Um pouco de Borges, menos ainda de repetição

Ao longo da minha formação universitária, li dezenas de livros e sabia que havia algo de errado com eles. Mas os ilustres mestres e doutores insistiam em dizer que se tratava de um grande clássico sem o qual não se poderia viver. Ainda assim, acompanhava-me a impressão de que, após a décima primeira página, eu já sabia tudo que interessava. A partir de então, as mesmas idéias passavam a ser ruminadas de diferentes formas. Assim, fica mais fácil escrever em outras palavras o que já foi escrito. É uma estratégia perfeitamente compatível com o fordismo no pensamento (produzir escritos enlouquecidamente) e com a tentativa de se fazer plausível e convincente através da repetição. Nunca pude expressar tal impressão, uma vez que sou apenas um jovem e recém-formado sociólogo desempregado. Mas é sempre bom recorrer a citações dos grandes que dizem a mesma coisa que você diz, mesmo sendo pequeno. Todos passam a ouvir inquestionavelmente. Afinal, não importa o conteúdo, mas a evocação da celebridade.

Vamos ao grande, então:

“Desvario trabalhoso e empobrecedor o de compor vastos livros; o de espraiar em quinhentas páginas uma idéia cuja perfeita exposição oral cabe em poucos minutos. Melhor procedimento é simular que estes livros já existem e propor um resumo, um comentário”.

Borges, J. L. Ficções. SP: Cia das Letras, 2007 (p. 11).

 Ia dizer mais uma coisa ou outra, mas sigo a advertência de Borges, finjo que o que diria já foi dito (e deve mesmo ter sido) e deixo apenas este resumo, este comentário.

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