Adendo ao “O significado da guerra”
O anúncio do cessar-fogo unilateral a partir de 18 de janeiro por parte de Israel não significa clemência, mas a conquista de seus objetivos estratégicos imediatos e um acordo com o grande patrocinador político, econômico e militar do Estado judeu – os Estados Unidos, que realizarão a posse espetacular de Barack Obama – para que o novo presidente não se veja às voltas com o conflito Israel-Palestina logo na inauguração de seu governo. O Massacre de Gaza (como prefiro chamar este conflito, uma vez que o termo “guerra” pressupõe duas forças armadas representando dois Estados – o que é violentamente negado aos palestinos) deixa como saldo cerca de 1300 palestinos mortos e mais de 5000 feridos, a maior parte composta por mulheres e crianças, contra 13 israelenses mortos – apenas 3 civis. Como “alguns rojões de quintal teriam provocado a reação de Israel?”, como se questiona Tariq Ali. Na verdade, as motivações de Israel são estratégicas e de longo prazo. Aproveitando o discurso midiático ocidental que transforma em terrorismo qualquer resistência ligada ao Islã, Israel concertou uma desculpa para prosseguir com sua orientação de Estado desde 1948: a inviabilização da permanência dos palestinos através da transformação de suas vidas numa verdadeira luta cotidiana pela sobrevivência. Hoje, contra todas as resoluções “simbólicas” da ONU, o poder de fogo concreto de Israel transformou os “territórios palestinos ocupados” (termo da ONU) em enclaves afastados e sem comunicação (Faixa de Gaza e Cisjordânia), militarmente ocupados, controlados e/ou bloqueados, aos quais se acrescentam os assentamentos interligados por estradas que Israel considera territórios sob sua jurisdição. A fronteira entre a Faixa de Gaza e o Egito é controlada por Israel, que, sob o pretexto de impedir o tráfico de armas para o Hamas, impede também o “tráfico” de água, comida e bens de primeira necessidade. Assim, o cessar-fogo unilateral, ainda que retoricamente comemorado pelo Hamas como vitória, significa que Israel irá retirar suas tropas a partir de suas orientações geoestratégicas e não em respeito a uma decisão da comunidade internacional. Poderá, desse modo, realizar “operações cirúrgicas” em território palestino – invisíveis aos olhos dos observadores internacionais – a caminho da retirada.

Por isso, deve-se lembrar que paz não significa necessariamente justiça e, ainda assim, um frágil cessar-fogo está longe de significar paz. A paz que Israel deseja é a da subordinação arbitrária e incondicional dos sobreviventes palestinos. Não sei se os integrantes do Hamas querem paz, mas é inegável a legitimidade de sua aspiração por território – um pouco de chão sem o qual nenhum ser humano pode viver. Mas não qualquer chão, mas o chão sagrado dos ancestrais, de sua cultura e de sua religião. O Hamas se equivoca em não reconhecer o direito de Israel existir tanto quanto Israel ao massacrar os palestinos e os expulsarem de suas terras. Por que apenas um lado é terrorista? Todas as violações de direitos humanos perpetradas no presente Massacre (outras especuladas como a do uso de fósforo branco) nos fazem lembrar que Israel nasceu como resposta européia ao Holocausto (sendo assim um derradeiro ato colonial de ocupação). Isso torna chocante o cartaz levantado em uma das inúmeras manifestações pró-Palestina ao redor do mundo: “Stop Palestinian Holocaust!”. Como Hannah Arendt reagiria a essa banalização do mal?
Tomo a liberdade para citar longamente trechos de Tariq Ali, pois considero leitura essencial e que impactou sobre minha opinião, deixando-me com dúvidas mais confortáveis do que uma verdade dogmática que corresponde a interesses escusos:
“O entusiasmo pela democracia torna-se zero entre os aliados ocidentais [de Israel], no instante em que, no oriente, os eleitores elejam partidos e candidatos que se oponham as políticas ocidentais. Israel e o ocidente fizeram de tudo para eleger candidatos do grupo Fatah: os palestinos enfrentaram manobras, ameaças, golpes, tentativas de suborno pela “comunidade internacional” e sua campanha incansável de perseguição aos candidatos do Hamas e outros grupos de oposição. A campanha foi incansável. Os candidatos do Hamas eram rotineiramente perseguidos ou atacados pelos soldados e pelas polícias de Israel, os cartazes eram confiscados e queimados, rios de dinheiro dos EUA e da União Européia enriqueceram a campanha a favor do Fatah, e, nos EUA, deputados e congressistas discursavam, para dizer que, se eleito, o Hamas não poderia governar. Até a data das eleições foi planejada para alterar o resultado das urnas. Marcadas para o verão de 2005, foram adiadas até Janeiro de 2006, para que Abbas pudesse distribuir vantagens. O desejo popular de promover limpeza geral, depois de dez anos de corrupção, de conversações sem propósito e sem objetivo, sob governos do Fatah, foi mais forte que tudo. O triunfo eleitoral democrático do Hamas foi tratado como sinal do renascimento do fundamentalismo e preocupante derrota nos planos de paz com Israel, por governos e por todos os grandes impérios de mídia em todo o mundo atlântico. Imediatamente começaram as pressões financeiras e diplomáticas, para forçar o Hamas a adotar as mesmas políticas do partido derrotado nas urnas. Sem qualquer ligação com o misto de ganância e dependência, com o sonho de enriquecimento rápido dos porta-vozes e políticos servis do Fatah de depois de Arafat, sem o mesmo tipo de subserviência a qualquer idéia de que algum “processo de paz” fosse algum dia possível mediante as políticas do Fatah de depois de Arafat e de Israel, o Hamas construiu na Palestina a alternativa e a lição de seu próprio exemplo. Sem ter a abundância de meios com que conta o atual Fatah, o Hamas construiu clínicas, escolas, hospitais, ofereceu programas de assistência social para as populações mais pobres. Os líderes e quadros dirigentes do Hamas vivem frugalmente, como vivem todos os pobres na Palestina. Esse tipo de resposta social e política às reais necessidades da vida no dia a dia explica o amplo apoio popular e eleitoral de que o Hamas goza hoje, não alguma recitação diária do Corão. Os ataques armados a Israel, como os da Brigada dos Mártires, a Al-Aqsa, do Fatah, são respostas de retaliação à ocupação muito mais mortal do que qualquer ação armada de resistência. Avaliadas na escala dos massacres perpetrados pelo exército de Israel, a reação dos palestinos é rara e sempre é muito menos violenta. O traço que distingue o Hamas em toda a região, obrigado a lutar uma luta desesperadamente desigual, não são os homens-bomba – recurso desesperado que se vê em muitos outros grupos –, mas uma espécie superior de disciplina, firmemente orientada para atender necessidades vitais de uma população também desesperadamente desamparada. Todas as mortes têm de ser condenadas, sobretudo a morte de civis, mas Israel é, de longe, autor de muito maior número de assassinatos na Região, estatística que os euro-norte-americanos ignoram completamente. Na Palestina, nem que quisessem os palestinos matariam na escala em que os israelenses matam. O verdadeiro problema dos EUA e da União Européia, motivo da oposição obcecada ao Hamas, é que o Hamas recusou-se a aceitar a capitulação implícita nos Acordos de Oslo, e, depois, de Taba a Genebra, tem-se recusado a esquecer as calamidades que EUA e a União Européia têm imposto aos palestinos. Desde Oslo, os EUA e a União Européia têm, como prioridade, quebrar a resistência do Hamas. Cortar os financiamentos à Autoridade Palestina é instrumento óbvio, para minar a influência de qualquer iniciativa política local na Região. Outro é inflar os poderes de Abbas – escolhido a dedo por Washington –, ao mesmo tempo em que minam a influência do Conselho Legislativo.” [fim de citação]
Assim, a paz, assim como a guerra, tem um significado político e um custo social. Enquanto o Ocidente se regozija pelo cessar-fogo, os palestinos sabem que o sofrimento está longe do fim. Paz deve ser mais do que o intervalo entre guerras. Nesse ponto, encerro estas considerações humanitárias contra o silêncio e a negligência com uma belíssima poesia/música composta por Chico Buarque em 1972 e interpretada por Maria Betânia:
SONHO IMPOSSÍVEL
Sonhar
Mais um sonho impossível
Lutar
Quando é fácil ceder
Vencer o inimigo invencível
Negar quando a regra é vender
Sofrer a tortura implacável
Romper a incabível prisão
Voar num limite improvável
Tocar o inacessível chão
É minha lei, é minha questão
Virar esse mundo
Cravar esse chão
Não me importa saber
Se é terrível demais
Quantas guerras terei que vencer
Por um pouco de paz?
E amanhã, se esse chão que eu beijei
For meu leito e perdão
Vou saber que valeu delirar
E morrer de paixão
E assim, seja lá como for
Vai ter fim a infinita aflição
E o mundo vai ver uma flor
Brotar do impossível chão