome não é Johnny e resolvemos ver. Começou a sessão e reparei nos patrocinadores: Banco do Brasil, BNDES, Petrobrás e Ancine (Ministério da Cultura). Fiquei indignado com o fato da Globofilmes ser patrocinada com recursos estatais. As megaempresas devem se auto-financiar. É o mínimo que podemos exigir do capitalismo. Eu, que conto as moedas da carteira, ainda estou devendo à financeira diversas prestações do computador do qual teclo estas palavras e governo algum me financia. Para a Globo, tem. Pros pequenos produtores independentes, não. Costumo elogiar o trabalho do Gil. Mas este é um tremendo ponto negativo de sua pasta: a não-ruptura com o modelo de financiamento da grande indústria cultural nacional.

Se pelo menos o filme prestasse! Mas qual! Trata-se de um péssimo moralismo classe média misturado com grandes pitadas de estereótipos toscos. Há diversas opiniões contrárias, claro. Depois de cansativa busca, encontrei uma aqui. A moral da história é a seguinte: as pessoas que cometem delitos podem ser ressocializadas. Contudo, por “pessoas” o filme entende “brancos de classe média que usam drogas”. O que parecia ser um alento para o alto índice de encarceramento no país é, na verdade, um alento às senhoras distintas mães de família que vêem seus filhinhos “se perderem”. Tragicômica as cenas na carceragem: negros estereotipados de malandros dispostos a matar por uma Coca-Cola enquanto o branco é o estranho no ninho – aquele que pode ser salvo. O branco sai da cadeia, os negros ficam. Mas que fique claro: o objetivo desta mensagem não é passar um realismo chocante; é defender a realidade atual, mas o faz de forma tosca e rudimentar. Tenho vídeos melhores no youtube. Há uma cena em que se quer passar a mensagem que surfista é maconheiro, mas faz-se isso misturando Malhação com Todo mundo em pânico. Enfim, um trash mal-feito.  Só que pela Globofilmes e com recursos públicos. O filme, claro, é copyright e todos os direitos são reservados. Recomendo (não) assistir.

Ainda bem que, ao chegar em casa, me deparo com um filme bom. A pele, com Nicole Kidman. O filme trata do despertar de uma artista, como definiu meu irmão. E o despertar vem com o rompimento de uma mulher com sua rotina enfadonha e sem sentido (ela é ajudante do marido fotógrafo, mãe, boa filha e dona de casa) através do contato com pessoas com anomalias. Ela acaba tendo um caso peculiar com uma delas – um homem que sofre de uma doença que a faz ter mais pêlos do que um urso em todo o corpo, inclusive no rosto. Um filme que retrata a bizarrice de forma angustiante, mas artisticamente surreal. Genial a idéia de mostrar como o contato totalmente naturalizado com o totalmente estranho pode ressignificar uma vida totalmente normal e, talvez por isso, totalmente estranha. Recomendo assistir.

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9 Respostas to “Meu nome não é Johnny; é dinheiro.”

  1. Larissa Says:

    Sério que o filme é assim? Assisti várias entrevistas com o cara e com Selton Melo, que é um excelente ator – diga-se de passagem -, mas não percebi essas coisas que você falou, não. Ainda não assisti, mas quero ver sim. De qualquer forma o cara foi restituído à sociedade porque não era um “bandido” no sentido feio da palavra. Ou seja, ele não era nenhum assassino que matava quem não pagava a ele, ou mandava em tudo feito um “Juvenal Antena” da vida. Que apesar de não ser bandido extorque as pessoas, em troca de proteção. Pensando bem agora, ele faz o papel do Estado, no território dele. Ah! acho que já não acho mais Juvenal Antena um bandido. Assim como eu acho que não acho o Johnny um bandido. Ele é contra-lei, mas quem não é, né? rsrsrs
    É muito ruim ver que a o Estado patrocina o capital, né? Ele devia servir exatamente como contra-peso. Pesar do nosso lado um pouquinho, ou seria melhor, aliviar do nosso lado um pouquinho? Ah! Sei lá, mas você entendeu.
    Acho que falei muito e não disse nada, mas valeu!

    beeeijo

  2. Tássia Says:

    Li uma crítica de Sylvia Colombo que também falava muito mal do filme em questão. Em algum momento a crítica dela se aproximou bastante da impressão que eu tive do filme. Ela escreve:

    “O [filme] de Mauro Lima descaradamente reúne ingredientes manjados da produção recente brasileira. Estão ali a malandragem carcerária de “Carandiru”, os horrores de uma prisão psiquiátrica de “Bicho de Sete Cabeças”, um banditismo nostálgico de “Cidade de Deus”, o encanto da violência e o “charme” do submundo urbano de filmes de Beto Brant.”

    Não vejo problema nenhum em copiar uma fórmula de sucesso, o problema é tentar copiar e errar…
    Gente, só assistindo para entender. O problema não é se inspirar em temáticas já inovadas no cinema, mas sim a superficialidade que tais temáticas serão tratadas. O filme é ôco – o que não significa que só devem ser produzidos filmes de conteúdo. Eu não veria problema nenhum se ele fosse enquadrado numa categoria de filmes como “Lisbela e o prisioneiro”, “Se eu fosse você”, “Avassaladoras”, “A grande família – o filme”, “Acquaria” e etc.
    Eu só não me conformo é que, por ser um tema “da moda” (em tempos que o Fantástico foca nos “filhinhos de papai” que atacam empregadas em ponto de ônibus ou traficam drogas), a mídia e a crítica façam do filme o acontecimento do ano.
    Não é porque é nacional, não é porque fala sobre drogas, manicômios e todas as [ fórmulas de sucesso] que temos que aplaudi-los não é? Além de ter que aturar toda a publicidade em torno do filme, teremos que aturá-lo na prateleira dos “filmes cabeças” da escassa coletânea de iguarias dignas do título?

  3. Fabricio Kc Says:

    Toda a mídia em trno do filme não se d´por conta do filme em si, mas de sua produtora e ditribuidora, que é a… Globo Filmes. Capa de época, matérias no JN, no Jornal Da Globo, no Hoje, em Ana Maria Braga, inserções no BBB etc, etc, etc….

  4. Meu nome não é Johnny; é arte? « Tempos Pós-Modernos Says:

    […] Meu nome não é Johnny; é arte? A Sala de Arte da UFBA está exibindo Meu nome não é Johnny (é dinheiro?). […]

  5. Tiago Says:

    Concordo com toda a crítica que você fez à mensagem e ao patrocínio do filme.
    Mas eu tenho uma mania estranha de separar isso com o divertimento que o filme me causa e o filme me divertiu.
    Logo, foi um filminho pipoca pra ver, sair, muchochar com a mensagem do filme e dormir.
    Se eu fosse detestar todo filme pela mensagem que ele passa seria incapaz de ver 80% dos filmes blockbusters americanos. Mas eu vejo, e não são grandes obras de arte mas me divertem.
    Ora, nada como ver Bond ajudando os americanos contra os malditos russos frios e assassinos!

  6. Felippe Ramos Says:

    Concordo plenamente, Tiago.

    Não quero dar de chato e tbm assisto filmes bobocas. Até me virei de rir com American Pie o Casamento.

    Mas além das questões sociais, morais e políticas, achei este filme péssimo.

  7. marreco Says:

    Errar é fazer bilheteria de mais de um milhão? Acertar deve ser atingir o montante de 27 recalcados que detestam a globofilme, porém assistiam ao BBB quando da tal inserção. Mensagem??? Que diabos é isso? Cinema nunca serviu pra isso…

  8. Felippe Ramos Says:

    Caro Marreco,

    Suponhamos que vc tenha toda razão quando trata de bilheterias de sucesso e motivos da existência do cinema – o que ainda é bem discutível.

    Ainda restaria a questão do financiamento. Com tantos recursos estatais, Meu nome não é Johnny é praticamente um filme público. Por que o acesso, então, deve ser restrito aos pagadores de cinema? Por que tanta raiva da pirataria se o filme já está totalmente pago e a risco zero?

  9. THE Says:

    Nossa vc deveria ter ganhado uns 1000 reais,só por ter falado desse lixo de filme. Selton merda é idiota. Cleo Pires é uma piada que não foi anunciada.

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