Na realidade social, a morte física não implica a morte política, o que fica comprovado pelo suicídio de Getúlio Vargas, que saiu da vida para entrar na história. Com ACM, vulgo Antônio Carlos Magalhães, não seria diferente. Após 50 anos de poder à frente da política baiana, cujo auge se deu ao fim da ditadura militar e início do período democrático, falece por problemas de saúde, com poder político um pouco mais tímido, devido à institucionalização tardia da ordem democrática – ordem, esta, que Sérgio Buarque de Holanda afirmou ter sido sempre um “mal-entendido” em nossa história. Sua morte foi lamentada em larga escala pelos setores populares que, a despeito do sonho dos revolucionários, o amavam profundamente. Contudo, o tamanho do cortejo fúnebre demonstrava claramente que a classe média já não era fiel ao grande líder. O noticiário nacional reservou-lhe apenas uma nota de rodapé. O acidente do avião da TAM, vôo 3054, era mais importante do que a morte de um idoso que em tempos passados havia desempenhado papel de destaque na política baiana e quiçá nacional.

Carlismo em declínio?
Muito se discutiu entre os cientistas políticos da UFBA acerca do legado político da figura em questão. Para o professor Paulo Fábio Dantas Neto, poderíamos falar em carlismo pós-carlista, ou seja, os costumes e procedimentos políticos que permanecerão como diretrizes da política baiana, para além do DEM, contaminando, inclusive, setores ditos de oposição ao carlismo. Seria a força da tradição histórica da política autoritária já institucionalizada contra a boa vontade dos novos atores políticos em ascensão. Estes seriam obrigados a jogar com as regras do jogo e não estariam aptos, nem teriam base social suficiente, para mudá-las todas. Assim, o legado político não seria hereditário e nem poderia ser exclusivo do pouco carismático ACM Jr. ou do espevitado ACM Neto. O professor Paulo Fábio não quis concordar com seu colega Jorge Almeida, mas, na prática, essa interpretação significa mesmo, como afirmou o segundo, o declínio do carlismo, por mais que este não se dê por decreto, mas exija um tempo de transição no qual haverá misturas de práticas políticas, sempre permeadas pelo autoritarismo típico da tradição política brasileira, conforme brilhantemente demonstrado pelo já citado Sérgio Buarque de Holanda. Pela primeira vez em cinquenta anos, o clã Magalhães figura fora do executivo municipal da capital baiana e fora do governo estadual, além de não ter conseguido eleger o senador e, ainda por cima, ter assistido ao emagrecimento de suas fileiras partidárias, confirmando, mais uma vez, a tradição de que no Brasil se é amigo de quem está no poder. Se parecia lealdade programática, se devia apenas ao fato de que o velhinho se demorou muito tempo nos andares de cima da política. Mas seria errôneo pensar que sua morte marcou o começo do processo de declínio político. Este vinha acontecendo há alguns anos, desde a quase cassação no episódio da violação do painel do Senado e o caso dos grampos telefônicos. Mas a figura do chefe conseguiu evitar o desmoronamento total e, bem à brasileira, tratou de preparar a transição – projeto que havia sido interrompido com a morte de Luís Eduardo e retornou com a ascensão de ACM Neto. Contudo, o séquito carlista hoje se vê às voltas com grandes obstáculos para a continuidade do projeto. E na ausência de um grande poder, os pequenos poderes se animam – o popular “quando o gato sai, os ratos fazem a festa”.
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