Archive for janeiro \28\UTC 2008

Uma saudade nostálgica dos muros

janeiro 28, 2008

Há cerca de um mês atrás estive em minha terra natal – Itabuna – para rever meus avós. Toda vez que vou lá, fico trancado na casa deles, fazendo-lhes companhia – o que me agrada bastante. Não costumo visitar outros parentes nem perambular pela cidade. Então, nos momentos em que não há nada para fazer (e esses momentos são muitos), fico na varanda olhando as coisas, o que me lembra aquele poema de Drummond. O ócio me faz reparar em detalhes, como a formiga que carrega um pedaço de folha que talvez tenha quatro vezes o seu peso ou na irregularidade do meio-fio – o que me levou a divagar sobre como são pintadas as faixas que dividem as pistas. Isso não tinha nada a ver com a paisagem em frente, pois a rua da casa de minha vó não tem faixa divisora. Enfim. Em determinado momento reparei em um muro de um terreno baldio. (Acho que não era terreno baldio – talvez seja os fundos de uma casa ou algo do tipo.) No muro havia uma pintura desgastada, mostrando claramente ter sido pintada há muitos anos. E em letras garrafais: RENATO COSTA 40. Era apenas mais uma pintura de muro para campanha política. Vejo essas coisas que enfeiam as cidades todos os dias. Mas esta pintura particularmente me tocou.

Meus pais nunca foram lá muito politizados, mas de uma forma ou de outra, sempre mantiveram contato com a política. Tenho uma vaga lembrança da inauguração de um grande colégio em Itabuna (eu devia ter uns seis anos) e minha mãe me levou para ver as autoridades presentes: o governador, o prefeito, o senador ACM! Fiquei emocionado e em êxtase, mesmo sem saber muito o porquê. Mas a confusão era contagiante. As pessoas estavam realmente emocionadas naquele calor de lascar – como eu não estaria?

Anos depois (eu já tinha uns doze), aconteceram eleições municipais que mexeram com a cidade. Meus pais, avós, tios, irmãos, primos, todos estavam envolvidos de corpo e alma na campanha deste tal de Renato Costa. Íamos à todos os comícios nos bairros, levávamos bandeiras e eu ficava emocionado quando ele apertava minha mão (os adultos normalmente não se importam em falar com as crianças ou fazem de modo rídiculo, tratando-as como idiotas e fazendo gracinhas sem graça). A parte que eu mais gostava era quando soltavam os fogos ao som do jingle: “é de Renato Costa, que a gente gosta, pra trabalhar em Itabuna, com mais amor”. Aquilo soava como um hino.

Dez anos depois, Itabuna continua a mesma merda coisa de sempre. Os muros sempre foram importantes para a política, desde o grande muro da China até o outro, lá em Berlim. Hoje, em tempos de espetáculo, resta-nos os muros sem graça das propagandas políticas. Ninguém sequer se preocupa em apagar as suas mensagens. Estas se propagam no vácuo enquanto o tempo – a borracha infalível – é o único preocupado em apagar lentamente a hipocrisia e o cinismo.

O jornalismo imparcial da Globo

janeiro 24, 2008

A Globo vive falando que a Petrobrás patrocina o PT.

Mas não dá a mesma ênfase aos patrocínios cedidos à Globofilmes. O filme que a rede mais tem feito propaganda nos últimos tempos, Meu nome não é Johnny, por exemplo, tem patrocínio de quais empresas? Petrobrás, BNDES, Banco do Brasil, além do Minc, através da Ancine.

Me parece que o Governo Federal, seguindo a lógica da argumentação “jornalística” da Globo, está financiando a maior emissora do país e maior inimiga do Governo Lula (a Veja não conta).

Gente lúcida na Globo, só mesmo o Faustão, que chamou o BBB de “fauna humana”.

O sentido de John Cage

janeiro 22, 2008

Muita gente acha que a apresentação abaixo não tem sentido.

Basta assistir isso aqui para perceber que, não raro, é melhor calar-se.

Consertando a piada

janeiro 22, 2008
Tem uma piada que eu gosto muito. Ela diz que se você não for socialista até os 29 anos (o limite formal da juventude), você não tem coração. Mas que se você continuar socialista após os 30, é porque não tem cérebro. Ela servia bem até a queda do Muro de Berlim. Mas ontem eu deixei de gostar dela, pois percebi que há uma inadequação para os dias atuais. Vivemos na sociedade de consumo perpassada pela cultura jovem hedonista-individualista. Tem um cara legal chamado Zygmunt Bauman – sociólogo que escreve sobre líquidos – que mostra como numa sociedade deste tipo o elemento solidário e as soluções coletivas para os problemas sociais e existenciais tendem a se dissolver no ar. Resta o indivíduo a sós no mundo. É como se a máxima popular da “farinha pouca meu pirão primeiro” passasse a ser a lógica básica de reprodução social, ao invés do que Durkheim (esse é um cara mais chatinho) apontava como a regra das sociedades: a solidariedade orgânica. Numa sociedade que perdeu seus valores (há muito Nietzsche dizia que Deus morreu), sua solidariedade, seu elemento coletivo, sua política ideológica, resta aos indivíduos atomizados a solidão. Solidão que será compensada através das companhias de objetos-mercadoria ou de companhias virtuais. Tornamo-nos, assim, os senhores absolutos da relação que podemos comprar e descartar, mas ficamos sem a possibilidade do abraço, do beijo e do carinho. E também da luta e do conflito que, afinal de contas, é melhor do que a indiferença do objeto. Aí acontece aquilo que Marx já apontava há 150 anos atrás: a reificação da mercadoria. Em outras palavras, fingimos que os objetos são seres dotados de energia vital e a mentira é tão profunda que perdemos a capacidade (e a vontade) de desmascará-las. E mesmo os que percebem que os seres não são seres preferem acreditar que são. É mais fácil viver quando vivemos de acordo com os padrões sociais. E como já não é fácil viver em uma sociedade de consumo ultra-individualista, qualquer atenuação é bem-vinda. Some-se que estamos no Brasil, onde vivemos num consumismo sem consumo, devido à baixa renda da maioria da população. O consumismo aqui é babar em frente à vitrine ou à tela da tv. Assim, eu também acabo vivendo meu consumismo particular. E vivo sonhando em como ganhar dinheiro suficiente para poder aproveitar as coisas boas que o mercado pode oferecer – como no ditado adaptado: “dinheiro não traz felicidade, mas compra o carro no qual ela vem”. Ao mesmo tempo, não abro mão de minha capacidade crítica – adoro criticar o capitalismo, o mercado, as injustiças sociais, o imperialismo. Dessa forma, o resultado é que a piada que contei no início se inverteu. Hoje podemos contá-la de outra forma. Se você é socialista antes dos 29, não tem cérebro. Se não é socialista depois dos 30, não tem coração. Assim, quero fazer a acumulação primitiva de capital que garantirá meu futuro socialista. Um dia serei como os intelectuais críticos que escrevem sobre líquidos ou precariedade do trabalho: viajarei pela França, Inglaterra, Alemanha e Itália criticando o governo neoliberal do Brasil e o imperialismo de Bush. Mas agora preciso garantir meu carro, meu celular, meu iPod, meu notebook e mais alguns utensílios – ops!, quer dizer, meus amigos.

Pequenos Saberes – 2

janeiro 20, 2008

“A metafísica é uma conseqüência de não se estar bem disposto.”

 Álvaro de Campos

O mundo é grande

janeiro 19, 2008

O mundo é grande e cabe
nesta janela sobre o mar.
O mar é grande e cabe
na cama e no colchão de amar.
O amor é grande e cabe
no breve espaço de beijar.

Carlos Drummond de Andrade

Meu nome não é Johnny; é dinheiro.

janeiro 19, 2008

Hoje assisti dois filmes. Ou foi ontem? Talvez tenha sido um hoje e outro ontem. Explico.

Eu e minha namorada aproveitamos a decadência do Aeroclube Plaza Show para curtir um cinema mais barato, mesmo estando quase sem ar condicionado (recomendo bermudas). Chegando lá, os filmes em exibição eram quase todos dublados, tipo Xuxa e os duendes, Uma família da pesada ou Um macaco muito louco. Mas tinha Meu nome não é Johnny e resolvemos ver. Começou a sessão e reparei nos patrocinadores: Banco do Brasil, BNDES, Petrobrás e Ancine (Ministério da Cultura). Fiquei indignado com o fato da Globofilmes ser patrocinada com recursos estatais. As megaempresas devem se auto-financiar. É o mínimo que podemos exigir do capitalismo. Eu, que conto as moedas da carteira, ainda estou devendo à financeira diversas prestações do computador do qual teclo estas palavras e governo algum me financia. Para a Globo, tem. Pros pequenos produtores independentes, não. Costumo elogiar o trabalho do Gil. Mas este é um tremendo ponto negativo de sua pasta: a não-ruptura com o modelo de financiamento da grande indústria cultural nacional.

Se pelo menos o filme prestasse! Mas qual! Trata-se de um péssimo moralismo classe média misturado com grandes pitadas de estereótipos toscos. Há diversas opiniões contrárias, claro. Depois de cansativa busca, encontrei uma aqui. A moral da história é a seguinte: as pessoas que cometem delitos podem ser ressocializadas. Contudo, por “pessoas” o filme entende “brancos de classe média que usam drogas”. O que parecia ser um alento para o alto índice de encarceramento no país é, na verdade, um alento às senhoras distintas mães de família que vêem seus filhinhos “se perderem”. Tragicômica as cenas na carceragem: negros estereotipados de malandros dispostos a matar por uma Coca-Cola enquanto o branco é o estranho no ninho – aquele que pode ser salvo. O branco sai da cadeia, os negros ficam. Mas que fique claro: o objetivo desta mensagem não é passar um realismo chocante; é defender a realidade atual, mas o faz de forma tosca e rudimentar. Tenho vídeos melhores no youtube. Há uma cena em que se quer passar a mensagem que surfista é maconheiro, mas faz-se isso misturando Malhação com Todo mundo em pânico. Enfim, um trash mal-feito.  Só que pela Globofilmes e com recursos públicos. O filme, claro, é copyright e todos os direitos são reservados. Recomendo (não) assistir.

Ainda bem que, ao chegar em casa, me deparo com um filme bom. A pele, com Nicole Kidman. O filme trata do despertar de uma artista, como definiu meu irmão. E o despertar vem com o rompimento de uma mulher com sua rotina enfadonha e sem sentido (ela é ajudante do marido fotógrafo, mãe, boa filha e dona de casa) através do contato com pessoas com anomalias. Ela acaba tendo um caso peculiar com uma delas – um homem que sofre de uma doença que a faz ter mais pêlos do que um urso em todo o corpo, inclusive no rosto. Um filme que retrata a bizarrice de forma angustiante, mas artisticamente surreal. Genial a idéia de mostrar como o contato totalmente naturalizado com o totalmente estranho pode ressignificar uma vida totalmente normal e, talvez por isso, totalmente estranha. Recomendo assistir.

Pequenos Saberes – 1

janeiro 15, 2008

A castidade é a mais anti-natural de todas as perversões sexuais.

                                              Aldous Huxley, escritor

Nada de Freud, quem explica são Deleuze e Lacan

janeiro 15, 2008

Em primeiro lugar, os eventos singularidades correspondem a séries heterogêneas, organizadas num sistema que não é instável nem estável, mas metaestável, dotado de uma energia potencial na qual se distribuem as diferenças entre as séries. Em segundo lugar, as singularidades possuem um processo de auto-unificação sempre móvel e deslocado, na medida em que um elemento paradoxal atravessa as séries e as faz ressoarem, envolvendo os pontos singulares correspondentes num único ponto aleatório e todas as emissões, todos os lances de dados, numa única jogada.

                                                                               Gilles Deleuze

Soma-se a explicação de Jacques Lacan:

S (Significante)
——————  = s (o dito), com S = (-1), produz: s = √-1
s (Significado)

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Pronto. Não preciso dizer mais nada.

Um pouco de Borges, menos ainda de repetição

janeiro 12, 2008

Ao longo da minha formação universitária, li dezenas de livros e sabia que havia algo de errado com eles. Mas os ilustres mestres e doutores insistiam em dizer que se tratava de um grande clássico sem o qual não se poderia viver. Ainda assim, acompanhava-me a impressão de que, após a décima primeira página, eu já sabia tudo que interessava. A partir de então, as mesmas idéias passavam a ser ruminadas de diferentes formas. Assim, fica mais fácil escrever em outras palavras o que já foi escrito. É uma estratégia perfeitamente compatível com o fordismo no pensamento (produzir escritos enlouquecidamente) e com a tentativa de se fazer plausível e convincente através da repetição. Nunca pude expressar tal impressão, uma vez que sou apenas um jovem e recém-formado sociólogo desempregado. Mas é sempre bom recorrer a citações dos grandes que dizem a mesma coisa que você diz, mesmo sendo pequeno. Todos passam a ouvir inquestionavelmente. Afinal, não importa o conteúdo, mas a evocação da celebridade.

Vamos ao grande, então:

“Desvario trabalhoso e empobrecedor o de compor vastos livros; o de espraiar em quinhentas páginas uma idéia cuja perfeita exposição oral cabe em poucos minutos. Melhor procedimento é simular que estes livros já existem e propor um resumo, um comentário”.

Borges, J. L. Ficções. SP: Cia das Letras, 2007 (p. 11).

 Ia dizer mais uma coisa ou outra, mas sigo a advertência de Borges, finjo que o que diria já foi dito (e deve mesmo ter sido) e deixo apenas este resumo, este comentário.

Recomenda-se (não) ler

janeiro 12, 2008
3-alcoxi-4-hidroxi pirrolidin-2-onas, 2-metilsulfanil pirimidina, enoilcarbamatos e 3-dialcoxi fosforiloxi trialometilados: síntese e potencial inibitório sobre a atividade da enzima.

Este é o título de uma dissertação de mestrado, disponível no Domínio Público. Me deu muita vontade de ler.

Chávez e Emanoel

janeiro 12, 2008

Demorei de entender o caso Emanoel. Parecia aqueles filmes em que um menino detém poderes sobrenaturais e todos correm atrás dele, mas Steven Seagal ou Chuck Norris o salva dos algozes. Esses dias mesmo assisti um filme assim, no qual as artes marciais fantásticas de Jackie Chan se misturam com um misticismo trash e o lutador precisa salvar um garoto zen que detém o poder de distribuir a imortalidade. Mas a tv nunca dizia qual o poder sobrenatural de Emanoel que, já pelo nome, era significativo (Emanoel = Deus conosco).

Juntando cacarecos, ou seja, somando o que vi na Globo (sim, eu assisto!) com  o que li nos jornais e blogs consegui compreender do que se tratava. É que os noticiários tendem a privatizar as coisas: ao invés de discutir os programas de governo, mostram o penteado de Hillary e a avó de Obama na África. As coisas ficam ainda mais confusas e a política se transforma em fofoca da Contigo.

Na verdade, a questão central não é o menino Emanoel, mero coadjuvante de ocasião, mas, sim, as disputas entre as políticas externas de Chávez (esquerdista da Venezuela) e de Uribe (direitista da Colômbia). Após diversas mancadas (como chamar Bush de El Diablo na ONU e bravatas diversas até receber um “porque no te callas?” do rei espanhol), Chávez resolveu demonstrar algo prático: um poder de intervir em questões internacionais. Ainda mais que, neste caso específico, ele pretendia plantar duas árvores com uma única semente (tem pegado mal falar em matar coelhos – apesar de que experimentei num rodizío e adorei): atuar em favor do reconhecimento das FARC enquanto guerrilha e não grupo terrorista, aprofundando sua aura de líder das novas esquerdas revolucionárias e, simultaneamente, pôr em xeque a força de Uribe, ao realizar uma ação humanitária exitosa dentro de suas fronteiras.

 O caso é que Chávez estava negociando direto com as FARC a libertação de duas sequestradas mais um filho nascido em cativeiro (o tal Emanoel).  – Importante: a sequestrada teve filho com um guerrilheiro, mas a tv nunca mencionou estupro ou algo assim. E pode ter certeza que, fosse esse o caso, as FARC seriam rotuladas de Gulags do século XXI. Parece-me que a sequestrada flertou com um guerrilheiro. Mas a guerrilha não é a encarnação do mal? – Mas nem mesmo as FARC sabiam (ou não quiseram dizer) que Emanoel já não estava em território rebelde, mas, sim, num abrigo oficial do governo colombiano. Quando a Inteligência colombiana descobriu isso, Uribe utilizou o fato para desmascarar as FARC como trapaceiras e pôr um fim à tentativa de resgate.  Se se recusasse pura e simplesmente a colaborar, Uribe seria taxado de revanchista e unilateral. Mas as FARC arranjaram o pretexto perfeito. E Chávez ficou bancando o bobo. E Oliver Stone não filmou nada. Ponto pra Uribe.

Mas Chávez não desistiu. Pôs a Cruz Vermelha no jogo e levou a cabo o resgate das duas sequestradas. Desta vez teve êxito e os noticiários de tv do mundo todo mostraram a ligação do presidente bolivariano às libertadas e estas choravam de emoção e agradeciam à intervenção. Ponto pra Chávez.

No fim das contas, houve empate técnico. Mas a luta foi boa. E Emanoel vai reencontrar a mãe. Isso a Globo com certeza vai cobrir até enjoar os telespectadores. Quero ver a opinião de Leão Lobo.