Chávez e Emanoel

Demorei de entender o caso Emanoel. Parecia aqueles filmes em que um menino detém poderes sobrenaturais e todos correm atrás dele, mas Steven Seagal ou Chuck Norris o salva dos algozes. Esses dias mesmo assisti um filme assim, no qual as artes marciais fantásticas de Jackie Chan se misturam com um misticismo trash e o lutador precisa salvar um garoto zen que detém o poder de distribuir a imortalidade. Mas a tv nunca dizia qual o poder sobrenatural de Emanoel que, já pelo nome, era significativo (Emanoel = Deus conosco).

Juntando cacarecos, ou seja, somando o que vi na Globo (sim, eu assisto!) com  o que li nos jornais e blogs consegui compreender do que se tratava. É que os noticiários tendem a privatizar as coisas: ao invés de discutir os programas de governo, mostram o penteado de Hillary e a avó de Obama na África. As coisas ficam ainda mais confusas e a política se transforma em fofoca da Contigo.

Na verdade, a questão central não é o menino Emanoel, mero coadjuvante de ocasião, mas, sim, as disputas entre as políticas externas de Chávez (esquerdista da Venezuela) e de Uribe (direitista da Colômbia). Após diversas mancadas (como chamar Bush de El Diablo na ONU e bravatas diversas até receber um “porque no te callas?” do rei espanhol), Chávez resolveu demonstrar algo prático: um poder de intervir em questões internacionais. Ainda mais que, neste caso específico, ele pretendia plantar duas árvores com uma única semente (tem pegado mal falar em matar coelhos – apesar de que experimentei num rodizío e adorei): atuar em favor do reconhecimento das FARC enquanto guerrilha e não grupo terrorista, aprofundando sua aura de líder das novas esquerdas revolucionárias e, simultaneamente, pôr em xeque a força de Uribe, ao realizar uma ação humanitária exitosa dentro de suas fronteiras.

 O caso é que Chávez estava negociando direto com as FARC a libertação de duas sequestradas mais um filho nascido em cativeiro (o tal Emanoel).  – Importante: a sequestrada teve filho com um guerrilheiro, mas a tv nunca mencionou estupro ou algo assim. E pode ter certeza que, fosse esse o caso, as FARC seriam rotuladas de Gulags do século XXI. Parece-me que a sequestrada flertou com um guerrilheiro. Mas a guerrilha não é a encarnação do mal? – Mas nem mesmo as FARC sabiam (ou não quiseram dizer) que Emanoel já não estava em território rebelde, mas, sim, num abrigo oficial do governo colombiano. Quando a Inteligência colombiana descobriu isso, Uribe utilizou o fato para desmascarar as FARC como trapaceiras e pôr um fim à tentativa de resgate.  Se se recusasse pura e simplesmente a colaborar, Uribe seria taxado de revanchista e unilateral. Mas as FARC arranjaram o pretexto perfeito. E Chávez ficou bancando o bobo. E Oliver Stone não filmou nada. Ponto pra Uribe.

Mas Chávez não desistiu. Pôs a Cruz Vermelha no jogo e levou a cabo o resgate das duas sequestradas. Desta vez teve êxito e os noticiários de tv do mundo todo mostraram a ligação do presidente bolivariano às libertadas e estas choravam de emoção e agradeciam à intervenção. Ponto pra Chávez.

No fim das contas, houve empate técnico. Mas a luta foi boa. E Emanoel vai reencontrar a mãe. Isso a Globo com certeza vai cobrir até enjoar os telespectadores. Quero ver a opinião de Leão Lobo.

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